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Professores devem explorar instrumentos de avaliação

Restringir composição da nota pode ocultar habilidades dos alunos

Publicado em 05/08/2009 - 15:00

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Por Bruno Loturco

Evite erros na composição da nota final

- Defina os tópicos mais importantes ao ponderar os pesos
- Esclareça os alunos sobre o processo de avaliação
- Explore todas as formas de avaliação para compreender a absorção do conteúdo pelos alunos
- Diversifique a composição da nota para explorar as habilidades dos alunos
- Proponha problemas práticos para extrapolar a avaliação de conteúdo
- Ao longo do tempo, continue a exigir conceitos básicos para que a avaliação seja crescente

Imagine um prédio planejado por um engenheiro que não sabe projetar corretamente a construção. Improvável certo? Mas a possibilidade assusta. Ainda mais se notarmos que tudo depende da qualidade do sistema de avaliação do curso. O exemplo poderia se adaptar a diferentes profissões. Seja um físico que não sabe fazer algum tipo de operação matemática ou um cirurgião que não tem muita familiaridade com determinados processos clínicos. Para evitar que esse tipo de coisa aconteça, ao montar a programação do semestre, o professor precisa planejar também o sistema de avaliação. E nesse processo, precisa tomar o cuidado de verificar se está dando a importância necessária aos conteúdos essenciais da disciplina. Caso contrário, um aluno que não saiba muito bem determinado conteúdo compensa a deficiência em áreas que domina e assim consegue a média para aprovação sem necessariamente aprender tudo o que precisa para atuar na profissão.

"O professor tem um plano de ensino que diz o que a disciplina privilegia com relação ao conteúdo, à proposta de trabalho e às estratégias. É em cima desse plano que ele tem de trabalhar", explica Inajara Ramos Vargas, pró-reitora de ensino do Centro Universitário Feevale (Federação de Estabelecimento de Ensino Superior em Novo Hamburgo). Para ela, a aprovação de um aluno que não absorveu adequadamente os conceitos fundamentais da disciplina reflete problemas relacionados ao uso dos instrumentos de avaliação. "Quando estabelecemos uma média para aprovação, reconhecemos que aquilo é suficiente e que há conteúdos que vão ficar de fora. Por isso, o professor tem de ter clareza sobre o que é fundamental e o que é acessório", diz ela.

A opinião de Ângela Solizo, coordenadora do curso de pedagogia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) é semelhante. "Nenhuma avaliação dá resultados absolutos, mas informações sobre o quê e como o aluno aprendeu. E a função da avaliação é diagnosticar o processo de aprendizagem, não a capacidade do aluno", resume ela. Ângela afirma que não apenas o aluno é avaliado, mas o processo e a metodologia adotados também. "O professor tem de se questionar e ter abertura para mudar caso perceba que não está funcionando bem", defende ela. Para Inajara, as avaliações servem para medir como a informação está sendo absorvida. "A avaliação é o instrumento balizador do quanto o professor se faz entender pelo aluno. Não serve simplesmente para diagnosticar se foi bem ou mal. Tem de servir para adequar o processo de avaliação", afirma ela.

Ângela acredita ainda que o objetivo final da avaliação não é a aprovação ou reprovação, mas o aprendizado. "A avaliação permite ao professor conhecer os alunos e saber o que fazer para que aprendam. A aprovação é conseqüência e fica menor se o foco é a aprendizagem", diz ela. Para usufruir de todas as potencialidades da avaliação, Ângela considera importante tornar o processo transparente. "O professor deve escutar os alunos, que têm o direito de opinar sobre o processo de avaliação", assegura ela. Inajara concorda. "O grande segredo de uma disciplina é ter tudo muito claro, o que inclui os objetivos e as formas de avaliação", defende ela.

Ferramentas de avaliação

Na opinião de Ângela, a composição da nota final não pode se basear em apenas uma ou duas modalidades de avaliação. Segundo ela, é preciso utilizar bem todas as ferramentas disponíveis. "Ao diversificar, você permite que as capacidades e habilidades do aluno apareçam", explica. Ana Maria Chagas Sette Câmara, professora do curso de fisioterapia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), acredita que, ao restringir a avaliação, o professor tende a ter problemas com o peso de cada matéria na composição da nota final. "O professor que sofre com isso não usa adequadamente as ferramentas de avaliação pedagógica. Avalia apenas conteúdo, com base num conceito antigo".

Crítica parecida é feita por Pierre Lucena, coordenador do curso de administração da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). "O grande problema é o excesso de avaliação em grupo, porque nesses casos um aluno se escora no outro. Outro problema é o excesso de seminários na avaliação". De acordo com ele, isso ocorre devido à falta de preparo de alguns professores. "Quando o professor não tem condições de dar a quantidade definida de horas-aula, aplica seminário para consumir a carga horária", critica. "O correto é o professor utilizar as aulas para trazer elementos de discussão. Não o contrário", completa Lucena. Segundo ele, a composição de nota ideal prevê que a avaliação seja crescente. Ou seja, conforme o conteúdo avança, não deixa de exigir elementos básicos, passados aos alunos no início do período. Já Ana Maria conta que o que deve mudar é o foco da avaliação. "Trabalho com avaliação formativa e processual, considerando habilidades, competências e conteúdo", explica ela.

Para tanto, explica Ana Maria, seria necessário trabalhar com o que chama de metodologias ativas de ensino, propondo problemas para que o aluno resolva sozinho. "Na busca pela resposta, ele adquire conhecimento. Estuda não pela obrigação da prova, mas para resolver o problema, pois o adulto não aprende com o exemplo do outro, mas quando é desafiado", afirma ela. O caminho, então, seria fazer uso de modalidades de avaliação diversas. "Não é necessário abandonar as provas e os trabalhos, mas diversificar as formas de avaliação e propor trabalhos em equipe, com problemas reais", declara Ana Maria, que defende o trabalho em grupos pequenos. "Em pequenos grupos o aluno tem de, obrigatoriamente, exercer a comunicação, trabalhar a liderança e ter responsabilidades. São situações mais práticas", aposta ela.

A diversificação permite compreender melhor o processo de aprendizagem. É o que afirma Ângela, que acredita dessa forma eliminar o risco de uma avaliação enviesada. "Se só há atividade em grupo, alunos com dificuldade podem passar despercebidos. Se é só prova, que exige mais memorização, alunos com mais habilidade para análise podem ir mal. O que não significa que tenha menos capacidade. Aprender não é reproduzir o conhecimento, mas interpretar", pondera.

Também para Inajara é importante tirar proveito de cada método de avaliação. "A maneira como os instrumentos são utilizados posteriormente tem de ser um indicativo para o aluno e o professor. Aí vale prova, o trabalho individual, em grupo, exposição oral, atividade de campo", diz. Dessa maneira, um mesmo tópico poderia ser abordado de diversas maneiras para permitir que o aluno apareça. "O importante é que a avaliação seja variada e que no final haja indicadores que digam sobre a aprendizagem do aluno", afirma Ângela. Para ela, o aluno deve ser incentivado a raciocinar, a refletir e se expressar, o que seria possível com formas variadas de avaliação, que também permitem captar as características do aluno e suas dificuldades.

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