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07/08/2002


Reserva de vagas pode beneficiar alunos de ilhas de excelência do ensino público


Criada para restabelecer a justiça no acesso às universidades estaduais, ao destinar 50% das vagas para alunos da rede pública - teoricamente prejudicados por um ensino mais fraco em relação ao oferecido pelos colégios particulares - a reserva de vagas, em vigor a partir deste ano, beneficiará alguns formandos de escolas conhecidas pelo bom desempenho nos vestibulares. É o caso, por exemplo, do Colégio Pedro II e dos colégios de aplicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Cap-Uerj) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Cap-UFRJ), considerados ilhas de excelência do ensino público.

Para participar do exame de qualificação do Sistema de Acompanhamento de Desempenho dos Estudantes do Ensino Médio (Sade), a partir do qual será feita a seleção dos ocupantes das vagas da reserva, é preciso ter cursado integralmente os níveis fundamental e médio ou técnico-profissional em escolas públicas do estado do Rio de Janeiro. Como o ingresso no Pedro II e nos colégios de aplicação é feito no curso de alfabetização, na quinta série do ensino fundamental ou na primeira do ensino médio, boa parte dos estudantes dessas escolas está credenciada a fazer a prova. Alunos de outros colégios federais de renome - como Colégio Militar, Celso Suckow da Fonseca (Cefet) e Escola Técnica Federal de Química (ETFQ) - também puderam se inscrever no Sade, desde que atendessem ao pré-requisito.

No ano passado, dos oito grupos de carreira do exame da Uerj, três foram encabeçados por colégios públicos

Com a inclusão de colégios federais e do Cap-Uerj na disputa pelas vagas para escolas públicas, prevista na lei 3.524, sancionada em 28 de dezembro de 2000 pelo então governador Anthony Garotinho, a reserva contemplará também alunos que já tinham, tradicionalmente, alto rendimento no vestibular estadual. De acordo com o ranking do vestibular da Uerj do ano passado, dos oito grupos de carreira, três foram encabeçados por colégios públicos. Na área biomédica, o líder foi o CapUerj; no grupo de estatística, informática e matemática, o primeiro lugar ficou com o Colégio Militar, seguido da unidade Humaitá do Pedro II; e o campeão do concurso de letras foi o Pedro II de São Cristóvão. O Cap-UFRJ também se destacou, com o quarto lugar em engenharia - atrás apenas de São Bento, CEL e Anchieta, todos particulares.

Uma comparação entre os rendimentos das escolas da rede estadual e as ilhas de excelência do ensino público mostra o contraste quando o assunto é a necessidade de ser assistido por uma reserva de vagas. Levando-se em conta todos os grupos de carreira da Uerj, o Pedro II teve um rendimento médio de 12,37% (63 classificados para 509 inscritos); o Cap-Uerj aprovou 39,47% dos que participaram (15 em 38); e 40% dos inscritos do Cap-UFRJ obtiveram a classificação (14 em 35). Juntos, os três colégios alcançaram uma performance de 17,5% (102 classificados em 582 inscritos). Já as escolas estaduais de ensino geral classificaram apenas 49 estudantes, dos 1.635 que inscreveram no vestibular (uma performance de 3%, a sexta parte da apresentada pela soma das três ilhas de excelência citadas).

Mesmo ainda não sabendo quantos concorrentes de escolas federais e do Cap-Uerj terá de enfrentar no Sade (a inscrição terminou no dia 26 de julho, mas a contagem ainda não acabou), o estudante Fábio, de 26 anos e que preferiu não dizer seu sobrenome, mostra preocupação com a inclusão desses alunos na disputa.

- Não se pode dizer que a reserva de vagas é um modelo eficiente, mas, com certeza, um estudante que sempre foi do Pedro II tem um diferencial, independentemente da origem social. Não é uma concorrência leal em momento algum - diz Fábio, que fará vestibular pela segunda vez, para Ciências Sociais, e se prepara para o Sade no Centro de Estudos e Ação Social da Maré (Ceasm).

Vestibular mais fácil

Alguns dos alunos do Pedro II, como Gabriela Ciarlini, de 17 anos, atestam que agora a briga por uma vaga na universidade ficou mais fácil. A aluna, que fará prova para direito, chegou a participar do vestibular normal, mas, depois que ficou claro que estudantes do Pedro II poderiam fazer o Sade, ela optou em concorrer às vagas da reserva.

- Não considero justo. Só pelo fato de estar separando os vestibulandos em categorias, já é uma discriminação - diz Gabriela.

Quem não pôde se beneficiar com o Sade, por nem sempre ter estudado em escola pública, faz coro com Gabriela. Marina Koury, de 17 anos, tentará uma vaga em letras, e acredita que todos os seus colegas de Pedro II que fizerem o Sade se classificarão. Opinião semelhante tem Camila Gornic, de 18 anos, que terá de buscar a aprovação em odontologia no vestibular tradicional.

- Ao fazer essa lei, o Garotinho reconheceu que escola pública está defasada. Por que ele não mexeu na base? A reserva só vai piorar o ensino superior - afirma Camila.

Mas há aqueles que defendem a lei. Vestibulando de engenharia civil e também do Pedro II, Osvaldo Aguiar Jr., de 17 anos, acha que alunos de escolas particulares poderiam levar vantagem sobre ele no vestibular, já que podem pagar cursinhos pré-vestibulares.

- O Pedro II tem um ensino diferenciado, mas prefiro que concorra só com escolas públicas - defende Osvaldo.

Já a sua colega de turma, Wanessa Gomes de Sá, de 18 anos, está entusiasmada com a reserva de vagas. Isso porque ela também será beneficiada por outra lei de cotas (3.708 de 9 de novembro de 2001), que destina 40% das vagas do vestibular estadual para negros e pardos.

- Me inscrevi no Sade pela vantagem que terei em relação aos estudantes dos colégios estaduais. Como me declarei negra ou parda, já estou quase na universidade - comemora Wanessa, que quer seguir a carreira de direito.

Fonte: O Globo


[O Globo]




 
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