Cartola: talento que rompe barreiras

“Cartola não existiu, foi um sonho que tivemos”, Nelson Sargento

Por Renato Marques

A vida no começo do Século XX não era das mais fáceis para os negros. Em especial para aqueles que moravam nos morros do Rio de Janeiro. Algumas décadas depois do fim da escravidão, as oportunidades ainda eram escassas para aqueles que buscavam uma melhor sorte. Foi nesse contexto, em meados da década de 20, que surgiu, em meio aos barracos do morro da Mangueira, um nome que marcaria definitivamente a história do samba no Brasil: Angenor de Oliveira, o Cartola.

Dali para frente, seu talento não encontraria barreira intransponível. Ele seria sua arma para vencer o preconceito, a pobreza e a falta de estudos (parou de estudar depois de concluir o primário). “Cartola tinha um valor tão grande que extrapolou os limites da época. Era um período muito próximo à abolição, a situação do negro era difícil”, conta a pesquisadora Marília Trindade Barboza, autora do livro Cartola: Os Tempos Idos. “Cartola, pelo seu talento já reconhecido então, conseguiu alcançar o outro lado da sociedade”.

O talento fora-de-série do compositor encontra respaldo em diversos fatores de sua vida. A começar pela sua criação. Ao contrário do que se costuma divulgar, Cartola nasceu em uma família de classe média-alta. Seu avô era cozinheiro pessoal do presidente Nilo Peçanha, o que dava à família um bom padrão de vida. Apenas aos onze anos, após a morte do avô, os pais do compositor empobreceriam e se veriam obrigados a mudar para a Mangueira.

A mudança para a Mangueira, no entanto, traçaria definitivamente o destino do garoto. Foi ali que Cartola conheceu o samba, fonte em que beberia pelo resto da sua vida. A convivência com outros sambistas, inclusive, seria importantíssima na definição do seu estilo pessoal. “Na Mangueira ele conheceu o Carlos Cachaça e outros sambistas. Ali ele aprende violão e é chamado pelo samba”, conta Marília. “Aquele meio acendeu nele um nível de interesse tal para compor que, de certa forma, processou o talento que ele tinha”.

Autodidata, Cartola tinha no sangue a herança do samba. Compunha naturalmente, como o amigo Noel Rosa, de quem aprendeu o gosto pela poesia brasileira. “Ele era autodidata, nunca fez aula de música. Não sabia nada de teoria musical”, lembra Arthur de Oliveira, co-autor do livro Cartola: Os Tempos Idos e ex-parceiro de Cartola. “A amizade foi muito importante para os dois, porque o Noel ia para mangueira beber o ritmo novo e a melodia nova. Ao mesmo tempo, Cartola também teve acesso à poesia culta”, explica Marília.

O gosto pela leitura (“Cartola era completamente apaixonado pelos poetas parnasianos”, diz Marília), aliado ao fenomenal talento, fez com que o auxiliar de pedreiro criasse versos extremamente sofisticados. É impossível passar alheio a frases como “Queixo-me às rosas/ Mas que bobagem as rosas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti”. “Ele era um compositor completo. Tão bom letrista quanto melodista. E era muito bom compondo com parceiros e ainda melhor quando não tinha parceiro nenhum”, exalta Oliveira.

O carnaval, festa maior do samba, também não poderia deixar de se beneficiar com as criações de Cartola. Fundador da Estação Primeira de Mangueira, escola de samba mais tradicional do Rio de Janeiro, o compositor foi o responsável pelos primeiros sambas-enredos da agremiação, além de ser um dos seus símbolos. “Cartola é fundamental na história da Mangueira. Foi um dos fundadores, junto com outros parceiros. Diferente das escolas de hoje, ele, sendo sambista, era um dos dirigentes. Então, tinha propriedade ao fazer com que a escola fosse toda desenvolvida em cima do samba”, explica o professor da FACHA (Faculdades Hélio Alonso), Luiz Fernando Vieira, autor do livro Sambas da Mangueira.

Ao final de sua vida, Cartola contabilizou centenas de músicas gravadas nas mais diversas vozes. “A grandeza do Cartola é que possuía tal sofisticação que conseguiu romper as barreiras sociais e entrar na classe média. Os outros sambistas são mais sazonais, enquanto o Cartola conseguiu a perenidade, através de um talento que ultrapassou todos os limites”, diz Marília. Recentemente, parte dos seus discos foi relançada em CD. Uma boa chance para que os amantes do samba conheçam aquele que é um dos expoentes da música brasileira. “O gênero mais difundido da música popular brasileira, no Brasil e no exterior, é o samba. Cartola é um dos maiores compositores de samba da história”, finaliza Oliveira.