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Nem sempre é preciso sair do Brasil para ter contato com uma cultura diferente. Mesmo sem nunca ter viajado ao exterior, a secretária executiva Valéria Fernandes, 35 anos, substituiu o tradicional intercâmbio pelo convívio com um estrangeiro. Idioma, costumes, experiências e, inclusive, técnicas profissionais muito distintas, mas um ponto em comum reúne a brasileira e o holandês. Ambos dividem o mesmo ambiente de trabalho num convívio de oito horas por dia, cinco dias por semana.
"Ainda que o trainee expatriado exerça uma função diferente da minha, trabalhamos no mesmo departamento e diariamente mantemos contato - seja em reuniões de negócio ou em almoços informais", conta Valéria, assistente de viagens da Philips. Para ela, a convivência com o estrangeiro tem contribuído diretamente para o seu desenvolvimento pessoal e profissional. "Procuro sempre respeitar, avaliar e aprender com as divergências", diz ela. "Passei, inclusive, a adotar do costume holandês a estratégia de planejamento", acrescenta ela.
A experiência de Valéria, segundo a presidente do FAUBAI (Fórum de Assessorias das Universidades Brasileiras para Assuntos Internacionais), Suzana Queiroz de Melo Monteiro, é cada vez mais comum entre os profissionais que atuam em empresas multinacionais ou multiculturais. "A validade do aprendizado, no entanto, depende exclusivamente da postura do brasileiro com o profissional internacional", assegura Suzana. Isso porque de nada adiantaria dividir o mesmo espaço com um estrangeiro se o contato fosse superficial. "Se esquivar ou fugir do diferente é se privar de crescer. As oportunidades de desenvolvimento se ampliam com a proximidade", assegura ela.
Mas cuidado. Proximidade não é sinônimo de intimidade. Para evitar ultrapassar esse limite Marisa Silva, consultora da Career Center - empresa de consultoria de empregos -, orienta que os profissionais analisem bem o perfil do estrangeiro antes de estreitar as relações. "Priorize, inicialmente, o contato formal. Sempre que possível se aproxime e tente estabelecer postura cordial com respeito aos limites impostos pelo colega de trabalho. Se coloque a disposição para ajudá-lo e demonstre interesse em aprender mais sobre sua cultura e suas experiências, sem se tornar invasivo", sugere ela.
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Sem oportunidade para fazer intercâmbio, Valéria Fernandes aproveita convivência com holandês em ambiente de trabalho |
Além de exercitar a observação, Marisa também indica o conhecimento prévio sobre a cultura do país de origem do profissional expatriado. "Hoje, a Internet favorece esses aprendizados. Quanto maior o número de informações sobre os costumes do estrangeiro, menor serão as chances de 'dar foras'. A atitude também favorece a empatia e, conseqüentemente, facilita o contato", aconselha a consultora.
Maria Ester Pires da Cruz, gerente do Núcleo de Desenvolvimento de Carreiras do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa - antigo IBMEC São Paulo), também acredita no potencial da empatia para o fortalecimento de qualquer relação. Mas, na opinião dela, o processo só é eficaz quando os rótulos culturais são eliminados. "Iniciar um relacionamento com um alemão com o preconceito de que todo europeu é frio e metódico não é um bom começo", exemplifica ela. Para Maria Ester, esses rótulos, por si só, limitam as situações de aprendizado. "Se aproxime e procure explorar a circunstância. Não se deixe intimidar por estereótipos", aconselha a gerente, que aponta a vantagem dos profissionais mais extrovertidos nessa relação.
As dicas, de acordo com Marisa, devem ser aplicadas independentemente do cargo que o expatriado ocupa. "Seja ele colega de trabalho, subordinado ou chefe, o comportamento deve ser o mesmo", enfatiza a consultora. Para Maria Ester, o respeito e o acolhimento também são importantes em qualquer um dos casos. "Além do mais, os aprendizados poderão ser efetivos independente da posição que o estrangeiro tem dentro da empresa", declara ela.
Um contato e muitos aprendizados
O relacionamento com um estrangeiro pode ser valioso para profissionais de todas as áreas do conhecimento. É o que garante a coordenadora do Departamento de Carreiras da Faculdade IBTA, Priscila de Azevedo Costa. "As exigências do mercado de trabalho não se restringem à formação técnica. Há muitos valores, inclusive, que se destacam em relação a esse requisito e o enriquecimento cultural é um deles. Cobrança que não é específica de uma área, mas generalizada em todos os campos e setores", explica ela. De acordo com Priscila, o atributo pode ser favorecido a partir da vivência com um profissional internacional. "A relação propicia o conhecimento de culturas diferentes e o desenvolvimento de adaptabilidade", resume ela.
Benefício comprovado pelo advogado Rodrigo Davoli, 30 anos, que em 16 anos de experiência na International Paper - multinacional do setor de celulose e papel - já obteve contato com profissionais de diversas partes do mundo. "Ainda que grande parte do meu relacionamento esteja direcionado a norte-americanos e europeus, meu trabalho me propiciou contatos, inclusive com russos e chineses", conta o gerente de exportação. Para ele, essa troca de experiência tem o ensinado a respeitar as diferenças e aproveitar o potencial de cada uma delas. "Hoje sou um profissional muito mais flexível", acredita ele.
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Aprendizados adquiridos a partir de contato com estrangeiros contribuiram para que Rodrigo Davoli se desenvolvesse dentro da multinacional |
As vantagens dos relacionamentos internacionais, segundo Davoli, não se limitam aos conhecimentos culturais. Na opinião dele, a relação também proporciona a expansão de informações técnicas. "É fundamental procurar conhecer o panorama do seu setor no país de origem do estrangeiro. Até mesmo as nações mais carentes têm muito a contribuir com o nosso desenvolvimento profissional", diz o advogado. De acordo com ele, ter um estrangeiro como companheiro de trabalho ajuda na renovação do ambiente e na conduta profissional. "Experiência que prepara qualquer um a trabalhar no mercado mundial e até mesmo a gerenciar uma equipe fora do Brasil ou composta por estrangeiros", afirma ele.
As oportunidades no exterior, de acordo com Priscila, são intensificadas ainda com a rede de relacionamento estabelecida com o contato internacional. "A relação com o expatriado pode render a indicação para uma vaga de trabalho fora do Brasil. Ou ainda facilitar a realização de um intercâmbio", aponta a coordenadora da IBTA. Quando a experiência ajuda no conhecimento de um novo modelo de gestão, as alternativas podem se expandir ainda mais. "Conhecer o modo de um japonês gerir os negócios, por exemplo, pode ampliar as chances do profissional ingressar em uma empresa asiática", exemplifica ela.
O aprendizado e o aperfeiçoamento de um novo idioma também integra a lista de benefícios que o relacionamento com um estrangeiro pode proporcionar. "Ainda que tenha freqüentado cursos do inglês no Brasil, nada melhor do que praticar os conhecimentos com alguém que domina o idioma", declara a assistente de Viagens da Philips. "A partir do contato com o holandês, além de aprender algumas palavras e expressões desse idioma tão particular, pude incrementar o meu vocabulário de inglês na área de negócios", admite Valéria.
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