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Domingo :: 05 / 07 / 2009
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"(...) os leitores de ficção científica estão preparados para muitos futuros".
CARD, Orson Scott. "Science Fiction in the 1980s"
Conheci Roberto Causo anos atrás, quando me procurou no curso de Literatura Brasileira da USP, por indicação de um colega e amigo, João Alexandre Barbosa, que passara a orientar temporariamente seu trabalho de Iniciação científica após a morte de seu primeiro orientador, o João Luiz Machado Lafetá. Eu gostava do Lafetá e assumir a orientação da pesquisa -Roberto tinha uma bolsa da FAPESP -era um jeito de lembrá-lo. Só depois de muita conversa, fiquei sabendo que o rapaz era escritor de ficção científica, com vários textos, alguns premiados, publicados aqui e no exterior. Desde o início, percebi que era tão informado quanto inteligente, conhecendo como ninguém o que se fazia na ficção científica fora e dentro do país. Mas como era (e é) muito na moita, para provocá-lo e fazê-lo falar passei a lhe perguntar, toda vez que nos encontrávamos, o que achava da opinião de que a ficção científica é subliteratura ou kitsch. Propôs-me, certa vez, o que agora desenvolve muito eficazmente neste livro: o conceito de "fantástico" só tem vigência em relação a um conceito particular de "real". Como realmente ninguém sabe o que é a realidade, pois só há interpretações múltiplas da mesma, também o fantástico é um diferencial, variando historicamente. Na boa ficção especulativa, afirma o Roberto, o fantástico é meio de pluralizar e relativizar a racionalidade dominante. A expressão "ficção especulativa", que prefere a "ficção científica", indicaria o que caracteriza nuclearmente o gênero: a especulação sobre os limites da noção de "real".
Achei satisfatória a hipótese, pois era antropológica, atenta à particularidade histórica das representações, e politizava o estudo. Como eu nada conhecia do assunto, a não ser os indefectíveis Júlio Verne e H. G. Wells, e pensando que em geral as histórias literárias brasileiras não contemplam o gênero, propus-lhe fazer uma pesquisa sobre a ficção científica no país. Também lhe propus que discutiríamos à medida que redigisse um texto que, mais tarde, depois de terminar a Graduação, poderia vir a ser a célula inicial de um Mestrado. Falamos algumas vezes da sua pesquisa sobre o mito e fontes medievais da ficção especulativa, como o ciclo arturiano e a matéria da Bretanha. Passei-lhe textos, como o de Henry Thomas, sobre as novelas de cavalaria espanholas e portuguesas, ou o de William J. Entwistle, sobre a lenda arturiana nas literaturas da Península Ibérica. Mas também conversamos algumas vezes sobre o romance gótico e o simbolismo da sua ambientação decadente e corrupta; o Frankenstein, de Mary Shelley; o Drácula, de Bram Stoker; Noite na taverna, de Álvares de Azevedo; os contos de Poe; as teorias de Lovecraft sobre o horror; o terrível de Burke; o gênero fantástico de Luciano de Samósata... Por sua vez, o Roberto me passou textos de dark fantasy de Stephen King, contos de Asimov e mais publicações em que também era autor. Me lembro de um texto divertido, em que a floresta amazônica marcha sobre as cidades, que me lembrou a cena da floresta que anda, do final de Macbeth. A fábula de muitos textos que li me pareceu ruim e convencional, porém, quando os personagens e os conflitos eram alegorias de arquétipos, o Bem e o Mal, esquemáticos e conformistas. E, acima de tudo, me desagradava o evolucionismo positivista dos autores: se a Grande Pirâmide de Gizé tem pedras de trinta toneladas, só foi possível erguê-la, segundo muitos narradores, porque os egípcios tiveram o auxílio de racionalíssimos entes extra-galácticos, deuses do vimana talvez portadores do vril de Madame Blavatsky ou de mais gadgets de Spielberg como meio técnico que inseminou o pólen da inteligência que fez as pedras levitarem. Ou teria sido o Oitavo Raio Boorsoomiano modulado de mantras budistas? Em toda a parte do exótico, do passado e do futuro, o Outro era muitas vezes o Mesmo. A organização social das civilizações perdidas em selvas e planetas fantásticos, distantíssimos no tempo-espaço, também não tinha nenhuma imaginação: presidentes ou, pior ainda, reis, classe dominante e dominada, trabalho escravo, religião, sexualidade masculina e feminina e até dinheiro. Barthes já falara disso nos anos 50, tratando dos marcianos. Divertia-se, então, dizendo que a União Soviética era um mundo entre a Terra e Marte.
Apesar de minha suspeita inicial de que fosse kitsch, a coisa me interessava como prática. Quero dizer: me interessava a possibilidade de tratar antropologicamente a fusão de elementos mitológicos, medievalizantes, mágicos, arcaicos e regressivos com elementos "científicos", tecnológicos, energias fulminantes e seres alienígenas com sutis corpos de lagarto, mentes sem corpo, teletransporte e dobras temporais. A que corresponderia, no imaginário contemporâneo, a fusão do arcaico do mito com a livre especulação sobre imagens estereotipadas das ciências da natureza e da tecnologia astronáutica? A ficção científica era sempre iluminista e utópica, como o Roberto me tinha dado a entender, produzindo o estranhamento das convenções interpretativas do "real"? Ou também seria um futurismo regressivo, propondo a força incondicionada como resolução de problemas? Ou, ainda, uma espécie de alegoria política do Outro, o pobre, o negro, o comunista soviético-cubano-vietnamita-chinês, a ideologia exótica da ditadura de 64, o fundamentalista islâmico de hoje, reconhecível imediatamente no monstruoso da sulfúrica gosma verde insidiosa e dissolvente dos marcianos dos filmes B, no tempo da Guerra Fria, formigões sem alma marchando em hordas socialistas contra a Civilização Ocidental Cristã, defendida como sempre pelos EUA? Essa espécie de metáfora pop do retorno do recalcado do puritanismo ianque, tão fundamentalista e psicótico quanto terrorista, até que era e é inteligível quando, por exemplo, a gente pensa na evidência do imperialismo baseado materialmente no desenvolvimento científico e tecnológico dos gringos. Mas qual era a condição de possibilidade da existência da ficção científica em Botucatu ou São Paulo, vamos dizê-lo assim, como perguntei ao Roberto algumas vezes, quero dizer, em lugares como o Brasil, a Bolívia ou Angola, que até ontem foram colônias de metrópoles carolas, inimigas do empirismo e do chamado método experimental, lugares onde o horror é institucional e o máximo da imaginação ainda é a discussão do preço do sapato, algum lobisomem esporádico e sempre o abusão da genealogia familiar? Gabriel Garcia Márquez disse certa vez que o maior desafio para os escritores latino-americanos foi a insuficiência dos recursos convencionais para fazer crível a vida que se leva por aqui.
Roberto lembra que uma das primeiras obras brasileiras de ficção especulativa, O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar, não faz dessa insuficiência uma questão crítica ou política posta na base da invenção da forma. A maioria das obras escritas depois também não. O texto de Zaluar tem menos ação física que os romances de Júlio Verne e seu enfoque da ciência e da tecnologia é exterior: elas são objetos de descrição e contemplação, não de transformação imediata da natureza. Num país de ciência tênue, em que à literatura coube a tarefa de compor as metáforas formativas da confusão perene de público/privado, como já disse um nacionalista, Cruz Costa, que seria a "ficção científica"?
É inviável, num texto introdutório como este, dar conta da totalidade das análises desenvolvidas pelo Roberto, pois escreve fazendo um paralelo entre a ficção especulativa estrangeira e a brasileira, acumulando inúmeros exemplos de obras, descrições de enredos, referências a obras críticas estrangeiras e brasileiras especializadas no assunto e dados factuais. Prudentemente, reconhece que o gênero "ficção especulativa" é escorregadio. Para dar conta dele, ordena o livro em três grandes articulações complementares: investiga as teorias do fantástico e suas definições; reconstitui elementos da história antiga e moderna do gênero; comenta obras, estrangeiras e brasileiras, antigas, medievais, renascentistas, românticas, modernas e contemporâneas, dos três subgêneros que propõe como constitutivos da "ficção especulativa": a ficção científica, a fantasia e o horror. Digamos brevemente que o subgênero da "ficção científica", como a define, põe em cena metáforas da ciência e da tecnologia, geralmente em uma narrativa de "viagem fantástica" por espaços-tempos incomuns, profundeza da Terra, interior do corpo humano, planetas de outros sistemas, florestas ou desertos primitivos, o passado de civilizações lendárias, Lemúria, Atlântida, Manoa, ou o improvável futuro humano, devastado por guerras nucleares e civilizações cruéis e sanguinárias ou absolutamente pacificado sob a direção ilustradíssima de filósofos e cientistas realizando a coisa assustadora que é a república platônica. A narrativa do subgênero "fantasia" relaciona-se a matrizes populares e cultas da narrativa de magia e sobrenatural, recuperando tópicos medievais, principalmente, caso do rei Artur e a Távola Redonda, as lendas em que aparecem o mago Merlim e a bruxa Morgana, associados a práticas pré-cristãs, como os cultos celtas do vegetal e da fertilidade estudados por Frazer em The Golden Bough, e incorporações, no caso do Brasil, do espiritismo kardecista e de culturas indígenas e africanas. O subgênero do "horror", finalmente, relaciona-se ao que Freud, falando de Os elixires do diabo, de Hoffmann, chamou de "sinistro" ou Unheimlich, o espectral não-familiar, indeterminação e medo do inominado grotesco, que rompe os hábitos cotidianos com uma força incontrolável de angústia sem explicação.
Tratando com muita eficácia analítica da expressão brasileira desses subgêneros já no século XIX -por exemplo, analisando Noite na taverna, de Álvares de Azevedo (1878); O Doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar (1875); o conto "O imortal", de Machado de Assis (1872; 1882); entre 1920-1950 -por exemplo, O presidente negro ou O choque das raças, de Monteiro Lobato (1926), analisado por André Carneiro em um estudo pioneiro, Introdução ao estudo da "Science Fiction" (1967); A filha do Inca ou A República 3000 (1930), de Menotti del Picchia; "O homem silencioso" (1928) e Zanzalá e Reino de Deus (1938), de Afonso Schmidt; "O mistério de Highmore Hall", "Makiné" e "Kronos kai Anagke" (1929-1930), de João Guimarães Rosa, redescobertos por Braulio Tavares na Biblioteca Nacional; A cidade perdida, de Jerônymo Monteiro (1948), além de vários textos contemporâneos dos anos 1980 e 1990 , Roberto estuda as matrizes dos subgêneros, começando por discutir se as obras de gênero fantástico de Luciano de Samósata e suas imitações, dos séculos XVI, XVII e XVIII, por Francis Bacon, Campanella, More, Cyrano de Bergerac, Jonathan Swift etc., podem ser consideradas "protoficção científica". A noção de "proto" é, obviamente, antecipatória. Roberto sabe dessa teleologia e propõe a especificidade histórica, mítica, religiosa e poética, de antigos textos narrativos de viagens, em que aparecem elementos fantásticos, como o épico sumério-babilônico de Gilgamesh e Enkidu ou a Odisséia, evidenciando que se tornam "protoficção científica" quando apropriados em programas de usos do passado que inventam tradições. Ou que as destroem, como ocorre exemplarmente com Machado de Assis, em quem vamos nos deter um pouco, para ainda falar do "fantástico".
Em 1882, ele republicou "O imortal", conto de 1872, em que narra a vida de um personagem que vive mais de 250 anos. O conto parodia e desmonta o romanesco romântico da aventura e do amor, elegendo uma tradição antiga, a de Luciano de Samósata, grego do século II d. C., autor de obras satíricas e paródicas relacionadas à chamada Segunda Sofística. Caso de História verdadeira, uma paródia, informa Henrique Murachco, das narrativas de Odisseu na corte do rei Alcino, nos cantos IX e seguintes da Odisséia.1 Como outros textos de Luciano, História verdadeira se caracteriza pela improbabilidade das ações e dos eventos narrados, improbabilidade que Roberto analisa tratando do "fantástico". O gênero, demonstra, foi usado por autores conhecidos de Machado de Assis, como o Swift de Viagens de Gulliver, ou o Cyrano de Bergerac de Viagem à Lua. Tem regras específicas: é uma ficção falsa, ou seja, ficção sobre coisas impossíveis e improváveis. Para especificá-la, podemos repetir a pergunta de Espinosa: A narração de um evento que não ocorreu em parte alguma é falsa ou fictícia? Há dois tipos de critérios para responder, o de existência e o de essência. Quando a narração se refere a algo que realmente existe e o relaciona com um evento que não ocorreu em parte alguma, tem-se a "ficção primeira". Por exemplo, com a referência de uma pessoa que realmente existiu, Machado de Assis, podemos inventar a ficção de algo que nunca ocorreu, como uma viagem dele à Inglaterra, onde faz contatos com uma brasileira de belos olhos, leitora assídua de Otelo, chamada Capitolina. Tem-se a "ficção segunda" quando a narração se refere somente à essência dos seres; com a referência à essência, é possível inventar uma ficção verdadeira, como vera fictio, e uma ficção falsa, como falsa fictio. Como exemplo desta última, imaginemos uma história absurda em que um inseto infinito voa num espaço que, teoricamente, deverá estar todo ocupado por seu corpo; ou um personagem com uma alma quadrada. Ou, ainda, um homem imortal. A distinção permite conceber operacionalmente a "ficção verdadeira" como a narração que relaciona a existência ou a essência verdadeira de algo com eventos que não aconteceram. E também definir a ficção de algo falso, que não é nem existe, como história que relaciona o não-ser com acontecimentos que nunca ocorreram. A falsa fictio inventa algo impossível de ser e, assim, de acontecer. Em ambos os casos, verdadeiro e falso, o termo "ficção" define uma operação da imaginação, uma técnica, uma forma e um efeito aplicados ora ao conhecimento de existência, ora ao conhecimento de essência.
O exame que Roberto faz das inúmeras obras é funcional e visa, justamente, a definir a imaginação, a técnica, a forma e os efeitos da "ficção especulativa". O que caracteriza nuclearmente o gênero especulativo e seus subgêneros é, como diz, o interesse pela figuração do Outro. No caso estrangeiro, é possível datar de fins do século XVIII e início do XIX as obras de "ficção científica" -no sentido do subgênero que metaforiza a ciência e a tecnologia como referência principal -e, ainda, de horror e de fantasia, que figuram o Outro. No caso brasileiro, a coisa se rarefaz. Como sugeri antes, Roberto avança hipóteses explicativas dessa rarefação: a primeira delas associa-se ao quase nenhum desenvolvimento da filosofia e da ciência num país que continuou agrarista e escravista por muito tempo depois da sua independência política. Como diz Antonio Candido, em Formação da literatura brasileira,2 desde os árcades existe uma posição, que se sistematizou no país durante o Romantismo, de considerar a atividade das letras como prática constitutiva da nacionalidade. Obviamente interessado, esse pragmatismo implica até agora a diminuição da imaginação, dado o interesse pela apropriação política da literatura como meio de representar imediatamente a experiência humana e social, fixada por vezes no pitoresco mediado pelo favor que restringe a universalização do valor estético. Os usos da literatura como instrumento de formação da nacionalidade teriam preferido a documentação realista e naturalista orientada pelas ideologias do progresso e do determinismo. Nesse sentido, aqui a ficção especulativa teria sido praticada, preferencialmente, nas formas do subgênero "horror", como ocorre em A noite na taverna, de Álvares de Azevedo; ou como sátira, em A lanterna mágica (1844), de Araújo Porto-Alegre; em paródias byronianas, como O elixir do pajé, de Bernardo Guimarães, e mais invenções, como o Tatuturema e O inferno de Wall Street, de Sousândrade. E, ainda, com a tópica da viagem fantástica a mundos perdidos no interior do território, caso de vários textos do início do século XX escritos por Menotti del Picchia, como A filha do Inca, ou Gastão Cruls, A Amazônia misteriosa (1925). O sucesso brasileiro de textos que representam mundos perdidos, propõe Roberto, teria sido condicionado pela imensidão, exotismo e desconhecimento do próprio território nacional. No início do século XX, num momento em que vários projetos políticos de controle das populações proletárias de negros e imigrantes aplicam ideologias eugenistas, racistas, tayloristas e fordistas à organização racional do trabalho em centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo, a ficção especulativa tornou-se meio para a propaganda das medidas. Algumas publicações desse tempo, como a revista A Bandeira, publicada pelo Club dos Bandeirantes, do Rio de Janeiro, tinham capas futuristas; num número de A Bandeira do início dos anos 20, a Baía de Guanabara aparece como que defendida por uma muralha de arranha-céus de centenas de andares ligados por passarelas, cenário que lembra o planeta Mongo do Flash Gordon dos anos 30, por onde multidões militarizadas, que descem de zeppelins, balões e aeroplanos, marcham em ordem unida, provavelmente à espera de um Duce ou Führer imitados pelos galinhas verdes de Plínio Salgado e logo concretizados por Vargas e o Estado Novo. Caso também de Monteiro Lobato, que louva a discriminação racial norte-americana em O presidente negro e que, nas cartas que escreve a Anísio Teixeira, imagina o futuro do Brasil como um cenário de ficção científica; ou de Albino José Ferreira Coutinho, autor de A liga dos planetas (1923), em que, como Roberto aponta com agudeza, o narrador compensa o imobilismo social apelando para o discurso patriótico, quando viaja à Lua e faz contatos, na qualidade de embaixador brasileiro, com os povos de Vênus e Marte. Caso ainda de O Reino de Kiato (No país da verdade) (1922), de Rodolpho Theofilo, que narra a história de King Paterson, norte-americano descobridor da Novrovicina, sedativo homeopático, que chega a Kiato, sociedade que havia abolido os três principais males da humanidade: o álcool, o fumo, a sífilis. Em Kiato tem de tudo, é outra civilização. Lá, "...o cidadão vive e procede de acordo com a educação cívica e moral que recebeu". Ponto alto do livro do Roberto é o terceiro capítulo, "A Pulp Era que não houve", em que trata da produção de revistas, pulp magazines, divulgadoras da ficção científica e fantasia, na Europa e nos EUA nos anos 1920-1950. Elencando títulos de obras estrangeiras e nacionais e datas de edições, casas editoras brasileiras e meios de distribuição da ficção especulativa no país, esse capítulo transcende o assunto de que trata, pois interessa imediatamente para uma história cultural das práticas de leitura no país. Por que não se formou uma pulp fiction ou uma pulp era por aqui?, pergunta. De modo geral, evidencia, se já é difícil editar textos da literatura sancionada por críticos, historiadores literários e pela instituição escolar, mais difícil ainda é publicar literatura especulativa não sancionada no cânone literário. As editoras brasileiras preferem traduzir obras de ficção especulativa estrangeiras que, por existirem em grande quantidade e já terem recebido direitos autorais em seus lugares de origem, saem mais baratas que o texto de autor nacional. Além disso, como aponta outro estudioso do gênero, Braulio Tavares, por aqui não houve grandes obras produtoras de imitações, nem se organizou nenhum grupo de autores unidos no projeto de inscrever a ficção especulativa na história literária do país. A ficção especulativa vive do interesse de um público por assim dizer especializado, que a edita e consome hoje em fanzines, como Megalon; revistas, como Dragão Brasil, ou na coleção MINIbolso-Futurama, da editora Opera Graphica. Público mínimo e, não seria preciso dizê-lo, sujeito como tudo o mais à instabilidade econômico-política do país. Não obstante, como diz o Roberto no final do texto, "coisas estranhas e instigantes acontecem e nos fazem sonhar com o que a ficção especulativa brasileira poderia fazer, adaptando influências estrangeiras, descobrindo estratégias para a representação da realidade local, se as condições fossem outras". Este livro é uma dessas coisas estranhas e instigantes.
São Paulo, 2003
João Adolfo Hansen
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