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A ocupação do Iraque um ano depois

Artigo de Eiiti Sato* originalmente publicado pelo portal UnB Agência

Publicado em 19/03/2004 - 02:00

A ocupação do Iraque pelas tropas lideradas pelos Estados Unidos, que agora completa um ano, desperta muitas reflexões e seria impossível fazer um balanço de todos os seus desdobramentos em um limitado espaço. Uma primeira reflexão derivada desses fatos diz respeito à importância do terrorismo como forma de guerra. 

O terrorismo, ao longo da história, jamais teve importância semelhante à do terrorismo islâmico dos dias atuais. Até mesmo atos de matança indiscriminada já ocorreram no passado, como no caso dos anarquistas em Paris e em Chicago nos fins do século XIX, todavia, nada que se comparasse aos ataques do terrorismo islâmico. Em especial, o caso do World Trade Center teve importância vital porque levou o governo americano a mudar de forma substantiva o entendimento de segurança externa, dentro de cuja lógica se explica a ocupação do Iraque. A formidável capacidade militar dos EUA permitiu que o campo de batalha contra o terrorismo fosse deslocado para longe das fronteiras americanas. Até agora, o total das perdas americanas com a ocupação do Iraque mal chegou à metade do total de vítimas do World Trade Center. Além disso, no Iraque, as perdas foram essencialmente militares que, em princípio, devem estar preparadas para essa contingência. 

A questão que se levanta é quanto tempo será ainda necessário para que a parcela mais sensata do mundo islâmico prevaleça sobre os grupos mais radicais. Entre os cristãos, manifestações de ódio e atos de atrocidade marcaram a Reforma e, mesmo antes, as heresias eram combatidas de forma cruel e brutal. Com efeito, é difícil saber se, em matéria de crueldade, a Cruzada contra os cátaros no início do século XIII não foi pior do que a noite de São Bartolomeu, em 1572. Dessa forma, o cristianismo levou séculos para incorporar a tolerância entre os seus valores. 

Mais do que os ataques em Bali ou à representação da ONU em Bagdá, o recente ataque em Madrid pôs em alerta as principais potências do mundo e poderá produzir uma coalizão em torno da questão do combate ao terrorismo que o governo americano fracassara em construir. Essa união poderá ter efeitos importantes na contenção das redes terroristas, todavia, persistirá ainda o problema do espaço de tempo durante o qual imensos gastos serão feitos para manter a segurança em sociedades abertas.

Sob o ponto de vista da ordem internacional, o aspecto que mais sobressai da invasão ao Iraque é o fato de que a ocupação foi decidida e realizada por uma limitada coalizão de forças sem o apoio e até mesmo sob protesto de significativa parcela da comunidade internacional. A conclusão mais imediata e óbvia que se pode extrair desse episódio é que o poder continua se constituindo num elemento primário da ordem internacional, enquanto o consenso continua sendo um fator secundário. Na verdade, esse é um padrão que prevaleceu no passado e não há razões para supor que tenha se alterado no presente. O que mudou foram as condições políticas. No passado, a insegurança das nações era mais disseminada e a ameaça de guerra era contínua. Era comum um estado atacar seus vizinhos alegando direitos sucessórios ou motivos religiosos. Assim, qualquer incremento nos recursos de poder por parte de um estado era visto com desconfiança e receio, gerando um ambiente internacional conflituoso e tenso. 

Esse quadro explica em grande medida as reflexões de pensadores como Maquiavel e Hobbes. Abominava-se a guerra tanto quanto hoje, mas a desconfiança era a condição natural nas relações entre estados, poderosos ou não, e fazia parte da política dos estadistas mais sensatos dissuadir seus vizinhos de qualquer tentativa de estender domínios sobre seu território. Além disso, nem mesmo um governo sábio e moderado era garantia de ordem mais pacífica, uma vez que esse governo poderia ser sucedido por outro bem diferente. Dessa forma, é preciso ver o Maquiavel diplomata, preocupado com o manejo do equilíbrio de poder entre a sua Florença e os reinos que a circundavam, para melhor compreender o Maquiavel pensador; e raciocínio semelhante pode ser estendido a outros pensadores como Rousseau e Vattel. 

A mudança significativa nesse ambiente internacional ocorreu apenas no século XX refletido no avanço extraordinário da institucionalização das relações internacionais. Os pessimistas costumam dizer que a ONU e outras organizações internacionais nunca foram efetivas em seus propósitos, todavia, um olhar mais atento reconheceria o papel fundamental desempenhado por esse sistema na construção de um mundo de relações mais articuladas, pacíficas e com práticas mais universais. Essa realidade é especialmente visível no mundo da economia cujo desenvolvimento depende diretamente do nível de universalidade e de estabilidade proporcionada pelo quadro institucional. Tudo isso, no entanto, refere-se a forças políticas organizadas com interesses definidos e, principalmente, que não vejam os demais como um mal a ser eliminado.

(*) Eiiti Sato é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília. Tem pós-doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo.

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