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Mulheres no poder

Alemanha, Libéria e Chile escolhem mulheres para liderar seus governos. O mundo estaria mais aberto à força feminina?

Publicado em 20/01/2006 - 00:01

Por Carlos Brazil

Angela Merkel, Ellen Johnson Sirleaf e Michelle Bachelet. Três nomes, três mulheres, três exemplos. Há um bom tempo não via tantas mulheres chegando ao poder. As três são pioneiras em seus países. Angela Merkel foi nomeada em novembro passado a primeira chanceler da Alemanha. Ellen Johnson Sirleaf foi eleita presidente da Libéria e também é a primeira a assumir o poder em um país do continente africano. Já Michelle Bachelet foi eleita agora em janeiro como primeira presidente do Chile.

Exemplos como esses permitem dizer que vivemos um bom momento para as mulheres se afirmarem mais decisivamente na comunidade mundial. Mesmo assim, há um longo caminho de futuras conquistas, já que elas ainda são minoria, seja no poder do mundo político, do econômico ou mesmo do acadêmico.

"Primeiro eu vejo essas conquistas de espaço de poder como resultado de uma luta que vem há séculos, não só no Brasil, mas no mundo todo, embora a participação feminina esteja muito aquém do que representamos na sociedade. A mulher construiu um espaço importante na sociedade, seja como eleitora, no trabalho, nas artes ou na Ciência", afirma Luiza Erundina, deputada federal pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro) e ex-prefeita da cidade de São Paulo.

Para a parlamentar, é essencial que a mulher amplie seus espaços nas diversas instâncias sociais, pois "sem a conquista de poder, nossos direitos e, inclusive, a luta pela igualdade, contra a discriminação e contra o machismo, ficam limitados".

"É muito importante disputar o poder, exercer o poder enquanto mulher, com características próprias, com sensibilidade, com senso de justiça, com a preocupação ética no trato da coisa pública. Temos características próprias e terminamos fazendo a diferença em relação aos homens. Não no sentido de nos considerarmos melhores, mas a sociedade avança na civilização quando os complementos interagem", defende a deputada federal.

Erundina - que como parlamentar tem apresentado vários projetos relacionados aos diretos e à inserção da mulher em todas as instâncias da sociedade - considera, ainda, que o exemplo dessas mulheres que chegam ao poder "é um fator de celebração, um estímulo à nossa luta".

Maria Lygia Quartim de Moraes, professora de Sociologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e pesquisadora do Núcleo de Estudos do Gênero - PAGU, afirma que muito da limitação da presença da mulher nas esferas de poder está ligado a questões econômicas. "Apenas 4% da riqueza do mundo está nas mãos de mulheres, e riqueza e poder têm tudo a ver", explica.

Desta forma, Maria Lygia entende que o movimento de ascensão das mulheres torna-se lento. "E tem o conservadorismo, também. Então, as coisas vão mesmo devagar", afirma.

Lúcia Avelar, diretora do Instituto de Ciência Política da UnB (Universidade de Brasília), também encara a questão econômica como um problema enfrentado pelas mulheres na busca pelo poder. "Há muita diferença na captação de dinheiro. Elas não mobilizam tantos recursos para campanhas eleitorais quanto os homens, pois eles têm mais compromissos e proximidade com o mundo empresarial, com o capital, ao contrário das mulheres."

Segundo Lúcia, a conquista de espaços deve ser entendida também como uma forma de luta pela Democracia. "Toda vez que a gente fala dessa situação das mulheres, na verdade o que estamos falando é na democratização da sociedade, a assimilação de segmentos excluídos num plano de igualdade maior. Acho que a gente tem de falar disso, pois o discurso está muito distante do processo real", diz.

Em relação ao sucesso das mulheres nas eleições, Lúcia Avelar destaca que há uma série de pesquisas mostrando serem elas muito mais sensíveis a questões sociais, por exemplo, e que, por isso, o eleitor é muito simpático às candidaturas femininas, "como se tivessem se desencantado com o atual sistema".

Mulheres do Brasil

São poucas, ainda, as brasileiras que conquistam posições de destaque em nossa sociedade. No campo político não é diferente. Nosso país nunca teve sequer uma mulher que tenha disputado com chances reais as eleições para a Presidência da República. Em 2002, a atual senadora Roseana Sarney (PFL-MA) chegou a liderar as pesquisas de intenção de voto, mas abandonou o projeto de ser presidente após ser acusada de ter captado recursos ilegais para sua campanha.

Hoje, o país tem apenas duas governadoras nos 26 estados e o Distrito Federal (Rosinha Matheus, no Rio de Janeiro, e Vilma Faria, no Rio Grande do Norte). No Senado há nove mulheres entre os 81 integrantes da Casa legislativa. Na Câmara são 46 deputadas federais entre seus 513 membros. No Judiciário, o Supremo Tribunal Federal conta com uma ministra entre seus 11 integrantes. Mulheres são prefeitas em 418 dos 5.560 municípios brasileiros.

"A participação da mulher na política é muito pequena, e isso também revela a natureza atrasada de nossa sociedade, uma sociedade conservadora. É o ranço que permanece de uma sociedade patriarcal, patrimonialista, em que a mulher era considerada patrimônio do homem", alerta o professor Marcos Costa Lima, do Programa de Pós-graduação em Ciência Política da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e presidente do FoMerco (Fórum Universitário Mercosul). "As mulheres estando preparadas têm como contribuir para a sociedade", acrescenta.

Para Lima, elas possuem um sentido de responsabilidade muito grande, principalmente por causa da maternidade, que as faz se dedicarem mais aos outros. Ele defende que a sociedade tome consciência e mude a forma de educar as novas gerações para que os jovens enxerguem com mais abertura a necessidade de se garantir a igualdade entre homens e mulheres.

Apesar desse pequeno número de mulheres na política brasileira - percentual baixo até para os padrões internacionais médios -, Lúcia Avelar enxerga um crescimento progressivo na participação delas na vida pública desde 1989, quando o país foi às urnas para escolher um presidente pela primeira vez após a ditadura militar.

Enquanto a representatividade das mulheres nas instâncias de poder político do Brasil gira em torno de 10%, os países nórdicos já têm quase metade das vagas parlamentares ocupadas por mulheres, por exemplo. Maria Lygia explica que quanto melhor o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de um país, mais equilibrada é a participação das mulheres nos variados níveis de poder. Isso é notável justamente nos países nórdicos.

Todos esses analistas ouvidos pelo Universia são unânimes em considerar essencial que haja diálogo, aproximação e compreensão entre homens e mulheres para que quaisquer diferenças sejam sempre equalizadas. A partir disso, a tendência é ver as coisas melhorarem cada vez mais.

E fica aqui a reflexão da deputada Luiz Erundina para mulheres e homens: "Não é simples mudar o que está aí. É uma tarefa gigantesca, até porque não fomos educados nessa perspectiva, muito pelo contrário. O machismo é um preconceito, é uma dimensão da cultura dominante e certamente quem educa reproduz essa cultura, esses valores. Cabe a todos nós mudar essa realidade no dia-a-dia".


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