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Um personagem a cada dia

"A concepção" mostra uma filosofia de vida polêmica e provocativa

Publicado em 08/06/2006 - 00:01

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Do Universia

Já imaginou ser uma nova pessoa a cada dia, como se o nascer do sol fosse o marco para o renascimento? Pode parecer loucura, mas este é o dilema do Movimento Concepcionista, narrado no filme "A concepção", de José Eduardo Belmonte. Um soco no estômago para uns e apenas mais uma diversão para outros. O longa, desde a primeira exibição, já mostrou a vocação para a polêmica, dividindo opiniões e paixões. Não foi à toa, porém, que a produção brasileira saiu do Festival de Brasília com dois troféus: melhor montagem e melhor trilha sonora.

Enquanto a agilidade técnica, os efeitos de animação e a câmera inquieta conquistam a admiração do público, as cenas de nu frontal, sexo grupal e do consumo excessivo de drogas chocam. Mas nada é gratuito numa história que pretende descrever uma juventude rica, fútil e inconseqüente.

O filme mostra o cotidiano de Alex (Juliano Cazarré), Lino (Milhem Cortaz) e Liz (Rosane Holland), filhos de diplomatas que dividem um apartamento em Brasília. Ninguém trabalha, estuda, tampouco tem algum objetivo de vida. Jovens unidos por um único fator: não agüentam mais o tédio do Distrito Federal. Porém, com a chegada do misterioso X (Matheus Nachtergaele) este tédio vai dar lugar a outras sensações.

O grupo funda o "Movimento Concepcionista", com uma filosofia que prega a "morte do ego". O mundo seria apenas um grande teatro e o concepcionista um criador de personagens que duram apenas 24 horas. Mas na prática esta utopia acabou virando uma interminável festa de sexo, regada a todo tipo de droga.

"A Concepção" utiliza seqüências frenéticas e imagens chocantes para capturar a atenção do espectador a cada minuto de projeção. O problema é que o foco do longa muda constantemente de personagem, fazendo com que nenhum deles seja explorado em profundidade.

Com um acentuado erotismo e sem um respaldo realista, Belmonte expõe uma filosofia de vida calcada no prazer. A história funciona como um quebra-cabeça, que vai sendo construído através da experiência sensorial de cada um dos espectadores. Bom ou ruim está é uma coisa que só você poderá dizer.

Freqüentar as aulas, pura e simplesmente, não é suficiente para a formação de um profissional. Algumas atividades extracurriculares colaboram bastante para o enriquecimento acadêmico e pessoal. Não estamos falando daquelas palestras chatas com duração de duas horas e meia. Pode ser mais simples e divertido do que se imagina. Uma visita ao cinema, por exemplo, contribui nesta empreitada em busca do conhecimento. Isto porque, muitas vezes, as telonas alertam a sociedade sobre problemas isolados para que sejam analisados de forma universal.

Este é o caso do mais novo filme do diretor José Eduardo Belmonte, "A Concepção", que traz à tona a questão das utopias em um mundo capitalista, ainda cheio de vazios. Muito mais do que apresentar os conflitos afetivos, sociais e políticos da juventude brasileira de classe média, o longa propõe, indiretamente, uma reflexão sobre o sentido da vida. "Um pequeno passo para reavivar a fantasia e o sonho de um país melhor", afirma o cineasta Belmonte. "Para atingir este objetivo foi preciso expor o esgotamento da situação atual", acrescenta.

Apesar de fictícia, a obra faz uma analogia à realidade. Assim, entram em debate temas como sexo, drogas, falsificação, falsidade ideológica e anarquismo. "O filme está baseado na atualidade, discute questões políticas e sociais do mundo em que vivemos. Por isso, pode ser utilizado como pano de fundo para várias discussões", comenta a professora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Marina Massi.

A psicóloga, porém, lamenta a forma como o assunto foi conduzido. "A temática é boa. São temas que precisam realmente ser discutidos e analisados. Além disso, poucas são as produções que retratam esta classe social média/alta. A pena é a forma como estas questões foram desenvolvidas", comenta. "Mais uma vez, o filme brasileiro peca pelo excesso e pela banalização do nu e do sexo".

Contudo, será que "A Concepção" pode contribuir na formação de um universitário? O próprio ditado popular já diz: uma imagem vale mais do que mil palavras. Por isso, aprender por meio desta linguagem pode ser muito mais fácil. Além do mais, algumas questões abstratas podem se tornar mais concretas através dos filmes, aproximando a problemática do aluno. Não há como negar, ainda, que esta pode ser uma forma mais divertida de apreender.

De acordo com Belmonte, toda arte pode colaborar para a formação de um indivíduo, seja universitário ou não. "Mas isso vai depender da maneira de olhar esta produção", afirma. Para o diretor, até na pior das criações artísticas é possível adquirir conhecimentos. O importante, porém, é filtrar as partes boas e não se prender às demais. "Estar dispostos a tirar proveito do que lhe foi transmitido também é essencial".

Quem não pode perder?

De maneira geral, o filme pode colaborar com todos os universitários que queiram refletir sobre o papel do jovem na sociedade. E, além de contribuir para o desenvolvimento profissional dos estudantes, a produção contribui muito para o crescimento pessoal de qualquer espectador. "Qualquer livre pensador, universitário ou meta-gama-alfabetizado, pode utilizar obras de arte e dar à vida novos sentidos e significados", afirma o professor de Antropologia da Imes (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) José Luiz Solazzi.

Por meio do filme, de acordo com a professora Marina, é possível fazer reflexões psicológicas, sociológicas e filosóficas, já que são tratados assuntos como movimentos políticos, ideologias, comportamentos dos jovens, formação de grupos e liderança. "Por este motivo, universitários dos cursos de Ciências Sociais, Sociologia, Psicologia, Filosofia, Antropologia e Comunicação Social, poderão utilizá-lo como análise e fonte de estudos", garante.

A qualidade na montagem e na trilha sonora do longa ainda promove benefícios para os estudantes dos cursos de Cinema. Questões como produção, roteiro, temática, iluminação e linguagens fotográficas podem ser analisadas. "A concepção é um bom incentivo a estes universitários. A produção é diferente, mas resgata a tradição do cinema marginal. Um cinema mais ousado", afirma o diretor. "Fugir do convencional, arriscar e criar novas formas de produção é fundamental nesta área", orienta.

E mais, os estudantes de Arquitetura também poderão se basear no filme para um aperfeiçoamento profissional. "O longa mostra de que forma a arquitetura reflete na vida das pessoas", informa Belmonte. "O filme é polemico. Mas para os que assistirem a produção com os olhos livres muitos conhecimentos poderão ser absorvidos através desta experiência sensorial", conclui.

A Concepção
Gênero: Drama
Duração: 96 min.
Ano: Brasil - 2006
Direção: José Eduardo Belmonte
Roteiro: Luís Carlos Pacca e Breno Álex

divulgação

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