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Intra-empreendedor se destaca no mercado

Profissional com este perfil traz inovações à empresa, tem uma certa dose de ousadia e soluciona de forma inusitada diversos problemas corporativos

Publicado em 16/02/2005 - 02:00

Por Renata Aquino

Não basta mais ter somente diploma de graduação e especializações para se destacar no mercado de trabalho. As corporações querem cada vez mais profissionais que tragam soluções inusitadas para seus problemas, sejam pró-ativos e inovadores, ou seja, que tenham um perfil intra-empreendedor. Basicamente, eles querem que os funcionários apliquem as características empreendedoras em prol da própria empresa. "O intra-empreendedor é um tipo de profissional interessante para qualquer tipo de empresa", diz Juliano Seabra, coordenador do núcleo de empreendedorismo do Senac São Paulo. "São funcionários que têm comportamento semelhante aos donos das empresas, e sua ousadia é fundamental para a inovação", completa Seabra.

O intra-empreendedorismo surgiu quando grandes corporações começaram a identificar a necessidade de incentivar o empreendedorismo dentro dos departamentos da organização. "Os intra-empreendedores têm abordagens fora do convencional para os problemas, buscam soluções a qualquer custo", conta o coordenador do Senac-SP. "O perfil intra-empreendedor é extremamente importante, sobretudo no nível de competitividade que grandes as empresas estão vivendo", conta Marco Hashimoto, especialista em intra-empreendedorismo da FGV-PR.

O intra-empreendedor não difere muito do empreendedor de um negócio próprio. "O principal contraste está nos riscos que o intra-empreendedor corre, que acontecem dentro de uma grande corporação", explica Seabra. Em contrapartida, o intra-empreendedor não toma riscos sozinho. "Em uma empresa, não é possível colocar em prática uma idéia sozinho, é necessário agregar pessoas ao projeto e um intra-empreendedor tem esse comportamento agregador", explica Seabra.

Aprovar um projeto não significa, também, entrar em uma aventura sem garantias. "O intra-empreendedor tem uma grande tarefa nas mãos que é conseguir o mais próximo à unanimidade da diretoria da corporação para iniciar um projeto", conta Seabra. "Um empreendedor consulta cem diretores de incubadoras, se apenas um decidir dar uma chance, ele já pode seguir com o projeto", lembra o coordenador do Senac-SP. "O intra-empreendedor tem uma dificuldade maior, que é conseguir a aprovação incondicional dos cem diretores da sua empresa".

Plano de ação para o intra-empreendedorismo

  • Conheça o clima organizacional que a empresa está vivendo. Identifique os colaboradores, a hierarquia e entenda sua posição no organograma.
  • Procure mecanismos de troca de informações e gestão do conhecimento como os bancos de idéias ou políticas de reconhecimento.
  • Conte com o superior hierárquico que esteja mais aberto a ouvir propostas e apoiar projetos.

A importância de ter um "padrinho"

Para ultrapassar todos os obstáculos tradicionais das corporações para novos projetos, incluindo burocracia e análise de custos, o intra-empreendedor conta com um aliado. O "padrinho" é um alto gerente de uma corporação que identifica e valoriza o intra-empreendedor ajudando-o a ter idéias concretizadas. Com bom trânsito no topo da hierarquia, o "padrinho" é um auxílio estratégico que o intra-empreendedor deve buscar apenas em momentos essenciais.

"Negociar e vender bem a idéia é muito importante para o intra-empreendedor e a interferência de um padrinho no contato com os maiores diretores é essencial", conta o coordenador de empreendedorismo do Senac-SP. "É interessante notar que as empresas que têm líderes empreendedores possuem mais facilidade em ter funcionários intra-empreendedores, conta Marco Hashimoto, especialista em intra-empreendedorismo da FGV-PR.

A existência de um padrinho também é justificada pela função do intra-empreendedorismo dentro das empresas. "É uma via de mão dupla, as empresas têm buscado cada vez mais mecanismos que favoreçam inovações criadas pelos funcionários", conta Seabra. Por outro lado, "é criada uma política de recompensa à inovação e trocas de idéias entre funcionários".

"É muito comum funcionários de áreas distintas terem idéias para outros campos de atuação", conta Seabra. "Em uma empresa sem troca de informações, essas idéias acabam se perdendo, mas, se o apoio às novas idéias é institucionalizado, elas florescerão e todos obterão proveito".

A recompensa do intra-empreendedor existe em vários níveis. "Pode-se ter o reconhecimento não-financeiro como uma viagem ou uma bolsa de estudos ou até mesmo uma promoção", explica o coordenador de empreendedorismo do Senac. "O reconhecimento financeiro pode, inclusive, gerar competição excessiva, o que é uma desvantagem em termos de troca de informações entre os funcionários", lembra Seabra. "O intra-empreendedor não toma iniciativas em troca de salário, mas procura trazer lucro para a empresa e destacar-se profissionalmente, tem uma visão ampla do seu trabalho", conta Hashimoto, da FGV-PR.

Quando a empresa é excessivamente tradicional, o intra-empreendedor precisa esforçar-se para propor inovações. "É necessário encontrar caminhos novos para mostrar suas idéias, conversar informalmente com pessoas de outras áreas e depender um pouco mais do padrinho para facilitar os trâmites", conta Seabra. "A tradição e a estabilidade pode ser um veneno para a organização", de acordo com o professor da FGV-PR, Marco Hashimoto. "Os intra-empreendedores podem ficar muito frustrados e fugirão da empresa para apresentar novos projetos em outro lugar", completa o professor.
O desafio maior do intra-empreendedor é mudar os processos tradicionais das empresas, ainda mais arraigados em grandes corporações. "A dificuldade em lidar com grandes organizações é que o empreendedor vem para desorganizar, usando sua postura visionária para trazer lucros", afirma Seabra.

A maior riqueza do intra-empreendedor está na capacidade de inovar. "Não necessariamente há captação de capital mas ampliação dos lucros", diz o coordenador do Senac. Em empresas que crescem aceleradamente, o intra-empreendedor tem muitas oportunidades e não encontra problemas para propor novos projetos. No entanto, de acordo com o coordenador do Senac-SP, "se a empresa cresce muito e perde sua identidade, o intra-empreendedor pode perder o estímulo pois não saberá a que tipo de empresa está servindo".

Para suprir as empresas com intra-empreendedores, universidades como a FGV-PR e o Senac-SP oferecem formação em empreendedorismo. São desenvolvidas habilidades como a capacidade de trabalhar em equipe, apresentar idéias e administrar o tempo para novos projetos. O Instituto Brasileiro de Intra-Empreendedorismo (IBIE) é outra importante fonte para os profissionais interessados no assunto. O especialista Marco Hashimoto, da FGV-PR, prepara o livro "A organização intra-empreendedora", a ser lançado pelo IBIE e Editora Saraiva.

Cultura estatal dificulta intra-empreendedorismo

Dentro de organizações governamentais, o empreendedorismo cresce de forma mais tímida. "Há o estímulo do governo mas o setor público ainda sofre com o excesso de regras, que engessam a inovação e desestimulam o surgimento de intra-empreendedores", relata Seabra. Uma gestão mais inovadora da organização governamental, como a que permite participação em resultados, incentiva mais o intra-empreendedorismo.

"O problema da cultura estatal é que dificulta o desenvolvimento de novas idéias, há excesso de burocracia e a noção de valor do funcionário internamente é diferente, há uma orientação maior para manutenção do status quo e não da obtenção do lucro", conta Hashimoto. "A melhoria de qualidade geral é a principal vantagem quando uma empresa governamental está aberta ao intra-empreendedorismo", completa o professor.

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