Ir diretamente para o conteúdo
Publicidade
Publicidade
Conteúdos
Por Lilian Burgardt
Frente ao mercado de trabalho competitivo e, também, à voraz concorrência empresarial você poderia até dar um desconto para o chefe perfeccionista. Mas e se a implicância se tornar constante? E mais: se for extendida a sua maneira de lidar com os colegas, às roupas que você veste e o jeito que se porta na empresa? Tal comportamento parece enlouquecedor e, de fato, é. Mas, lamentavelmente, acontece quando se é vítima do assédio moral.
Popularmente conhecido como 'perseguição' ou jogo de 'gato e rato', só que do chefe com o subordinado, o assédio se caracteriza quando é constante e, nos casos mais extremos, pode levar a vítima ao suicídio, tamanha a sua devastação. "O assédio moral fere nada mais que a dignidade e a identidade do trabalhador. Leva o indivíduo à ruína e o martiriza, pois ele sofre sem saber o porquê", explica a médica e doutora em Psicologia Social, Margarida Barreto, também pesquisadora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) sobre o tema assédio moral.
É mais ou menos assim: quem bate sabe porque bate, mas quem apanha não faz idéia do motivo. Segundo Margarida, o assediador, em 90% dos casos representado pelo chefe, persegue o funcionário sem razão aparente. Embora não haja um padrão de comportamento que instigue a perseguição e, tampouco, perfil do assediador que determine tal ação, alguns fatores são apontados pela médica como possíveis causas para que o chefe fique 'na cola' do subordinado. "Aquele que se destaca em funções cujo patrão desconhece ou não desempenha tão bem e aquele funcionário questionador que não aceita as regras da empresa têm predisposição para serem alvos do assédio moral", revela.
Mas o assédio pode vir de outra ordem que não seja a popular inveja, o medo ou a insegurança por parte dos patrões. Acertou quem disse a palavra preconceito. Em sua dissertação de mestrado, que mais tarde deu origem ao livro Assédio Moral - Uma jornada de humilhações, Margarida descreve casos de perseguição contra negros, homossexuais e mulheres com filhos pequenos. Características ou situações que ainda não são comuns no mercado de trabalho e, em alguns casos, mal vistas pelos empregadores. "Muitas pessoas não toleram o diferente. Com isso, o negro, o homossexual, o 'velho' e a mulher com filhos pequenos tendem a ser discriminados, tornando-se presas fáceis do assédio moral."
Há, também, perseguições e humilhações contra funcionários que se afastavam do trabalho por necessidade de cuidados médicos. Quem sofre com a LER/DORT (lesão por esforços repetitivos) e precisa fazer várias sessões de fisioterapia, ou quem se ausenta com freqüência por conta de outros problemas de saúde está sujeito a ser vítima de uma futura perseguição que pode vir a se tornar assédio moral. Isto porque, de uma hora para outra, passa a ser visto como 'persona non grata', ao passo que sua produtividade na empresa cai.
Este foi o caso de uma das vítimas citadas pela especialista. Ao sofrer com a LER/DORT e entrar em sessões de fisioterapia freqüentes e quase sempre na parte da tarde, um funcionário se viu atormentado por colegas e por seu gestor. Boatos de que ele saía mais cedo para se relacionar com outros homens começaram a ser espalhados, inclusive por seu chefe. A onda de fofoca foi tão grande que ele passou a ser chamado nos corredores da empresa de 'A Bela da Tarde'. Este homem, na faixa de 50 anos de idade, agüentou toda a humilhação durante dois anos, sozinho, sem contar para a família, até que conseguiu mudar de emprego. "Atacar a virilidade é outra característica comum do assediador quando a vítima é do sexo masculino", explica Margarida.
Vale lembrar que o assédio moral ocorre quando a perseguição é constante e não quando há casos isolados ou discussões pontuais, embora estes acontecimentos possam dar origem ao problema. Além disso, ao contrário do que muitos pensam, gestores do tipo impetuosos, autoritários, ou inseguros não são os únicos assediadores, já que o assédio moral não se resume a uma simples questão de personalidade. "Ele é fruto de uma conduta abusiva. Ocorre, majoritariamente, em um ambiente hostil e de alta pressão, em que o chefe se vale de constrangimentos e da maledicência para se livrar de um funcionário que lhe causa incômodo", explica Margarida. (Clique para conhecer os diferentes perfis de agressores retratados pela especialista de forma lúdica com base nos depoimentos de vítimas do assédio moral).
Identifique o mal e aprenda a reagir
À medida que as relações ficam mais tensas e os funcionários não sabem ao certo por que estão sendo perseguidos, o terror e o sofrimento se acentuam. As vítimas entram em um universo de isolamento, em parte criado pelo agressor, em parte construído por elas próprias, em que não encontram apoio de colegas ou amigos para se aconselhar ou reagir. Aliás, nem sabem ao certo o que fazer e se reagir é a melhor alternativa. Especialistas, por sua vez, defendem que deve-se, sim, buscar ajuda e jamais enfrentar o agressor sozinho. "O agressor é quase sempre um covarde. Uma vez que ele encontrar uma barreira para prosseguir, seja pelo posicionamento da vítima, ou por intermédio de terceiros, ele tenderá a mudar de comportamento", revela o professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), José Roberto Heloani. (Veja algumas estratégias utilizadas pelo agressor).
Bacharel em Direito e doutor em Psicologia Social, Heloani friza que é preciso, portanto, se posicionar. Neste caso, aquela célebre frase: as pessoas só fazem com a gente aquilo que permitimos que elas façam, tem fundamento, sim. Desta forma, no primeiro momento em que você perceber uma atitude hostil do patrão e enxergar que isso se repete com freqüência chame-o para uma conversa franca. "Muitas vezes o conflito que desencadeia o assédio moral pode surgir de um mal entendido", lembra Heloani.
Assim, para não dar mais proporção aquilo que não está bem resolvido, abra o jogo. Segundo especialistas, isso deve ser feito, preferencialmente, na presença de uma terceira pessoa que identifique a suposta perseguição ou agressividade. O especialista ainda aconselha as vítimas a procurarem o departamento médico da empresa ou o gestor do seu chefe. Em muitos casos, o superior de seu patrão pode reconhecer essa deficiência dele e tomar uma atitude. Convém lembrar, porém, que este tipo de comportamento é comum em gestores que têm uma mente mais aberta. Do contrário, a investida pode não dar em nada, ou pior, se tornar um revés para você.
Por mais que o mercado de trabalho seja competitivo e a reação seja sempre uma faca de dois gumes: podendo dar certo ouna pior das hipóteses, fazendo você perder o emprego, a ordem é: não aceite nada calado. Especialistas ressaltam que a falsa percepção sobre assédio moral, como a de que se trata apenas de uma forma dura de chefiar, ou de reorganização empresarial deve ser superada. Além disso, há mecanismos de defesa para vítimas do assédio moral. "Essa agressão é passível de punição. Embora não se tenha uma lei Federal, dada a complexidade do tema, estamos batalhando judicialmente para combater o assédio moral e ganhamos cada vez mais espaço", ressalta Heloani.
Muitos municípios já possuem legislações específicas para combater o assédio moral. Isso, para Heloani, já é uma vitória. Mas a maior conquista apontada por ele é a conscientização da população sobre o problema. "Cada vez mais vemos gente procurando informação sobre assédio moral, isso é muito gratificante", diz. E é justamente buscar informação, além de se munir de evidências para punir os assediadores que o especialista aconselha àqueles que pretendem vencer o problema. "O assédio moral possui um 'quê' de subjetividade, assim como o assédio sexual. Por isso, deve-se comprovar sua reincidência, seu padrão e seu conjunto para que seja possível punir o agressor", diz.
Saúde x emprego
Quando a situação fica insustentável é preciso reagir, inclusive, considerando a hipótese de optar pela demissão para preservar a saúde, já que o assédio afeta o estado físico e emocional da vítima. "É muito comum que os assediados sofrem de insônia, estresse, depressão, nervosismo ou tensão e que isso desencadeie problemas como hipertensão arterial, perda de concentração, perda de memória, entre outros problemas", revela Margarida. Como foi dito anteriormente, nos casos mais graves, pode levar ao suicídio. Especialmente entre os homens. "Em razão da cultura de que o homem não chora, tem que ser forte, etc, eles tendem a se fechar e enfrentar sozinhos o assédio moral. Quando não conseguem, se entregam", explica Margarida.
Tanto sofrimento gera ainda um outro problema, a agressividade. Esta, por sua vez, não se voltará contra o agressor, mas sim, contra as pessoas mais próximas da vítima do assédio moral. Quem sofre a violência, ou é humilhado de alguma forma não vai extravasar dentro da empresa pelo medo da demissão. A violência contida vai aparecer na briga com a esposa, com os filhos, na implicância com a televisão alta, etc. "É a degradação do estado físico e emocional da vítima influenciando as pessoas que a cercam", encerra a médica.
Encontre Notícias de seu interesse
Últimas Notícias em Carreira
Publicidade
Hoje no Universia
Mobilidade

universidade Empresa

Formação

Notícias

Quem Somos

Alianças
