Ir diretamente para o conteúdo
Publicidade
Publicidade
Conteúdos

Transmitir o saber com "sabor". É assim que o professor do Departamento de Letras da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Deonísio da Silva, define seu novo livro, "A Vida Íntima das Palavras", lançado pela editora ARX. Resultado de dez anos de pesquisas etimológicas (que renderam outros dois livros - "De Onde Vêm as Palavras" 1 e 2), a obra conta a "viagem" que os verbetes fizeram até chegar à sua grafia atual. "Fico inconformado com a linguagem das pesquisas acadêmicas. Elas são ilegíveis", critica.
A idéia do novo livro surgiu durante suas aulas na universidade. Silva, que leciona desde sua graduação, diz que o relacionamento com os alunos mostrou que, muitas vezes, o conhecimento se perde pela distância da linguagem do aluno. "Quase sempre o assunto é interessante, mas o professor não descobre uma maneira de tratar o tema que encante o estudante", explica. Assim, para ampliar o interesse dos alunos pelo tema, "A Vida Íntima das Palavras" é um livro marcado pelo bom humor e por inúmeras curiosidades, que mostram a palavra em sua "essência".
O tom humorístico encontrado no livro, porém, não tira o rigor científico das pesquisas de Silva. A busca pela origem das palavras e as transformações que elas sofrem pode levar horas de pesquisas em bibliotecas, em livros de ensaios, contos, poesias. "Outras fontes importantes são os dicionários das diversas línguas. O português, tal como é usado, está muito radicado no latim e no grego, assim, quando você rastreia o termo em sua origem mais remota, geralmente chega a uma dessas línguas", explica.
O professor alerta que nem sempre as palavras vêm de onde se imagina. É o caso, por exemplo, do termo "chulé". "Esta parece uma palavra africana, mas vem de solea, a sandália do soldado romano, de couro. Nas longas caminhadas, ela ficava com um cheiro horroroso, o que deu origem ao termo", conta. Com o passar do tempo, a palavra foi sofrendo diversas alterações, causadas em particular pela pronúncia dos ciganos da Península Ibérica. Estes povos foram mudando a palavra para chuli, depois chulo, até que, em Portugal, ela se tornou o popular "chulé".
Para Silva, a língua portuguesa é um dos mais exuberantes idiomas do mundo. No entanto, o professor afirma que o Brasil, apesar de ter o maior número de habitantes que utilizam o português no mundo, não tem determinado sua escrita, utilizando a gramática de Portugal com poucas alterações. "Nós temos de mudar isso. A língua é boa, tem inegáveis recursos criadores, é uma língua que tem presente e futuro, mas precisa urgentemente de alterações na parte escrita", alerta.
Uma das principais críticas do professor diz respeito ao excesso do uso de estrangeirismos no Brasil. Para ele, o deputado Aldo Rebelo (PC do B/SP) foi mal compreendido quando enviou um projeto de proteção à língua portuguesa para a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. "A preocupação do parlamentar é válida, pois está havendo um abuso no uso dos anglicismos. Muitas vezes, você tem o equivalente na língua portuguesa, mas não usa", diz Borba. Jornais e revistas, segundo ele, são os principais difusores destes termos. "Há algum tempo a Folha de São Paulo tentou colocar ´playoffs´ no lugar de finais para o campeonato de futebol. Acho isso de uma pobreza tão grande. Temos finais, semifinais, por que playoff? É desnecessário", exemplifica
Embora reconheça que em alguns termos técnicos não cabe uma tradução clara, Silva também critica o excesso de estrangeirismos na informática. "Algumas palavras não têm tradução e se incorporam à lingüagem como o delete, por exemplo", diz. "Mas a linguagem de computador, além do excesso de estrangeirismos, é mal traduzida. Lá no Word, por exemplo - que, aliás, poderia ser perfeitamente traduzido por Palavra - você encontra o ´Salvar Como´. Salvar? O melhor seria guardar, arquivar. É um estrangeirismo idiota", critica.
Movido pela paixão à origem das palavras, Silva já concluiu seu próximo livro, que será lançado no próximo ano. Desta vez, a busca será pela origem de expressões famosas. "São expressões que se pensa que foram criadas agora. O Galvão Bueno, por exemplo, usa um bordão que está na Odisséia, o ´agüenta coração´", conta. Segundo o professor, o interesse por estes estudos nasceu há muito tempo e, atualmente, é a maior de suas paixões. "Acho o Reino da Palavras simplesmente encantador, muito mais que um conto de fadas", finaliza.
Deonísio da Silva é colunista de diversos veículos de comunicação, como o Jornal do Brasil, o Observatório da Imprensa e a revista Caras. Veja abaixo alguns verbetes de seu último livro, "A Vida Íntima das Palavras", lançado pela editora ARX:
Amor - do latim amore, declinação de amor, amoris. Provavelmente o amor é invenção de poetas gregos e latinos, uma vez que em tempos imemoriais a humanidade dava mais importância ao cio, tendo dificuldades de expressar os sentimentos que o acompanhavam. Eterno tema de escritores e artistas, o amor recebeu tratamentos complexos na literatura. Machado de Assis faz com que o personagem Brás Cubas assim se refira à sua amante, a espanhola Marcela, de vida desvairada: "Marcela amou-me durante quinze minutos e onze contos de réis". Para afastar o filho da espertalhona, o pai envia o rebento para a Universidade de Coimbra. O vestibular era mais agradável no século XIX, ainda que por meios forjados.
Balzaquiana - O escritor francês Honoré de Balzac forneceu o étimo para este vocábulo, sobretudo a partir de um de seus 90 romances, intitulado "A mulher de trinta anos", no qual delineou o perfil de uma figura feminina que soube caracterizar num misto de sedução e madureza. Entre os 2.000 personagens que criou, a balzaquiana consagrou-se como um tipo todo peculiar, vivendo numa sociedade dominada pelo poder do dinheiro e entregue a paixões sempre mais complexas. A balzaquiana de hoje, caso não tenha elegância de comportamento, é logo vinculada à perua. E sua faixa etária foi bastante ampliada.
Movimento - do latim movimentu, ato de mover, trocar de posição. É vocábulo polissêmico, designando desde o tráfego dos corpos celestes no espaço até as revoluções. Detido com estudantes em passeata, o jornalista e humorista gaúcho barão de Itararé, perguntado pelo delegado se também integrava o movimento, surpreendeu o inquisidor respondendo que, não apenas ele, mas todos, inclusive os policiais, integravam o movimento, já que este é uma lei física. Foi preso sabe-se lá por quais razões. Talvez por desacato à autoridade ou por ensinar uma disciplina das ciências exatas sem autorização e ainda fora da sala de aula, sem que o policial estivesse devidamente matriculado. Ou, o que é mais provável, pela raiva do delegado diante das risadas que reboavam no recinto. A 9 de julho de 1932, eclodia em São Paulo o Movimento Constitucionalista, liderado pela oligarquia cafeeira tradicional e apoiando pela classe média. A sigla MMDC homenageia os quatro estudantes mortos pela polícia, cujos sobrenomes era Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo.
Dinamite - do grego dynamis, força. Descoberta por Alfred Nobel, a dinamite é formada de areia e nitroglicerina e tem um descomunal poder de explosão. Um jogador do Vasco, que serviu a seleção brasileira na Copa de 1978, era chamado de Roberto Dinamite por causa da potência de seu chute. Eram dias gloriosos para o futebol, pois no mesmo time jogava Rivelino que ganhara o apelido de "patada atômica" por motivos óbvios.
O.K. - diz-se oquei. Abreviação do inglês oll korrect, variação de all correct, tudo certo, de acordo com mestre Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, em seu dicionário. Já era mais do que na hora de os seus dicionários terem a coragem de grafar o vocábulo como ele é dito. Já se usa a variante "oká".
Encontre Notícias de seu interesse
Publicidade
Hoje no Universia
Mobilidade
universidade Empresa

Formação
Notícias

Quem Somos
Alianças
