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A febre dos mangás

Jovens brasileiros aderem aos mangás, que, em suas histórias, refletem emoções e problemas comuns ao dia-a-dia dos seus leitores

Publicado em 02/09/2005 - 00:01

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Por Renato Marques

Cada vez mais, uma moda oriental tem tomado os jovens brasileiros de assalto. São os mangás, histórias em quadrinhos tipicamente japonesas, com traços e enredos bastante característicos. E estes não vêm sozinhos. Ao seu lado, carregam animês (a versão animada dos mangás), brinquedos, cards, jogos para videogames e dezenas de outros produtos licenciados. Mais do que isso, seus fãs encaram os personagens e suas histórias como um modo de vida, algo que deve transparecer - muitas vezes no formato de fantasias dos personagens admirados.

Embora a explosão dos mangás no Brasil e nos EUA seja um fenômeno relativamente recente, estes não são uma forma de arte recente. O primeiro registro da palavra manga data do século XVIII, a partir da expressão desenho (`ga´) irreverente (`man´). "A palavra surgiu com o gravurista japonês Katsuhika Hokusai, que deu o nome mangá. Ele fazia desenhos da chamada vida mundana", explica a pesquisadora Sonia Maria Bibe Luyten, considerada uma das pioneiras no estudo dos quadrinhos japoneses, autora do livro "Mangá: O poder dos quadrinhos japoneses", fruto de sua tese de doutorado na USP (Universidade de São Paulo).

Ainda assim, a popularização dos mangás no próprio Japão é recente. Nas últimas décadas do século XIX, o país nipônico decidiu abrir suas portas para o mundo. Assim, seguiu-se uma série de migração de profissionais de todas as áreas, inclusive desenhistas, para preencher as vagas no mercado de trabalho. Assim, a produção local de quadrinhos acabou por se influenciar dos grandes sucessos norte-americanos de então. A falta de adaptação ao material produzido à época fez com que as editoras japonesas decidissem voltar seus olhos à produção característica.

Já nesta fase, surgiu o primeiro grande elemento que ajuda a explicar o atual boom do mangá entre os jovens - a segmentação. Já no princípio desta fase, os mangás chegam aos leitores com uma clara divisão de público, tratando de temas distintos. Assim, surgem os shounen mangá (para meninos), shoujo mangá (para meninas), kodomo (para crianças) e hentai (para adultos, com forte temática sexual), entre outros. "As milhares de cópias vendidas refletem o tratamento de questões comuns aos leitores, desde as brigas de escola a outras grandes questões da adolescência. O jovem japonês se identificava com aquelas histórias", diz Sonia.

Popularização

Nos anos 90, a popularização viria a galope para todo o ocidente, com grandes artistas norte-americanos, como o cultuado Frank Miller (diz-se que Ronin seria inspirado em mangás populares, como Lobo), declarando sua admiração pela produção japonesa. A avalanche de produtos licenciados que vieram na carona dos quadrinhos e animês se tornaria um fator a mais para colaborar com a expansão dos mangás. Mas esse não seria, nem de longe, o motivo principal. Marcados por narrativas fortes, emotivas, os mangás têm conseguido prender os leitores, muito além de apenas conquistá-los.

"Os mangás têm um forte aspecto de história e narrativa em formatos que fazem o leitor se interessar mais. Os quadrinhos dos mangás têm início, meio e fim, diferente de muitas séries ocidentais que costumam se prolongar por até 30, 50 ou até 60 anos", opina o professor de Histórias em Quadrinhos e Mangá da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) e da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), Daniel HDR. "Os leitores associam sua admiração pelos personagens à sua própria vida, uma vez que os heróis são muito mais humanos."

Essa "humanidade" dos personagens talvez seja o traço mais marcante dos mangás. Diferente dos invencíveis heróis da maioria dos quadrinhos, os enredos japoneses expõem, ao longo de muitas páginas, seus sentimentos: amor, ódio, tristeza, decepção, saudades. Parte dessa característica é ditada pelo traço singular utilizado na concepção dos desenhos, como os grandes olhos. "Em geral, o personagem tem defeitos e qualidades como qualquer pessoa, e isso cria empatia com os leitores de maneira muito mais fácil", acrescenta Daniel HDR.

Ídolos e Filosofia

No caso específico do Brasil, essa característica é acentuada por uma carência de ídolos vivida pelos jovens. Sem referências filosóficas mais marcantes, seja por parte da religião, ou mesmo política, os adolescentes transferem sua admiração para elementos de outras culturas - no caso, a japonesa. Nos mangás, este é um fato bastante presente, seja através da figura do herói perseverante, seja na mística dos personagens, ou mesmo na imagem humana dos personagens, que vivem problemas semelhantes aos reais.

"A falta de referências reflete na relação que o leitor tem com o mangá. Principalmente a ausência que os jovens brasileiros têm de heróis, seja na política, na religião, na intelectualidade. Há uma carência que, muitas vezes, é preenchida por valores de outras culturas", afirma Sonia. "Se avaliarmos um jovem dos anos 60 ou 70, ele tinha motivos para lutar. Tinha suas filosofias, suas concepções políticas. Hoje, tudo caiu. Muitas vezes, os mangás refletem a filosofia confucionista e são ligadas a um princípio filosófico e religioso que o jovem hoje em dia realmente vive."

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