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Por Crislaine Coscarelli
Dificilmente quem está ligado de alguma forma à Web, seja por trabalho ou a lazer, ainda não ouviu falar dele. Criado há apenas cinco meses nos Estados Unidos por um dos analistas de sistemas do Google (site de buscas), o Orkut é sem dúvida o mais novo fenômeno da Internet. Mesmo sendo uma comunidade virtual da qual só podem participar convidados, o sistema já conta com mais de duas milhões de pessoas cadastradas e não pára de crescer. Nesta semana o Brasil ganhou um papel de destaque, ultrapassando os Estados Unidos em número de adeptos (clique aqui para ler a matéria).
Mas o que diferencia o Orkut de outras comunidades virtuais para justificar tamanho sucesso? Simples: ele possibilita ao usuário criar uma página personalizada na qual exibe fotografias e dados pessoais, ou seja, ele dá uma "cara" ao participante, dando um charmoso ar de intimidade à comunidade. Outro diferencial é que ele permite que você navegue pela rede de relacionamento de seus amigos ou conhecidos, uma forma um pouco mais palpável de comprovar a famosa teoria de "six degrees" (que defende que com seis relacionamentos você pode ter acesso a qualquer pessoa no mundo) ou aquela piada de "que todo mundo conhece alguém que conhece alguém que conhece o Kevin Bacon".
Uma vez dentro do Orkut você pode convidar pessoas a fazerem parte do seu "clube de amigos", além de ter a liberdade de se tornar membro das mais diferentes comunidades, que vão de fãs de um determinado autor ou estilo musical, defensores de assuntos polêmicos como o software livre, até comunidades com gostos excêntricos, como as inúmeras que reúnem "pessoas que usam All Star".
A fama desta comunidade é inquestionável, mas na mesma velocidade que ganha adeptos aumentam também as críticas ferrenhas. A sua utilidade prática é a mais forte delas. Para a professora e coordenadora de pós-graduação em jornalismo da ECA/USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo), Beth Saad, a comunidade não está sendo utilizado como deveria. "A idéia original é a de juntar comunidades mundiais gigantescas para debater determinados temas, mas o que se encontra lá são várias pequenas comunidades sobre o mesmo assunto brigando entre si. A própria ECA é um exemplo disso. Existem quatro ou seis comunidades que se auto-entitulam ECA, mas nenhuma delas se lembrou - ou quis - se unir à outra", destaca.
A professora vê esse comportamento como natural e o assemelha ao que aconteceu com os "weblogs" (ou blogs como são mais conhecidos hoje) no seu início. "No começo haviam inúmeros blogs que funcionavam como diários pessoais, de pouco interesse para a rede mundial. Mas hoje, a maioria dos que sobreviveram tratam de assuntos de interesse maior, oferecem listas de discussão e são muito produtivos". Para Beth, depois do "boom" do Orkut, devem sobrar dentro da comunidade apenas pessoas ativas que se interessem pelas discussões propostas pelas comunidades que agregam algum valor. "Mesmo porque o Orkut é tão fechado que para se saber o que ocorre lá você tem que necessariamente acessar e navegar pelo site, o que exige algum trabalho. A única informação que você recebe por e-mail é que alguém te incluiu no grupo de amigos dele ou deixou alguma mensagem na sua página", diz.
Beth, que está entre os usuários do sistema, participa de grupos de discussões sobre novas tecnologias voltadas para a comunicação.
"Orkut é genial! Infelizmente ele está sendo desenvolvido internamente por uma empresa, apesar de ter muita gente da comunidade do Software Livre lá dentro, que já faz uma certa pressão para que eles abram o código-fonte do sistema", afirma Nelson Ferraz, especialista em sistemas de informação e software livre. Ele se coloca como um dos usuários que encontrou uma boa finalidade no Orkut, como a discussão de temas.
Massageando o Ego
O lado mais "fútil" do sistema se manifesta na parte dos relacionamentos pessoais. Há quem diga que o Orkut é uma máquina movida a narcisismo, a começar por seu criador, que dá margens a essa análise por ter batizado o sistema com o seu próprio nome: Orkut Buyukkokten. Ele é um dos líderes de popularidade (o que parece óbvio). Tem mais de quatrocentros amigos em sua lista e centenas de fãs declarados. A disputa por um número maior de "amigos" é grande em boa parte dos usuários que pretendem se considerar "populares".
Para reforçar isso, o sistema criado por ele permite que os usuários deixem
os testemunhos públicos sobre o que acham a respeito dos participantes e
ainda os classifiquem em categorias como "trusty" (confiável), "cool" (legal) e "sexy".
Teoria da Conspiração
Como um produto genuinamente norte-americano, é claro que mesmo jovem, o Orkut também já tem difundida na Web a sua própria teoria da conspiração. Segundo os mais "astutos", a CIA (Agência de Informações do órgão da Inteligência dos Estados Unidos) monitora a rede de relacionamentos e manipula as informações nela postadas.
Outra teoria afirma que todos os dados lá postados se transformarão em um
grande banco de dados que seria utilizado posteriormente pelo Google com fins
comerciais. Esta última pode preocupar e ganhar vida se o usuário se atentar
bem a uma cláusula existente nos termos de adesão ao serviço. Ela garante aos proprietários do sistema direitos a tudo o que
o usuário postar no sistema, seja uma piada, um trecho de um texto ou uma
imagem. "Ao submeter, postar ou mostrar quaisquer materiais no ou através do serviço orkut.com, você automaticamente nos dá direitos mundiais, não-exclusivos, sublicenciáveis, transferíveis, sem royalties, perpétuos e irrevogáveis, para copiar, distribuir, criar trabalhos derivativos ou executar e exibir publicamente tais materiais",
diz a cláusula.
Clones
Menos populares, mas tão eficientes quanto, surgem a cada dia na Internet novos canais de relacionamento nos mesmos moldes do Orkut. A concorrência mais forte pode ser apontada como a rede criada pelo ICQ, batizada de Universe.
Com um apelo profissional mais forte, o LinkedIn também segue a linha do Orkut, já que também só podem participar convidados, mas este é mais voltado para "networking" profissional e deixa isso claro na ficha de adesão que se limita a perguntas sobre as atividades profissionais do usuário, sem nada de pessoal. "O software permite ricas trocas de informações profissionais", afirma Gregório Ivanoff, professor da disciplina de gestão do conhecimento da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).
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