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Networking virtual. Funciona?

Como usufruir de comunidades de relacionamento profissional

Publicado em 01/08/2006 - 21:16

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Por Bárbara Semerene

Todo mundo sabe do peso que tem um Q.I. (Quem Indica) na hora de arranjar um emprego ou galgar um novo cargo dentro da própria empresa. Uma pesquisa realizada pela consultoria DBM do Brasil - multinacional líder mundial em programas de transição de carreiras e que conta com 230 escritórios em 51 países -, provou o quanto ter uma boa rede de relacionamentos pode contar pontos na hora de conseguir uma nova colocação no mercado de trabalho: dos profissionais entrevistados que encontraram uma recolocação, 70% foram ajudados pelas redes de contatos que possuíam. Outros 15% por conta de empresas especializadas em recolocação profissional, 12% por meio de headhunting, 2% por métodos tradicionais (envio de currículos) e apenas 1% via internet. Ou seja, na maioria dos casos, a conquista de um emprego aconteceu por indicação de amigos, ex-colegas ou pessoas conhecidas.

De uns tempos para cá, ficou mais fácil administrar e organizar essa rede de contatos, com comunidades virtuais que facilitam a exposição e o acesso a esse "quem conhece quem que pode me ajudar". Não estamos falando do Orkut - que acabou sendo usado mais como entretenimento e para fazer uma boa rede no "mercado de paqueras" - mas de comunidades cujo foco é exclusivamente o contato profissional. Assim como o Orkut, elas promovem comunidades, fóruns, espaço para publicação de artigos e testemunhos - que funcionam como cartas de referência para cada membro.

No exterior, elas já existem faz tempo e são fortemente valorizadas. Uma das pioneiras é a Ecademy (www.ecademy.com), fundada por um inglês há cerca de oito anos (tanto tempo que já se tornou obsoleta por conta de sua plataforma ultrapassada, contando com menos de três mil membros no Brasil). De dois anos para cá, surgiram a OpenBC (www.openbc.com) e o LinkedIn (www.linkedin.com). E, em setembro de 2005, foi criada uma genuinamente brasileira: a Syxt (www.syxt.com.br).

Se, no início, todas eram comunidades fechadas que só permitiam entrada por meio de convite, atualmente na maioria delas qualquer um pode se cadastrar, sem pagar nada por isso. A maior delas é a LinkedIn, que já tem mais de seis milhões de membros, sendo 133 mil brasileiros, em sua maioria altos executivos. A LinkedIn é um um diretório de negócios, que funciona como "as páginas amarelas" na internet, onde se encontra o currículo e o contato de profissionais e suas empresas. É possível fazer uma busca pelo nome de alguém, checar se há algum conhecido seu na lista de contatos dessa pessoa, e então há um recurso que permite que você solicite a seu conhecido que o apresente ao seu "alvo". É possível também descobrir quem são os presidentes de grandes empresas e acessar o perfil deles ali, mandar uma mensagem, seja para oferecer seus seviços, recrutá-lo para trabalhar para você, para uma possível parceria ou, ainda, para a troca de conhecimento profissional. Isso com profissionais do mundo todo. Ou seja: é como se fosse uma grande vitrine profissional. A plataforma é em inglês, o que dificulta o acesso de quem não conhece o básico do idioma e, ao mesmo tempo, nivela "por cima", os profissionais cadastrados.

Em segundo lugar, em número de usuários, vem a OpenBC, uma comunidade de negócios que tem cerca de um milhão de membros. A vantagem é que esta é uma plataforma multilíngue - está em 16 idiomas -, o que facilita a comunicação entre as pessoas. Neste caso, sim, é como um Orkut profissional, bem como a brasileira Syxt, que já tem 30 mil membros. O perfil dos usuários da comunidade brasileira, no entanto, é diferente da LinkedIn ou OpenBC. É composta por um público mais jovem, entre 25 e 35 anos, com menos experiência no mercado, de nível de gerência médio. A maior parte é da área de Recursos Humanos, Marketing e Tecnologia.

E funciona?
"O forte da Syxt ainda é a troca de conhecimentos, mais do que o networking", diz Diego Monteiro, criador da comunidade. Por que? O brasileiro ainda não tem cultura de networking. Isso é um consenso entre os especialistas. "Agora é que está começando, por aqui, o incentivo ao empreendedorismo. O brasileiro está acostumado a ser empregado, depender de um patrão", argumenta Monteiro, ele próprio um empreendedor nato: criou a Syxt logo que formou-se em Ciência da Computação, aos 22 anos.

"Na Europa e nos Estados Unidos, existe uma forte cultura de networking e o público em massa já sabe como utilizar bem as ferramentas virtuais para bem relacionar-se. Mas o brasileiro é desconfiado por natureza. Antes que você prove o contrário, ele acha que o outro pode passar a perna nele, não ajudá-lo. Além disso, o brasileiro é mais informal, não leva tão a sério a troca de cartões, por exemplo", argumenta o administrador Octavio Pitaluga, especializado em Gestão de Redes de Negócios, e o brasileiro que possui mais contatos no LinkedIn: já são mais de 15.500. Ele está em terceiro lugar no mundo no ranking de maiores contatos da comunidade.

Pitaluga é um exemplo de alguém que descobriu no networking virtual uma oportunidade de negócios. Ele tinha acabado de voltar da Holanda, onde fez seu MBA e foi diretor de marketing de uma empresa de telecomunicações, quando foi convidado para a comunidade. "No início, não dei muita bola. Mas, em um dia de chuva, comecei a navegar e achei o chairman do Ecademy ali, que estava procurando um representante para o Brasil e a América Latina. Entrei em contato com ele, mandei um plano de ações para justificar porque eu seria o mais indicado para trabalhar com ele, e formamos uma parceria. A partir daí, me tornei membro atuante nas plataformas de negócios online, com especial ênfase no LinkedIn. Nisso percebi nos congressos e encontros de MBAs que frequentava que passei a ser mais conhecido pelos meus contatos no LinkedIn do que no Ecademy. Então, resolvi abrir minha própria empresa de coaching e treinamento em Gestão de Redes de Negócios, a Net Bridges - www.net-bridges.com.br", conta. Hoje, ele dá palestras sobre gestão de redes de comunidades para executivos e empreendedores, e se autointitula CNO (Chief Networkig Officer), ou seja, líder de Gestão de Redes de Negócios.

Assim como Pitaluga, aos poucos os brasileiros vão descobrindo como utilizar as comunidades virtuais. É o caso da consultora de RH carioca Inge Christmann. Na Syxt desde outubro do ano passado, ela já tem 200 contatos e investe três horas por dia de seu tempo na comunidade. Já formou parceria com um consultor de São Paulo e outro no Rio de Janeiro para dar cursos online, indicou amigos para vagas de empregos e criou três comunidades. "Troco muita experiência ali com profissionais de outras empresas e cidades. Tiro dúvidas sobre minha área de atuação, dou e recebo coaching", conta. Mas os contatos geralmente não saem do virtual: primeiro por e-mail, depois por MSN. "Em geral, aceito a pessoa como contato e travo uma conversa mais próxima depois de procurar pelo nome dela no Google e analisar se gosto de seus posicionamentos nos grupos de discussão dentro das comunidades", conta.

A psicóloga organizacional Beatriz Ruiz só conseguiu escapar do desemprego por meio da Syxt, onde atualmente tem 800 contatos. Ela teve de se mudar de Porto Alegre para Camboriú com seu marido, que foi transferido de emprego, e passou dois anos desempregada. Sem sucesso, tentou conseguir alguma vaga por meio do Orkut e de sites de recrutamento e seleção. "Aqui, o mercado é fechado para profissionais de fora, não é como São Paulo ou o Rio de Janeiro", explica. Até que conheceu a Syxt e investiu pesado no networking. "Eu ficava cerca de três horas ali, escrevia artigos, mandando e respondendo e-mails. Acho que consegui me destacar principalmente pelos meus artigos. Ali eu tinha espaço para mostrar a minha competência. Além disso, o segredo do Networking é tratar bem as pessoas, ser atenciosa, disponível". Ruiz criou as comunidades "Dinâmicas de grupo", que já tem mil membros, "Profissionais de Santa Catarina", com 130 membros, e aos poucos foi recebendo convites para coordenar outras. Em dois meses, foi convidada para prestar consultoria para o portal Conexão Jurídica. Logo depois, foi contratada pela Pensare Consultoria.

No LinkedIn, as oportunidades profissionais se expandem para nível internacional. O brasileiro Paulo Penteado, Diretor Executivo da Beacon Consulting, na Austrália, por exemplo, já fez parceria com uma empresa americana por meio do LinkedIn, recrutou pessoas por ali e recebeu algumas propostas de emprego. Atualmente, está avaliando uma oportunidade de negócio que foi oferecida por meio da comunidade. "Além disso, sei quando alguém muda de empresa e quem contatar quando preciso de algo", conta.

"Depois que começou a onda de fusões de empresas, corte de pessoal e aumentou a instabilidade no emprego, tornou-se fundamental o networking. Você não pertence mais a uma empresa, mas ao mercado. Por isso, hoje é fundamental o profissional estar em alguma dessas redes virtuais para ser encontrado e para encontrar. Mas as pessoas ainda estão se habituando com as ferramentas", afirma a consultora Irene Ferreira Azevedo, professora de Liderança e Coaching da BBS (Brazilian Business School).

Veja as dicas dos consultores para bem utilizar as comunidades de networking virtual:
1. Mais importante do que a quantidade de contatos que você tem é a qualidade dos seus contatos e sua relevância no mercado de trabalho.
2. Para adicionar alguém, aborde-o indicando um artigo que você escreveu e que possa interessá-lo. Vale também buscar pontos de identificação por pessoas ou comunidades em comum.
3. Participe dos blogs e fóruns de discussão moderados por terceiros. Contribua de modo significativo para o enriquecimento da discussão. Evite a tentação de fazer piadinhas de qualquer tipo. Use esse espaço para demonstrar respeito pela audiência e cativar a sua atenção para o seu perfil profissional.
4. No seu perfil, opte por uma foto que transmita seriedade. Nada de fotos sensuais, na praia ou coisa do gênero.
5. Adquira a consciência de que, ao se relacionar com alguém profissionalmente, você está, por tabela, se relacionando a uma rede de pessoas. Se a sua experiência com aquela pessoa for positiva, ela pode ser um acelerador para abrir portas pra você. Se for negativa, pode funcionar como um bloqueador.
6. Seja bem objetivo na descrição do seu perfil. Diga o que sabe fazer, o que tem para oferecer e deixe claro o seu valor.
7. Colecione testemunhos. No começo, você pode até pedir para quem você sabe que tem uma boa impressão a seu respeito que dê feedback sobre o seu trabalho por meio de um testemunho.
8. Mostre-se solícito quando procurado por novos contatos. Procure responder com uma certa presteza. Considere atentamente todas as possibilidades de ganhos múltiplos e mútuos oferecidos por aquela pessoa. Procure ver a "metade do copo cheia" em cada contato mesmo que o assunto em si não lhe diga respeito diretamente. Alguém na sua rede poderá se interessar, eventualmente.

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