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Publicado em 06/12/2004 - 02:00
Por Françoise Terzian, free-lance
Todo ano é a mesma história. Depois da expectativa para o tão aguardado Exame
da Ordem - passaporte que assegura aos formados em Direito a possibilidade de
advogar oficialmente -, os alunos costumam criticar a dificuldade imposta na
formulação das provas. No estado de São Paulo, por exemplo, dos cerca de
60.000 inscritos que prestam o exame por ano, apenas de 8.000 (13,3% dos
candidatos) a 10.000 (16,7%) são aprovados. Exame a exame, o índice de
reprovados aumenta, como comprovam os resultados da última edição da prova
neste estado (realizada entre setembro e outubro deste ano), quando dos 19.660
bachareis inscritos, apenas 8,57% (1.686) foram aprovados pela e obtiveram o
título de advogado, o pior resultado da história .
Os números variam de estado a estado também. Alguns exemplos: na Bahia, no
primeiro exame deste ano, 54,56% dos candidatos ao Exame da Ordem foram
aprovados; ainda no Nordeste do país, a OAB de Pernambuco registrou 28% de
aprovação no exame de agosto e 67% na prova anterior, aplicada em março,
contra uma média de 55% de aprovados nos anos anteriores; no Ceará, também
há diferença significativa entre as duas provas realizadas este ano, com 60%
de aprovação em março e 33% em agosto; na região Norte, o Pará teve
aprovação média de cerca de 20% entre os dois exames deste ano; no Rio de
Janeiro, a aprovação ficou também em um nível pequeno no exame de março
deste ano: 30%; situação pior foi registrada no Paraná, onde apenas 17,35%
dos inscritos foram aprovados; no Distrito Federal, a média de aprovação nos
dois exames deste ano ficou em 48%; e no Rio Grande do Sul, o índice de
aprovação no segundo semestre de 2004 atingiu 35,6%.
Para Tallulah Carvalho, diretora-adjunta da Mulher e Conselheira da OAB-SP, não é a prova que tem se tornado mais difícil, mas, sim, o nível de preparação dos alunos que tem caído. A causa disso é o grande número de faculdades que, segundo ela, funciona como um verdadeiro "estelionato". "Enquanto os Estados Unidos têm 170 faculdades de Direito - e mais do que o dobro da população brasileira -, o Brasil conta com quase 800 faculdades de Direito e mais de 300 na fila de espera para serem aprovadas pelo MEC", alerta Tallulah.
Na mesma linha vai a análise de Ronald Alexandrino, presidente da Comissão do Exame da Ordem da OAB Federal. "Isso mostra o analfabetismo jurídico dos estudantes que saem das faculdades de Direito. É preciso uma melhor qualidade no ensino jurídico. E isso é, em parte, responsabilidade do MEC (Ministério da Educação). Hoje em dia é possível abrir uma faculdade de Direito com grande facilidade, quase como se estivesse abrindo a filial de uma empresa. O Brasil tem 750 cursos de Direito, e os Estados Unidos, 150. Essa diferença existe porque lá a fiscalização é maior", afirma o advogado.
O MEC, de seu lado, diz estar tentando fazer sua parte. "Essa é uma
preocupação nossa desde janeiro", afirmou o ministro Tarso Genro sobre o
baixo desempenho dos bacharéis em Direito no Exame da Ordem. "Isso aponta
na direção correta da nossa postura de enrijecer a aprovação para cursos de
Direito e de Medicina, o que já estamos fazendo. Esses Exames da Ordem são sérios,
eu os conheço, e demonstram aquilo que vínhamos apontando, que uma boa parte -
não todas, obviamente - mas uma parte não são instituições de ensino, são
instituições sem qualidade que visam apenas o mercado. E Educação não é
bem mercantil", afirmou o ministro e advogado, durante evento promovido
pelo Universia Brasil em São Paulo.
Necessidade
É por conta deste cenário que Tallulah defende a existência do Exame da
Ordem, que funciona como uma espécie de funil entre os alunos bem e mal
preparados. "Não é por acaso que Largo São Francisco, Mackenzie e PUC-SP
são as que mais aprovam em São Paulo, enquanto há certas faculdades que
atingem o índice zero de aprovação. A questão é: se ninguém foi aprovado o
que ensinaram durante os cinco anos de Direito?", questiona a conselheira
da OAB-SP.
De mesma opinião, Sebastião Tojal, presidente da Comissão de Ensino Jurídico
da OAB-SP e professor da Faculdade de Direitro do Largo São Francisco, vê o
Exame da Ordem como um instrumento da classe e da cidadania. Sem ele, Tojal diz
acreditar que a população pode passar a ser vítima de maus advogados,
resultando na má prestação de serviços.
Longe da chiadeira dos que prestam o exame e reclamam, professores de diferentes
instituições não só têm sem mostrado favoráveis ao Exame da Ordem, como
também o classificam como de razoável a inteligente. "Ele é um regulador
do mercado e uma forma de fazer com que as universidades invistam na melhoria do
quadro de professores, visando formar alunos com um nível de conhecimento que
supere a aprovação do exame", opina Luis Cláudio Montoro Mendes,
coordenador adjunto do IbmecLaw - Centro de Estudos em Direito do Ibmec São
Paulo.
Existente desde 1971, o Exame da Ordem tornou-se obrigatório em 1975 (para
formandos em 1974), após se transformar em lei pelo Estatuto da Ordem 4215/63.
Oferecido três vezes ao ano, o Exame da OAB-SP é composto por duas fases, por
exemplo. A primeira se resume a uma prova de 100 questões de múltipla escolha
sobre os principais ramos do Direito Constitucional, Administrativo e Civil,
Processo Civil, Comercial, Penal, Direito do Trabalho, Tributário e Ética. A média
é de 50 acertos. Porém, se o inscrito responder corretamente a 46 questões,
ele é aprovado. Já a segunda fase é a chamada de prático-profissional, e
inclui uma peça e quatro perguntas.
Para o professor Damásio Evangelista de Jesus, um dos mais respeitados
especialistas em Direito Penal do Brasil e representante do Brasil na Comissão
de Prevenção do Crime e Justiça Penal das Nações Unidas/ONU, em qualquer
que seja o lugar e a área, é importante que haja a seleção de candidatos.
"Não é possível que um aluno simplesmente saia da faculdade e exerça a
função", diz Jesus, que lembra que a Itália conta com apenas 50
faculdades de Direito. "Já estão discutindo um exame parecido até para a
Medicina. É importante que tenhamos critérios."
Visão de recém-formada
Na opinião de Alexandra Berton Schiavinato, 23, recém-formada em Direito
pelo Mackenzie, a primeira fase do exame é bastante difícil. "Ela exige
muito conhecimento dos cinco anos do curso e ainda nos obriga a ter certa
habilidade para não cair em algumas pegadinhas", diz Alexandra, que passou
nas duas fases do exame.
Para se preparar para a prova, Alexandra fez cerca de quatro meses de curso
preparatório. Como dicas para quem vai prestar o exame que tem inscrições
abertas neste final de ano, Alexandra recomenda uma boa revisão de todas as matérias,
além de calma.
Uma boa notícia para quem quer testar suas habilidades é que o Conselho
Seccional da OAB-SP acaba de votar favoravelmente à participação de
treineiros - estudantes que ainda não concluíram o curso de Direito - na
primeira fase do Exame de Ordem. "A exemplo da Fuvest que, no ano passado,
recebeu inscrições de 157.000 candidatos, sendo 12,5% de treineiros, a Ordem
também vai admitir este tipo de candidato. É uma antiga reivindicação dos
estudantes de Direito que a OAB-SP, pioneiramente, vem atender, objetivando um
primeiro contato com o Exame de Ordem, com o fim exclusivo de treinamento",
diz o presidente da OAB-SP, Luiz Flávio Borges D´Urso.
Segundo as regras criadas, o treineiro receberá a mesma prova dos candidatos
formados, mas fará seu exame em sala especial e os resultados serão fornecidos
em caráter não-oficial e sem gerar qualquer direito para ingresso na segunda
fase do Exame. Com os treineiros, o presidente da OAB-SP diz acreditar que o
exame terá um acréscimo de 15% de inscritos. "Como é comum os candidatos
ficarem nervosos, o treino pode ajudar o bacharel quando a prova for
efetivamente para valer", pondera D´Urso. Os treineiros poderão se
inscrever já neste próximo Exame de OAB-SP e deverão pagar R$ 39 de taxa de
inscrição. Prazo de inscrições se encerra em 15 de dezembro (para
mais informações, consulte o site da OAB-SP)
No entanto, a realização da versão para treineiros da prova pode vir a ser questionada, já que a maioria da Seccionais da OAB se diz contrária à nova modalidade. Esses detratores da novidade lembram que o provimento 81 da OAB Federal proíbe a aplicação das provas do Exame para pessoas que não tenham concluído a graduação em Direito.
"[A minha posição sobre a inclusão de treineiros nos exames] é
lembrar que o Conselho Federal é contra. Há um provimento que esclarece
especificamente que não é permitido que quem não tenha diploma faça o exame.
Mas haverá uma reunião na segunda-feira. 6 de dezembro, com a OAB-SP e de
outros estados e teremos uma posição final. Caso o Conselho Federal decida
agir contra a decisão de São Paulo, sempre há a possibilidade de terem que
voltar atrás na decisão de incluir treineiros", afirma Ronald Alexandrino.
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