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Artigo
"(...) Precisamos saber de que maneira ele (o computador) vai alterar nossa concepção de aprendizado e como (...) ele minará a velha idéia de escola." (Neil Postman)
Assistimos, principalmente nos últimos cinco anos, a um interesse e uma preocupação cada vez maiores por parte dos educadores a respeito da presença do computador na escola. O interesse parece justificar-se pela possibilidade de novos caminhos para se alcançar uma melhoria da qualidade de ensino; a preocupação talvez fique por conta do desconhecimento da maioria dos professores de como se utilizar dessa tecnologia sem ser substituído por ela.
"As velozes transformações tecnológicas da atualidade impõem novos ritmos e dimensões à tarefa de ensinar e aprender. É preciso que se esteja em permanente estado de aprendizagem e de adaptação ao novo." (Kenski 1998,
www.ufba.br/~prossiga/vani.htm)
No documento do Ministério da Educação - MEC - referente às orientações para formação de professores, entre as competências pretendidas para os professores da educação básica, independentemente do nível de ensino em que atuam, encontra-se o seguinte:
"(...)fazer uso das novas linguagens e tecnologias, considerando os âmbitos do ensino e da gestão, de forma a promover a efetiva aprendizagem dos
aluno."
1
Em vista disso, os cursos superiores de formação de professores - Normal Superior ou Pedagogia
- têm procurado implementar em seus currículos disciplinas voltadas ao conhecimento e à prática da utilização de tecnologias, principalmente de computadores, como um recurso para o desenvolvimento do processo de ensino.
As novas tecnologias e as conseqüentes mudanças na educação
Do senso comum às discussões acadêmicas, as mudanças aceleradas sentidas atualmente em todas as áreas do conhecimento e da produção e serviços são decorrentes da segunda revolução industrial. Segundo Schaff (1990), a primeira revolução pode ser situada entre o final do século XVIII e início do século XIX, quando se substituiu a força física do homem pela energia das máquinas. Hoje assiste-se à segunda revolução, caracterizada pela ampliação das capacidades intelectuais do homem pela tecnologia.
Esta revolução traz como conseqüência transformações econômicas, sociais, políticas e culturais numa sociedade denominada por Schaff
sociedade informática:
"(...) a sociedade informática escreverá uma nova página na história da humanidade, pois dará um grande passo no sentido da materialização do velho ideal dos grandes humanistas, a saber, o do homem universal, e universal em dois sentidos: no de sua formação global, que lhe permitirá fugir do estreito caminho da especialização unilateral, que é hoje a norma, e no de se libertar do enclausuramento numa cultura nacional, para converter-se em cidadão do mundo no melhor sentido do
termo." (Schaff 1992, p. 71)
Levy (2001), ao referir-se a este mesmo fato, chama de revolução noolítica2 aquela provocada pelos computadores e pelas redes de comunicação, que gera o homem
planetário, um ser acima das fronteiras e das nações:
"As fronteiras são as ruínas, ainda de pé, de um mundo em revolução.(...) O verdadeiro destino do homem é ser um planetário, participando ativamente da inteligência coletiva de sua espécie."
(Levy 2001, p. 33-34)
Levy diz que o universal não é o planetário, ou seja, esse universal não totaliza mais pelo sentido, ele conecta pelo contato, pela interação geral. (Levy 1999, p. 119). Nesta sociedade, a educação permanente será um imperativo, tal como o é, hoje, a escola obrigatória, surgindo, assim, como diz Schaff, um novo tipo de homem: o
homo studiosus:
"(...) este homo studiosus seria a realização de um dos mais velhos sonhos humanistas, o homo universalis. O homem universal, ou aquele que está munido de uma instrução completa e em condições de mudar de profissão e portanto também de posição no interior da organização social do trabalho
(...)". (Schaff 1990, p. 125)
Ambos os autores, respeitadas as diferenças, caracterizam o homem como ser social, fruto de uma comunidade que provoca efeitos no pensamento e no agir deste homem pela linguagem, pelo sistema de valores, pelas relações sociais. Ambos vêem a tecnologia contribuindo para o aumento e a modificação das capacidades cognitivas do homem:
"(...) o desenvolvimento não será linear. Ao contrário, fará emergir conflitos cuja solução dependerá sempre da decisão e da atividade do homem.(...) Podemos dizer que (...) a segunda revolução industrial conduzirá a uma sociedade em que haverá um bem-estar sem precedentes para o conjunto da população (...) como também alcançará um nível sem precedentes do conhecimento humano do mundo. Também é certo que, devido à informática e às suas inúmeras aplicações, o mundo se converterá em um conjunto único e estritamente inter-relacionado no qual todos os grandes problemas assumirão um caráter
global." (Schaff 1992, p.153)
Levy (1999) se reporta à velocidade de surgimento e renovação de saberes e à mudança da relação com o saber, pois a tecnologia favoreceria novas formas de acesso à informação e novos estilos de raciocínio e de conhecimento:
"(...) o ciberespaço suporta tecnologias intelectuais que amplificam, exteriorizam e modificam numerosas funções cognitivas humanas: memória (banco de dados, hiperdocumentos, arquivos digitais de todos os tipos), imaginação (simulações), percepção (sensores digitais, telepresença, realidades virtuais), raciocínios (inteligência artificial, modelização de fenômenos
complexos)." (Levy 1999, p. 157)
A planetarização de Levy, a universalização de Schaff ou a globalização descrevem um fenômeno que se relaciona com a transformação do espaço e do tempo, segundo Giddens (1997). Giddens define a globalização como
ação a distância, relacionando-a com o surgimento de novos meios de comunicação e de transporte em escala planetária, gerando mudanças no modo de operar da sociedade. A diversão confunde-se com a aprendizagem, e novas formas de aprender parecem caber dentro dessa idéia de educação-entretenimento.
O uso de tecnologia na escola
A entrada do computador na sala de aula, principalmente no final da última década, trouxe questões que dizem respeito não só ao uso do computador, como principalmente sobre o uso de outras tecnologias.
Como se pode definir o termo tecnologia?
Tomada em seu sentido mais geral, pode-se dizer que tecnologia é o conjunto ordenado de todos os recursos empregados na produção e comercialização de bens e serviços; no caso da educação, recursos que podem contribuir para sua eficácia, ou seja, que podem possibilitar maior aprendizagem dos alunos.
Segundo Levy (1999), a tecnologia é produzida dentro de uma cultura e esta acaba condicionada por aquela, no sentido de que, a partir da existência de uma dada técnica, a sociedade que a possui acaba por não mais viver sem ela, pelas possibilidades que se abrem com essa tecnologia.
Se hoje tem-se, na sociedade, a presença de computadores - tecnologia presente em quase todos os âmbitos da nossa vida
- essa tecnologia condicionaria a escola, que faz parte da sociedade.
Uma tecnologia não é boa, nem má, mas depende do uso que se faz dela, do contexto em que se insere (Levy, 1999). A questão é definir qual tecnologia é utilizável na educação. Mais até, é essencial a convicção de que o uso de uma tecnologia deve ser acompanhado da reflexão sobre essa tecnologia (Belloni, 1999).
Determinar a importância desta ou daquela tecnologia, em termos de ajudar o aluno na construção do conhecimento tem sido uma preocupação recorrente de muitos educadores. Quais recursos são válidos para que os alunos avancem no processo de aprendizagem? Na atualidade, a presença da informática na educação é importante, é inevitável, dado que o computador tornou-se objeto sociocultural integrante do cotidiano das pessoas.
"O saber-fluxo, o trabalho-transação de conhecimento, as novas tecnologias da inteligência individual e coletiva mudam profundamente os dados do problema da educação e da formação. O que é preciso aprender não pode mais ser planejado nem precisamente definido com antecedência. Os percursos e perfis de competências são todos singulares e podem cada vez menos ser canalizados em programas ou cursos válidos para todos. Devemos construir novos modelos do espaço do conhecimento. No lugar de uma representação em escalas lineares e paralelas, em pirâmides estruturadas em
"níveis", organizadas pela noção de pré-requisitos e convergindo para saberes
"superiores", a partir de agora devemos preferir a imagem de espaços de conhecimentos emergentes, abertos, contínuos, em fluxo, não lineares, se reorganizando de acordo com os objetivos ou os contextos, nos quais cada um ocupa uma posição singular e
evolutiva." (Levy 1999, p. 158.)
A educação a distância no contexto das novas tecnologias
Um destaque importante a ser feito em relação ao uso de tecnologias em educação diz respeito à educação a distância, principalmente daquela feita via Internet.
Na educação, o presencial se virtualiza e a distância se presencializa (Moran, 2002). Hoje há momentos presenciais em cursos a distância e momentos a distância em cursos presenciais. A legislação educacional obriga cursos a distância (graduação e pós-graduação) a terem momentos presenciais, principalmente em relação à avaliação; por outro lado, cursos regulares, presenciais, já começam a incorporar atividades a distância, on-line ou com a utilização de outras mídias (a legislação permite que até 20% da carga horária de cursos de graduação seja oferecida a distância (Portaria MEC 2253/2001), mesmo que sejam simples trocas de e-mails entre alunos e professores.
Levy (1999) discute a atual organização curricular da escola e propõe reformas estruturais para os sistemas de educação:
"Em primeiro lugar, a aclimatação dos dispositivos e do espírito do EAD (ensino aberto e a distância) ao cotidiano e ao dia-a-dia da educação. A EAD explora certas técnicas de ensino a distância, incluindo as hipermídias, as redes de comunicação interativas e todas as tecnologias intelectuais da cibercultura3 . Mas o essencial se encontra em um novo estilo de pedagogia, que favorece ao mesmo tempo as aprendizagens personalizadas e a aprendizagem coletiva em
rede." (Levy 1999, p. 158)
A educação a distância não é nova; porém, com a Internet, tomou um impulso talvez inesperado pela maioria dos educadores. Mediada pelo computador, a EAD on-line pode criar novos desafios e novas possibilidades num país de largas proporções como o nosso, se se considerar que esse tipo de educação pode atender alunos que estejam em lugares muito distantes das escolas, ou sem tempo para freqüentá-las como exige a lei (75% de freqüência para cursos presenciais, na Educação Básica ou Superior).
O virtual e o real
Ao falar-se de EAD on-line, é preciso definir o que se chama de virtual. Diz Levy (1999, p. 47):
"A palavra "virtual" pode ser entendida em ao menos três sentidos: o primeiro, técnico, ligado à informática, um segundo corrente e um terceiro filosófico. (...) no uso corrente, a palavra virtual é muitas vezes empregada para significar a irrealidade
- enquanto a "realidade" pressupõe uma efetivação material, uma presença tangível. Em geral, acredita-se que uma coisa deva ser real ou virtual, que ela não pode, portanto, possuir as duas qualidades ao mesmo tempo. Contudo, a rigor, em filosofia o virtual não se opõe ao real mas sim ao atual: virtualidade e atualidade são apenas dois modos diferentes da realidade. Se a produção da árvore está na essência do grão, então a virtualidade da árvore é bastante real (sem que seja, ainda,
atual)."
O virtual, portanto, existe sem estar presente. Desse modo, não me refiro ao ambiente virtual como oposto ao presencial, no sentido de existência real, mas como um ambiente diferente, que pressupõe relações reais entre as pessoas. E, assim, entre professores e alunos. Dificuldades e facilidades que um professor encontra na sala de aula presencial ele poderá encontrar na EAD on-line; as qualidades necessárias a um professor presencial provavelmente serão necessárias a distância e assim por diante.
A incorporação da tecnologia no ensino afeta mais a forma como ensinamos do que a função da educação (Sigalés 2001,
www.udg.mx/innova/principal.htm). A diferença está no ambiente e na forma de ensinar, e não na função da educação ou no processo de ensino e aprendizagem.
A Internet vem se consubstanciando como um ambiente de comunicação, de relacionamento. A idéia principal é de que a Internet não seja uma rede de computadores, mas de pessoas interconectadas. Pessoas dos mais diferentes lugares, das mais diversas profissões, que se comunicam, não por estarem próximas, mas por partilharem interesses, idéias. Pessoas que buscam informação, mas que também têm conhecimentos e os socializam, colaboram entre si, compartilham propostas e recursos, aprendem juntas. A este respeito, Levy cria a idéia da
inteligência coletiva que se produz no ciberespaço:
"O ciberespaço, dispositivo de comunicação interativo e comunitário, apresenta-se justamente como um dos instrumentos privilegiados da inteligência coletiva. (...) Os pesquisadores e estudantes do mundo inteiro trocam idéias, artigos, imagens, experiências ou observações (...). O especialista de uma tecnologia ajuda um novato enquanto um outro especialista o inicia, por sua vez, em um campo no qual ele tem menos
conhecimentos..." (Levy 1999, p. 29)
O impacto que isto pode trazer à educação diz respeito a novas formas de ensinar e de aprender, pois tira da escola o controle sobre a aprendizagem das pessoas, fazendo com que o ensino, que antes era domínio exclusivo da escola, aconteça fora dela, pois, na interação via rede, muitos podem ensinar e também podem aprender com quem interagem.
Entretanto, ainda que a rede de computadores possibilite o desenvolvimento da inteligência coletiva e provoque mudanças nas formas de construção de conhecimento, há que se alertar para o outro lado desse fenômeno: a exclusão daqueles que não fazem parte do ciberespaço e não fazem uso dessa tecnologia.
"Devido a seu aspecto participativo, socializante, descompartimentalizante, emancipador, a inteligência coletiva proposta pela cibercultura constitui um dos melhores remédios para o ritmo desestabilizante, por vezes excludente, da mutação técnica. Mas, neste mesmo movimento, a inteligência coletiva trabalha ativamente para a aceleração dessa mutação. Em grego arcaico, a palavra
"pharmakon" (que originou "pharmacie", em francês) significa ao mesmo tempo veneno e remédio. Novo pharmakon, a inteligência coletiva que favorece a cibercultura é ao mesmo tempo um veneno para aqueles que dela não participam (...) e um remédio para aqueles que mergulham em seus turbilhões e conseguem controlar a própria deriva no meio de suas
correntes." (Levy 1999, p. 30)
Grande parte dos alunos das escolas de Educação Básica (e, até, de Educação Superior) ainda está à margem do mundo da informática e as escolas, na sua maioria, não possuem condições técnicas, nem pedagógicas, para oferecer aos alunos um ensino que incorpora o computador.
Falar, portanto, em EAD on-line para todos é, no mínimo, ingenuidade. Sabe-se que há necessidade de se ter nas escolas um projeto político pedagógico que contemple a inclusão digital e atenda às necessidades da realidade onde se insere. O acesso aos conhecimentos de informática deve ser parte do processo de aprendizagem dos alunos, e para isso os professores devem ser capacitados por meio de instâncias da educação continuada. Nesse sentido, a EAD on-line pode fazer diferença.
Entretanto, não basta a "alfabetização digital", mas é necessário criar condições para desenvolver nos alunos uma autonomia intelectual que lhes permita selecionar e escolher o que o mundo virtual pode lhes oferecer de melhor.
A proliferação de cursos a distância dos mais variados assuntos e formatos, ainda que a qualidade de muitos possa ser questionável, e a busca por melhoria de desempenho e formação para competir no mercado de trabalho, chama a atenção dos educadores para a necessidade de repensar o papel da escola e o papel do professor e sua re-significação como profissional.
O interesse de um número cada vez maior de pessoas por participar de um curso a distância revela, entre outros aspectos, que a busca por construir novos conhecimentos e desenvolver novas habilidades está sendo compatibilizada com a administração do próprio tempo. Penso que a tecnologia hoje disponível tem de servir para a otimização desse tempo.
A educação a distância surgiu com a possibilidade de atender alunos sem a rigidez dos locais e horários preestabelecidos. Antiga, suas primeiras experiências datam de 1856, com a primeira escola de línguas por correspondência, em Berlim. Em 1891, Thomas Foster cria o
International Correspondence Institute e, no ano seguinte, o Reitor da Universidade de Chicago inicia a
Divisão de Ensino por Correspondência no Departamento de Extensão. (Chermann, 2000). No Brasil, as primeiras experiências datam do início do século XX. Mas, até agora, não se tem dado à educação a distância a credibilidade de uma educação de qualidade, ainda que dela tenham feito uso milhares de pessoas.
Com a utilização da informática na educação, com a disseminação do uso da Internet, transforma-se a idéia inicial da
educação a distância como reprodução tecnológica da aula tradicional para
espaço virtual de construção de conhecimento; e o que antes poderia ser um aprendizado solitário, individual, pode transformar-se em algo como
inteligência coletiva característica de uma comunidade virtual de aprendizagem
colaborativa, criando uma nova concepção de ensino e de aprendizagem. É a escola do futuro na qual alunos e professores podem cooperar para que uns e outros avancem no seu conhecimento. Caem as fronteiras das salas de aulas e os limites de determinação de horário. Busca-se o desenvolvimento da autonomia intelectual do aluno. Selecionam-se conteúdos que melhor atendam às necessidades de uma comunidade virtual que está em constante processo de aprendizagem. Mudanças aceleradas transformam o mundo tornando as verdades cada vez mais provisórias.
EAD on-line se consolida, hoje, como uma outra forma de educação, diferentemente da idéia de que seja complementar ou suplementar à educação presencial
- ainda que possa ser utilizada perfeitamente como tal - porque possui características que modificam o processo de ensinar e de aprender, cria novas experiências e novas formas de relação com o conhecimento e com o outro.
No mundo virtual vive-se num outro tempo e num outro espaço e as relações que neste outro mundo se estabelecem modificam as características dos participantes. Na educação que se desenvolve neste mundo, a atuação dos alunos e dos professores também se modifica.
Os alunos, a quem tradicionalmente cabia receber a informação e processá-la, se vêem, no mundo virtual, diante do desafio da auto-aprendizagem, da administração do tempo, da autodisciplina, da comunicação mediada pelo computador. Sua participação não se restringe mais a estar presente (fisicamente) numa sala de aula, mas exige efetivamente sua interferência, sua manifestação, sua comunicação. Se a escola, antes, não lhe solicitava uma postura mais ativa, de discutir, analisar, problematizar, agora, na EAD on-line, ele é chamado a esse tipo de atuação. É evidente que muitas experiências de EAD on-line têm, simplesmente, reproduzido o modelo tradicional da educação presencial em ambientes on-line. Mesmo assim, ao optar pela EAD on-line, o aluno tem de ter qualidades como autodisciplina e autonomia.
A educação a distância já existia antes do advento do computador4; porém, com ele, outra prática deve ser desenvolvida e, para ajudar o professor, talvez outra formação deva existir, pois é grande a resistência de alguns a essa modalidade de ensino, por não conhecê-la.
"(...) Esta rejeição descabida acerca da educação on-line contradiz nossa experiência no Instituto de Ciências do Comportamento Ocidental. Lá a sala de aula virtual era um lugar de intensa interação intelectual e humana. Literalmente, todo mês estudantes e professores contribuíram com centenas de comentários altamente inteligentes para nossas conferências por computador. A qualidade destas discussões on-line ultrapassa qualquer coisa que eu pude estimular em minha sala de aula
presencial." (Harasim et al 1995, p. 34).5
Harasim acredita que a mudança de um ensino presencial para on-line significa uma mudança de um modelo de eficiência para um modelo de qualidade em educação. Ou seja, é uma mudança de paradigma.
Em novos tempos, uma nova pedagogia
Um aspecto importante deve ser destacado. Analisando-se a legislação específica para educação a distância, a literatura disponível e a prática dos professores, observa-se que tudo o que existe a respeito da metodologia utilizada em EAD on-line parte do conhecimento gerado pela pedagogia para a educação presencial.
Se tudo o que se sabe sobre educação diz respeito à educação presencial, parece ser impróprio transpor-se esses conhecimentos para a educação a distância, ainda que se façam as devidas adequações.
Por sua vez, a capacitação de professores para atuar em EAD on-line deveria ser apropriada a essa modalidade de educação, tendo em vista que o perfil do professor talvez deva ser diferente daquele conhecido, qual seja, o do professor presencial.
Sigalés (2001), Diretor dos Estudos de Psicologia e Ciências da Educação da UOC, Universidade Virtual espanhola, disse que há necessidade de se construir um marco teórico de caráter psicopedagógico que nos proporcione instrumentos para análise e investigação sobre como se ensina e se aprende na era da Internet .6
Podemos, assim, ter certeza de que estamos diante da necessidade de criarmos uma nova cultura escolar, uma transformação ecológica, como previu Postman em 1994!
Notas
1 - V. Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores da Educação Básica em
www.mec.gov.br
2 - Noolítico é um neologismo criado por Pierre Levy, que parte do prefixo noo, relativo ao espírito, destacando o caráter abstrato da revolução em questão, em contraposição à revolução neolítica:
A pedra do espírito é ainda o mesmo sílex, como aquele do paleolítico e do neolítico, mas desta vez, sob a forma do silício dos microprocessadores e das fibras ópticas.
(Levy 2001, p. 29, nota de rodapé).
3 - Outro neologismo criado por Levy, especifica o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço. Ciberespaço, por sua vez, é, segundo o autor, uma palavra criada por William Gibson, em seu romance
Neuromancer, em 1984, e que define a rede (Internet) como um novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial de computadores e das memórias dos computadores. (Levy 1999, p.92)
4 - Segundo Nunes (1999), a educação a distância tem suas origens no final do século XVIII, tendo grande desenvolvimento no século XIX e século XX, principalmente com as necessidades geradas pela Segunda Guerra Mundial, em termos de capacitação de recrutas. No Brasil, registra-se a fundação do Instituto Rádio Monitor, em 1939 e do Instituto Universal Brasileiro em 1941.
5 - "...this unqualified rejection of on-line education contradicts our experience at the Western Behavioral Sciences Institute. There the virtual classroom was a place of intense intellectual and human interaction. Literally hundreds of highly intelligent comments were contributed to our computer conferences each month by both students and teachers. The quality of these on-line discussions surpasses anything I have been able to stimulate in my face-to-face
classroom."
6 - "X Encuentro Internacional de Educación a Distancia", em Guadalajara, México, 27 a 30 de novembro de 2001.
Bibliografia
BELLONI, M. L. Educação a Distância. Campinas: Autores Associados, 1999.
CHERMANN, M.; BONINI, L.M. Educação à distância: novas tecnologias em ambientes de aprendizagem pela Internet.
São Paulo: EPN Editoria e Projetos, 2000.
GIDDENS, A. Modernidade e Identidade Pessoal. Oeiras: Celta, 1997.
HARASIM, L.; HILTZ, S.R.; TELES, L.; TUROFF, M. Learning Networks: A field guide to teaching and learning on-line. Cambridge: MIT Press, 1995.
KENSKI, V. M. "Novas tecnologias, o redimensionamento do espaço e do tempo e os impactos no trabalho
docente." Disponível em:
www.ufba.br/~prossiga/vani.htm (Acesso em dezembro de 1998 e agosto de 2002.)
LEVY, P. Cibercultura. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999.
LEVY, P. A Conexão Planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo: Editora 34, 2001.
MORAN, J. M. "Pedagogia integradora do presencial-virtual". Disponível em:
www.eca.usp.br/prof/moran/Internet.htm. (Acesso em outubro de 2002.)
POSTMAN, N. Tecnopólio: a rendição da cultura à tecnologia. Trad. Reinaldo Guarany. São Paulo: Nobel, 1994.
SCHAFF, A. A Sociedade Informática: as conseqüências sociais da segunda revolução
industrial. 3a. ed. São Paulo: Editora da UNESP, 1992.
SIGALÉS, C. "El potencial interactivo de los entornos virtuales de enseñanza y aprendizaje en la educación a
distancia". Disponível em
www.udg.mx/innova/principal.htm (Acesso em dezembro de 2001)
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Iara Sanches Rosa é doutora em Educação, autora da tese "A Construção do Conhecimento na Educação On-line", orientada pelo professor doutor José Manuel Moran Costas e defendida na PUC-SP em 2003. Rosa é ainda mestre em Psicologia Escolar e autora da dissertação "Alfabetização: a prática da leitura e escrita numa perspectiva psicogenética", orientada pela professora doutora Maria Regina Maluf e defendida na USP em 1991.
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