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Além de formar acadêmicos, educadores e profissionais, a universidade também é
um grande celeiro de bandas de Rock and Roll. O acesso às informações culturais
e a amizade entre colegas de classe estimula os universitários a se unirem para
formar grupos musicais e reproduzir em forma de música seus sentimentos. Energia,
vitalidade, paixão, raiva, desilusão ou, simplesmente, alegria são despejados
em riffs de guitarra que, muitas vezes, nascem no meio acadêmico e alcançam o
mainstream.Hoje existem no Brasil centenas de bandas nos mais variados estilos formadas por universitários. No entanto, a maioria dos estudantes mantém o grupo como uma diversão paralela e se inserem no circuito underground do rock, tocando apenas em pequenos bares para amigos e familiares. Porém alguns conjuntos, por sua qualidade, conseguem alcançar o estrelato no pequeno "mercado roqueiro" do país.
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De acordo com Carlinhos, que concluiu o curso de jornalismo na PUC-RS em 2002, a universidade foi um ambiente ideal para que a banda acontecesse. "Apesar de nos encontrarmos, na maioria das vezes, no bar, ela foi importante porque pudemos conceituar a banda." Além disso, o vocalista conta que nas conversas com os amigos da PUC-RS o tema era sempre o mesmo: rock. "Como gostávamos de música, resolvemos criar um fanzine para falar sobre a cena roqueira como um todo. Além de divulgar a cultura local, aproveitávamos o lançamento de cada edição para fazer shows com bandas da universidade e independentes de Porto Alegre", disse.
Foi justamente a partir dessas festas que o grupo a Bidê ou Balde foi lançado do underground para o mercado nacional. Essa "evolução" possibilitou que a banda, em menos de cinco anos de estrada, lançasse dois trabalhos: "Se sexo é o que importa, só o rock é sobre amor!", de 2000; e "Outubro ou nada!", do começo deste ano. Para Carlinhos, são inúmeros os fatores que contribuíram para o sucesso dos dois discos. Porém o fato de o grupo tocar um "Pop Rock" voltado para a juventude foi essencial. "Parte dos nossos fãs são estudantes . Automaticamente, um ouve, gosta, e recomenda para outro amigo. Assim fomos sendo difundidos entre as galeras", conta.
Isto foi o que aconteceu também com o grupo Los Hermanos. Formada em 1997 por estudantes da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), a banda estourou no país dois anos depois com o hit "Anna Julia". A faixa catapultou o primeiro disco ( que leva o nome da banda) à marca de 300 mil cópias vendidas. Além disso, o sucesso rendeu à banda, em 2000, os prêmios de Grupo Revelação e Melhor Música no 7º Prêmio Multishow de Música, promovido por um canal de TV a cabo.
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| A banda Los Hermanos, formada na PUC-Rio | ||
Em "Bloco do eu sozinho", de 2001, o grupo voltou a falar de amor, porém com letras mais pesadas, densas. O álbum não agradou muito as rádios com a nova roupagem da banda. No entanto, o disco foi bem recebido pelos fãs e críticos especializados, sendo considerado por muitos como um dos melhores trabalhos do rock nacional.
Em "Ventura", lançado nos mês passado, a banda formada pelos ex-alunos da PUC-Rio chegou à maturidade. Com músicas que, muitas vezes, lembram um samba-rock, o trabalho é um passo audacioso na carreira do grupo, que pode perder uma leva de fãs mais "roqueiros". No entanto, é impossível desconsiderar o fato que o Los Hermanos criou uma face autêntica ao Rock and Roll verde e amarelo.
Coincidências
Tirando o fato de serem formadas dentro de um ambiente acadêmico, Los Hermanos e Bidê ou Balde
têm outras similaridades. Ambas receberam influência musical da banda americana
Weezer. Curiosamente o vocalista do grupo americano, Rivers Cuomo, é um ex-estudante de direito da
Universidade de Harvard.
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| O Weezer em quatro momentos: shows e na gravação do clipe "Keep Fishin", junto com o Muppets | ||
A ligação do principal compositor e vocalista do Weezer com a universidade é intensa. A banda, que já lançou quatro discos, ficou longe dos holofotes da música por um período de quatro anos - entre 1997 e 2000. Isso aconteceu porque Cuomo decidiu terminar o curso em Harvard e, também, tirar férias da cena musical para ver se conseguia retomar a criatividade e voltar ao mundo do rock.
Estudo, Rock and Roll e divulgação
A aluna de Propaganda e Publicidade da Faculdade Cambury, Eline Barroso D´Avila Ferreira, de 22 anos, é uma "Student Rocker". Ou seja, além de estudar, ela canta na banda Hang the Superstars e trabalha em um selo de grupos de rock independente, a Monstros Discos.
Eline, que incendeia os shows do Hang the Superstars com um backing vocal gritado e desafinado, diz que consegue conciliar a banda com as atividades acadêmicas sem nenhum problema. "Apesar de ter que matar aulas, de vez em quando, para fazer os shows, isso não me prejudica. Tenho boas notas e me dedico muito ao meu curso", explica.
Na Monstros Discos, Eline é um espécie de "faz tudo" e trabalha para que bandas independentes consigam lançar seus trabalhos no mercado. Como o Brasil não tem as famosas "College Radios" - rádios americanas e européias que divulgam grupos de rock formados nas universidades - a Monstros funciona como um pólo de divulgação destes conjuntos.
A backing vocal acredita que as IES são verdadeiros espaços onde são gestadas muitas bandas de rock. "Das universidades é que sai a maioria das bandas legais", diz.
O estudante de jornalismo da PUC-RS Ricardo Cordeiro, saxofonista e vocalista da banda Garotos da Rua, concorda com Eline. "O ambiente acadêmico é recheado de bandas maravilhosas. Pena que as próprias universidades desconhecem isso e acabam não divulgando este potencial maravilhoso para a mídia", alerta.
Cordeiro defende que as bandas deveriam ter espaços para tocar nas universidades. "A instituições são centros formadores de cultura. Por isso, elas poderiam incentivar ainda mais os grupos de rock para eles ganharem espaço na mídia e derrubar as músicas ruins que dominam as rádios atualmente".
Palcos X Salas de aulas
Durante o dia, professor universitário, à noite, um roqueiro ensandecido. Assim foi a rotina do docente do curso de jornalismo da PUC-RS Carlos Gerbase, que, por quase 20 anos, foi baterista e vocalista da banda punk Replicantes. Influenciado por Ramones e Sex Pistols, Gerbase fez sucesso com seu grupo cantando letras contra o sistema.
Os Replicantes nasceram em Porto Alegre no ano de 1984. Na época, Gerbase já era professor da Famecos/PUC-RS desde 1981. Ele conta que, inicialmente, a proposta da banda era ser uma válvula de escape para descarregar nas músicas o estresse do dia-a-dia. Porém, a banda alcançou sucesso nacional. "A banda foi bem recebida pelo público porque fazíamos um punk-rock sem frescuras, era um, dois, três, quatro e som na caixa", diz.
Gerbase, que além de jornalista é escritor, cineasta e compositor de músicas, abandonou os Replicantes há um ano para se dedicar a outras atividades, entre elas as acadêmicas. No entanto, ele afirma que a banda nunca atrapalhou seus planos. "Sempre soube separar as coisas. Por causa disso consegui alcançar meus objetivos", diz. "Lembro que muitas pessoas questionavam como eu consegui produzir filmes, escrever livros, dar aulas e, ainda, tocar. Tinha uma resposta bem simples: `Não confundo as coisas e me ambiento nos locais de maneira adequada´", contou.
Cordeiro, que na década de 80 participou de muitos festivais com os Replicantes, hoje é aluno de Gerbase no curso de jornalismo. Com 48 anos, ele assume que a faculdade sempre foi um sonho, porém, enquanto esteve metido com a bagunça do rock, nunca conseguiu estabelecer objetivos de vida. "Naquela época vivia muitas festas, consumia drogas e muito álcool. Depois que eu larguei tudo isso comecei a planejar minha vida e, conseqüentemente, a estudar", revela.
O professor, com experiência de causa, explica que é bom para o universitário ter qualquer tipo de banda. "É tremendamente saudável tocar. A música é uma ótima ferramenta de expressão e ajuda no desenvolvimento profissional", conclui.
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