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Terapia do movimento - parte I
Carla Bittencourt
A cena é comum - alguém quebra o braço, se queixa de dor na coluna ou tem qualquer problema no corpo que reduza ou impeça seus movimentos. De um jeito quase automático, você aconselha: "Vai precisar de fisioterapia". Mas, se lhe perguntassem como é o trabalho de um fisioterapeuta, saberia responder? A fisioterapia é uma área nova e tem se expandido, mas muita gente pensa que tem a ver apenas com a reabilitação. A coordenadora do curso na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública [primeiro em Salvador], Roseni dos Santos Ferreira, explica que a noção do fisioterapeuta como reabilitador ganhou força com as Grandes Guerras Mundiais, quando muitas pessoas mutiladas precisavam ser reinseridas na sociedade. Com o tempo, o profissional passou a atuar também no tratamento, prevenção de doenças e na promoção da saúde. Atualmente, todos os grandes centros de saúde [públicos e privados] têm um fisioterapeuta. Nas unidades de terapia intensiva [UTIs] a presença é obrigatória e garantida por lei. É possível trabalhar em clínicas, hospitais, academias, clubes desportivos, centros comunitários e escolas, em áreas mais conhecidas como ortopedia, e outras que ainda estão buscando espaço em Salvador, como fisioterapia de saúde da mulher e ecoterapia [tratamento baseado na biomecânica de cavalos]. Para entender como acontece na prática, Roseni dá uma pista: "Usamos o movimento como principal recurso terapêutico. Este é nosso carro-chefe". Técnicas não faltam: calor, gelo, reeducação postural [RPG] e hidroterapia são alguns exemplos. Na faculdade - Outras áreas que tendem a crescer são a docência, pesquisa e extensão. Desde que foi regulamentada no Brasil, em 1969, a fisioterapia tem se profissionalizado. Em Salvador, nos últimos sete anos, o número de instituições de ensino superior pulou de dois para 13. Além da Bahiana, o curso na Universidade Católica de Salvador [Ucsal] também é referência. Até este ano, só havia o estudo em faculdades particulares. Com a abertura do curso na Universidade do Estado da Bahia [Uneb] no vestibular 2005, a demanda virou concorrência séria. Foram 123,5 candidatos por vaga. As diretrizes do novo curso estão sendo definidas e, como a greve atrasou o calendário, as aulas devem começar em 2006. Eliana Sales, coordenadora de estágio no curso da Ucsal, diz que o aluno recebe uma visão geral na faculdade e, depois, escolhe suas áreas de especialização. São cinco anos estudando de assuntos básicos em saúde a técnicas específicas. Nos dois últimos anos, fazem estágios supervisionados e escrevem um artigo científico na conclusão. Para se destacar no mercado de trabalho é preciso investir numa boa formação. Eliana: "Com a proliferação de cursos, os alunos devem priorizar o estudo e se atualizar. Quem vai para o mercado apenas com a graduação, tem dificuldade". Roseni, coordenadora da Bahiana, concorda e diz que da mesma forma que é fundamental os profissionais se especializem, eles não devem ficar restritos. "Não adianta saber muito sobre determinada parte do corpo e não conhecer o conjunto que forma o paciente". Perspectiva comunitária Poucos colegas acreditavam na técnica de estudo de Tiago Coutinho, 17, que não copiava o que os professores falavam. Ele tinha que mostrar o caderno quase em branco para convencer. Quando foi aprovado em quatro vestibulares como treineiro, os colegas viram que o lance era sério. Tiago: "Descobri minha forma de aprender. Só fico na sala enquanto estou rendendo". E é assim que fala descontraído no intervalo das aulas no 1º semestre de fisioterapia, na Ucsal. O clima é de novidade, mas também de expectativa. Tiago fez sua escolha há dois anos, depois de alguns testes vocacionais. A idéia de um trabalho sutil e cuja relação com o paciente fosse mais próxima foi decisiva. Como tinha tempo antes do vestibular e estava curioso, pesquisou muito e, agora, diante de um universo inteiro a desbravar, se mostra tranqüilo: "Quero ajudar as pessoas a se reintegrarem na sociedade e lutar para que o fisioterapeuta esteja cada vez mais inserido como agente transformador das comunidades". Fisioterapeuta não é massagista Uma das coisas que mais aborrece a estudante Luiza Assis, 22, quando diz a alguém que faz fisioterapia, é ter que escutar o pedido quase automático e meio cara-de-pau: "Ô, então você poderia dar uma massagem nas minhas costas?" A aluna do 9º semestre do curso na Escola Bahiana conta que ouve essa queixa várias vezes e acha que a atitude é pura falta de informação: "Faço questão de mostrar que fisioterapeuta não é massagista. É claro que a gente aprende muitas técnicas, só que nosso trabalho está além". Isso, a própria Luiza foi descobrindo com o tempo. As disciplinas teóricas somadas aos estágios supervisionados que faz desde o semestre passado construíram a noção de um profissional que atua na reabilitação, mas também no tratamento e prevenção de doenças. Foi no 3º ano que bateu a vontade de estudar fisioterapia. Na época do vestibular, também escolheu dança, na Ufba. Passou nas duas. Quando a carga de estudo aumentou, decidiu ficar na área de saúde dentro da faculdade e seguir com as aulas de jazz em uma academia, onde se tornou professora. No final do curso, pensa em unir as duas áreas. Quem sabe, repetir a experiência que teve no Hospital Aristides Maltez, onde deu aula de jazz a pacientes mastectomizadas - mulheres que, por conta do câncer, fizeram cirurgia de retirada do seio. "Foi ótimo, coloquei música, ensinei passos básicos e elas adoraram". Com a atenção dividida entre o estágio e o artigo científico, Luiza se mostra decidida quanto a sua escolha. "É tão bom poder ajudar alguém a ter uma vida melhor. Quero ser uma profissional que percebe os pacientes como pessoas, além de suas doenças, e sei que a faculdade me deu um caminho para isso. O resto é correr atrás". Estágio e mercado Para quem está na faculdade, a dica é aproveitar o curso de forma integral. Tanto os primeiros semestres, quando é passada boa parte do conhecimento teórico, quanto os estágios supervisionados. A Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e a Ucsal têm clínicas onde os alunos experimentam o cotidiano de trabalho sob a orientação de profissionais. Nos dois casos, os estagiários disponibilizam atendimento gratuito, além de desenvolver trabalhos em comunidades de Salvador. As coordenadoras Roseni e Eliana destacam a necessidade de expansão da fisioterapia na saúde comunitária e lembram que cidades no interior do Estado estão carentes de assistência de um fisioterapeuta. A vontade de vestir o jaleco e exercer a profissão pode fazer com que estudantes procurem estágios extracurriculares. Fuja desse caminho: é proibido pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, exceto em casos de parceria entre o centro de saúde e as faculdades. Roseni: "Ao invés de formar, a prática sem supervisão deforma o aluno. Muitas vezes são serviços mecânicos sem o cuidado necessário. Estágio é treinar aquilo que se aprende na faculdade. Sem isso, o estudante vira um charlatão". Fonte: A Tarde [A Tarde ] |
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