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Por dentro do Projeto Genoma no Brasil

Conheça as iniciativas brasileiras dentro desta rede de pesquisa mundial

Publicado em 12/03/2004 - 02:00


O grande carro-chefe do estudo de genomas foi o seqüenciamento do DNA humano. Paralelamente a ele, milhares de outros organismos também estão sendo ou foram estudados por pesquisadores de uma série de países. Hoje, o Brasil já ocupa lugar de destaque ao lado dos Estados Unidos, França e Japão no trabalho de análise de mapeamento genético.

A exemplo do que é feito em outros países, o Brasil tem colocado seus laboratórios e centros de pesquisa ligados através de uma rede virtual para a troca de dados, informações, compartilhamento e divisão de tarefas.

A primeira experiência muito bem-sucedida do país nessa área foi com o estudo da Xylella, que causa uma doença chamada "amarelinho" na plantação de cítricos. Este foi o primeiro seqüenciamento de genoma concluído por cientistas brasileiros. O trabalho teve início em 1988, foi feito pela rede ONSA (sigla em inglês para Organização para Sequenciamento e Análise de Nucleotídeos) da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de São Paulo), e coordenado pelo professor Andrew Simpson, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, com participação das biólogas Mariana Cabral de Oliveira e Marie-Anne Van Sluys, do Laboratório de Biologia Molecular de Plantas do Instituto de Biociências da USP e do professor João Setúbal, da Unicamp. O custo foi de US$ 13 milhões.

A Xylella é transmitida por um inseto hospedeiro e pode bloquear os vasos que transportam água e sais pela planta, que fica doente e pode chegar a morrer. Essa espécie tem diversas linhagens e a conhecida como "do amarelinho" é comum nas plantações de cítricos no Brasil, em especial nos laranjais, o que pode acarretar um prejuízo enorme para produtores e exportadores.

Com o fim deste seqüenciamento, o departamento de Agricultura do governo americano encomendou à mesma equipe brasileira o estudo do genoma de outra linhagem da mesma bactéria, a Xylella fastidiosa, que ataca as uvas da Califórnia e causa uma doença chamada "Pierce". O trabalho foi encerrado em 2003 e levou dois anos para ficar pronto, embora 95% dele tenha sido realizado em três meses. O tempo restante foi necessário para os outros 5% mais difíceis de seqüenciar.

O mesmo laboratório está envolvido ainda em outros dois projetos junto com os Estados Unidos. "O Brasil está muito bem nessa área de pesquisa. Nosso trabalho é comparado ao de países desenvolvidos. E, na América Latina, é o único que já realizou o seqüenciamento de um genoma", afirma a bióloga Mariana.

Ligados em rede

A rede ONSA foi criada em 1997 ligando mais de 30 unidades de pesquisa no estado de São Paulo. A exemplo dela, outros 25 centros estão distribuídos pelo Brasil reunidos na Rede Nacional do Projeto Genoma Brasileiro. Esta iniciativa, criada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), integra todas as regiões do país em torno de trabalhos sobre genoma. O primeiro caso de sucesso foi o sequenciamento da Chromobacterium violaceum , uma bactéria encontrada no Rio Negro, com grande potencial biotecnológico, pois a partir dela podem ser feitos antibióticos e antitumorais e, através dela ainda se pode obter bioplásticos e reduzir impactos em áreas de garimpo. Com o fim do estudo, concluiu-se que a bactéria tem 4,2 milhões de pares de bases (veja mais no Glossário no pé da página). O investimento foi da ordem de R$ 10 milhões.

A rede ONSA também gerou o Projeto Genoma Humano do Câncer, parceria da Fapesp com o Instituto Ludwig para Pesquisa do Câncer. Através desta iniciativa, o Brasil já contribuiu com mais de 400 mil seqüências de fragmentos de genes envolvidos no surgimento de tumores cancerígenos, aumentando significativamente o conhecimento mundial sobre a doença, em especial a de mama. O orçamento inicial da rede ONSA era de US$ 10 milhões, divididos igualmente entre as duas entidades. A USP é uma das instituições que possui um grande centro de pesquisa, coordenado pela premiada geneticista Mayana Zats, o Centro de Estudos do Genoma Humano, ligado ao instituto de Biociências da universidade. O grupo realiza análise de localização de genes que causam os mais diferentes tipos de doenças.

Vários outros projetos de seqüenciamento de genoma estão acontecendo no país, como é o caso do Laboratório de Biologia Molecular da UnB. Em conexão a outros institutos brasileiros, já concluiu o seqüenciamento do Paracciodes brasiliensis, um fungo que causa uma doença pulmonar difícil de diferenciar do diagnóstico da tuberculose e que aflige especialmente trabalhadores rurais. Com a conclusão, a coordenadora deste projeto, Andrea Queiroz Maranhão, conta que em cinco anos novas drogas para o tratamento desta doença já estarão sendo desenvolvidas. O Laboratório ainda participa de outros projetos, um deles da nacionalíssima planta de guaraná.

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