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Tênis popular

Núcleo de estudos da UFSC pretende ser um modelo de centro de treinamento e ainda tornar o tênis de campo um esporte acessível às camadas menos favorecidas da sociedade

Publicado em 08/03/2003 - 20:00

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Desde que Gustavo Kuerten venceu o torneio de Roland Garros em 1997 e passou a figurar entre os melhores jogadores do mundo, o tênis está na iminência de se tornar um esporte popular no Brasil. Mas, com preços que variam entre R$ 200,00 e R$ 400,00 mensais por uma hora de aula semanal, o esporte de Andre Agassi (EUA), Lleyton Hewitt (AUS) e companhia tem poucas chances reais de servir como brincadeira de rua às crianças brasileiras. Mesmo  assim, não param de surgir alternativas para tentar superar a barreira financeira. O Netec/UFSC (Núcleo de Estudos de Tênis de Campo da Universidade Federal de Santa Catarina), é um exemplo: além de fazer pesquisas, o centro desenvolve iniciativas que têm beneficiado comunidades de baixa renda.

Este ano, o núcleo iniciou o projeto "tênis nas escolas", que tem o objetivo de levar o esporte para estudantes de Ensino Fundamental e Médio. Docentes da IES e o coordenador do Netec, Juarez Miller Dias, ministraram em fevereiro cursos para professores de educação física de escolas públicas de dois municípios catarinenses: Indaial e Rio do Sul. "O projeto contém os kits pedagógico e prático, além do próprio curso e uma orientação via internet. A intenção é mostrar que o tênis pode ser inserido no conteúdo das aulas de educação física e que é possível adaptar a quadra da escola à iniciação", afirma Dias.


Uma promessa na UFSC

Segundo melhor brasileiro na categoria até 18 anos, Bruno Rosa treina no Netec há três anos, desde que tinha 14. Em seu penúltimo ano como juvenil, pretende participar do máximo de torneios possível e tem como grande objetivo disputar em sua categoria o torneio de Roland Garros, palco que tornou Guga conhecido em todo mundo há cinco anos.

Rosa começou o ano bem. Chegou à semifinal do Banana Bowl, um dos torneios mais importantes do mundo no circuito juvenil, que foi disputado na ultima semana no Clube Pinheiros, em São Paulo - foi derrotado pelo português Frederico Gil por 2 sets a 1, com parcias de 6/1, 5/7 e 6/4. "Pretendo fazer o meu melhor e aproveitar ao máximo estes dois anos que ainda tenho antes de me tornar profissional, em 2005", afirma.

Para isso, o jovem tenista tem treinado duro. Todos os dias, durante a manhã, treina cerca de três horas e meia na quadra e, à noite, faz duras horas de exercícios físicos - de tarde, vai para a escola, onde cursa a terceira série do Ensino Médio. "A facilidade do Netec ajuda muito. Sempre há um instrutor perto, meu preparador físico é da própria universidade e o tênis de campo e a pista de atletismo são no mesmo local", afirma o jovem que, depois que abandonar as raquetes, pretende cursar economia ou administração.

O professor-responsável explica que a proposta é massificar o esporte. "Essa popularização passa pelas aulas de educação física. Por isso estamos auxiliando os professores, que devem ser capacitados. Não adianta um treinador de fora ficar no local seis meses, um ano, e depois ir embora. Queremos que o trabalho tenha continuidade e que o tênis de campo faça parte do dia-a-dia das crianças", diz. 

Outras seis prefeituras do Estado, entre elas Blumenau, Chapecó e Concórdia, serão atendidas já nos próximos meses. Segundo Dias, um dos principais motivos da falta de aulas da modalidade nas escolas é o alto custo do material. "Fechamos um convênio com a Guarani Sports, uma empresa de Palhoça (SC), e estamos construindo, a preços acessíveis, kits práticos que contém materiais e equipamentos. Assim, o projeto ficou extremamente barato, adaptado à realidade das escolas públicas. E a iniciativa já começou a ser procurada também por escolas particulares", conta. 

Centro Modelo Apesar do empenho na área social, o Netec foi criado com o objetivo de desenvolver pesquisas sobre tênis de campo e formar bons professores, ténicos e treinadores - e este continua sendo o foco principal. "Desde 1995, quando começamos, trabalhamos com os mais variados estudos em psicologia do esporte aplicada ao tênis, metodologia, preparação física e técnica da modalidade", explica o professor.

Atualmente, as pesquisas do núcleo são feitas com base no treinamento de quatro jovens tenistas brasileiros: Bruno Rosa, Liege Vieira, Bruna Vieira e Giovani Avila. Na UFSC, eles recebem acompanhamento técnico, tático, físico e psicológico. Por conta da facilidade e proximidade com outros centros, têm ainda orientações nutricionais. "Todos são atletas juvenis em formação que aceitaram participar de nossas pesquisas e ficam à disposição dos pesquisadores que vêm coletar dados para seus estudos. Agora, por exemplo, vamos começar uma pesquisa sobre a importância da concentração para a execução do saque", diz. 

Para o treinador de Bruno Rosa, Ricardo Pimentel, que se formou na faculdade em 1997 e participou da fundação do centro, uma das maiores vantagens que o o treinamento na universidade oferece aos técnicos são os cursos disponíveis. "Já fiz alguns voltados a treinamento psicológico e metodológico. Depois, sempre passo para o Bruno o que aprendo. Essa parte científica disponibilizada pela IES é muito importante e é praticamente inexistente nos outros centros de treinamento do Brasil". 

Pimentel afirma que o conteúdo dos cursos permite a elaboração de um melhor planejamento de trabalho, tanto na aprendizagem quanto na área prática. Regularmente, o treinador faz análise da preparação física de seu atleta e participa dos testes realizados na pista de atletismo. "Por enquanto, tenho coletado dados do Bruno, como estatísticas de jogo. Apesar de ainda não termos feito análises de desenvolvimento físico, sabemos que ele está indo bem, dentro dos objetivos traçados", afirma. O jogador, que tem 17 anos e treina na UFSC desde os 14, acredita que seus treinos são diferenciados. "Saio do treinamento e em dez minutos estou na pista de atletismo,  na piscina ou na musculação. E tem sempre alguém pra me auxiliar, um preparador físico ou treinador".

O próximo objetivo do Netec, que é parceiro da Universidade de Extremadura, na Espanha, além de expandir o "tênis nas escolas", é efetivar novos convênios. "Fazemos intercâmbios de alunos, pesquisadores, treinadores e professores com a universidade espanhola. Agora, estamos trabalhando para formalizar um acordo com o Centro de Treinamento Olímpico de Munique, com o qual pretendemos fazer o mesmo. Os alemães responsáveis já estiveram aqui e demonstraram muito interesse", declara Dias. 

Além disso, o professor afirma que o Netec também está prestes a se tornar um Centro de Excelência. "Estamos em contato freqüente com a Secretaria Nacional de Esportes do Governo Federal e ainda este ano devemos conseguir". Na opinião dele, atingir esta meta é importante para que o núcleo consiga apoio financeiro para se sustentar. "Recebemos suporte da UFSC, mas, como as universidade públicas estão sucateadas, não tem sido suficiente. Precisamos de ajuda e acredito que essa marca facilitaria esse tipo de parceira", explica. 

Uma das maneiras que o núcleo tem encontrado para se manter e, ao mesmo tempo, incentivar a população de baixa renda a praticar o esporte, é investir em escolas de tênis. O Netec oferece dois tipos de aulas, com aprendizagem voltada ao lazer ou à competição, a preços simbólicos. "Temos cerca de 50 alunos no total. O custo é variável. Para a direcionada ao lazer, o valor fica em torno de R$ 150,00 por semestre. Na outra, que tem tem a maioria dos alunos e cujo treinamento é mais pesado, o investimento é de cerca de R$ 80,00 mensais". Como, atualmente, o centro esta sem patrocinador, estas taxas de inscrição bancam sua manutenção e o pagamento de dois dos três treinadores que possuem - Pimentel e o tenista Bruno Rosa têm patrocinadores próprios. 

Apesar dos resultados positivos, os coordenadores do Netec, que até 2000 dispunha de apenas uma quadra de tênis e hoje possui seis, não têm ambição de ampliá-lo. Segundo Dias, o obejtivo é ser um projeto piloto que trabalhe, fundamentalmente, com a formação de profissionais por meio do treinamento de atletas juvenis. "Não queremos nos transformar em um clube de competição. Nosso objetivo é ser um centro modelo que forme treinadores, professores e técnicos que saiam com condição de trabalhar com educação ou preparação física e possam levar para outros lugares o que aprenderam aqui. Queremos servir de exemplo para outros clubes e academias", diz. Pimentel completa: "não há uma escola de tênis no Brasil, como há na Espanha e na Rússia, por exemplo. Aqui, os treinamentos são feitos um pouco no ´chutômetro`. Esse contato acadêmico e científico é muito bom para tentar melhorar isso e deveria ser expandido". 

O professor avisa que qualquer treinador de tenistas juvenis interessado em pesquisa pode procurar a UFSC. "Temos interesse em fazer estudos. Costumamos trabalhar com atletas que têm perspectiva de se tornar profissionais e aceitam participam de nosso trabalho. Aqueles que têm interesse sempre podem vir para cá, mesmo que seja para trabalhar conosco apenas por um período curto. Nossos laboratórios que fazem avaliações, entre outras, de aptidão física e fisiológica, estão de portas abertas", afirma.

Tênis sobre rodas

O Netec possui também um projeto gratuito voltado para a área social. Promove treinos e campeonatos destinados a portadores de necessidades especiais, como síndrome de Down e deficiência física. A universidade tem e fornece as cadeiras de rodas específicas para o tênis e, a cada semestre, divulga o programa na comunidade e promove campeonatos entre estes atletas.

Dias conta que o Netec pretende expandir a iniciativa para além da capital catarinense. "Muitos de nossos alunos de Educação Física são do interior do Estado e, quando se formam, voltam para suas cidades de origem. A idéia é que eles coordenem núcleos de tênis em cadeira de rodas em seus municípios", conta. "Queremos ainda realizar uma etapa do campeonato brasileiro de cadeira de rodas aqui em Florianópolis para estimular nossa iniciativa e divulgá-la na mídia".

As aulas para os portadores de necessidades especiais são ministradas de segunda a sábado. Atualmente, o núcleo conta com oito praticantes e pretende aumentar este número para doze tenistas.

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