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11/08/2005


Cultura negra ainda fora da escola


J. Péricles Diniz

Primeira capital do Brasil a adotar oficialmente o ensino da cultura negra, Salvador ainda ostenta uma realidade onde falta respeito e valorização à etnia que corresponde à maioria de sua população pobre. ?O problema começa nas escolas, onde os próprios professores ? quase todos negros ? mantêm e reproduzem o preconceito de que o negro significa submissão e coisa ruim?.

A avaliação é da educadora Simone Magalhães, presidente da Associação Beneficente Cultural e Religiosa Oiá Deji, que tem uma experiência de mais de 20 anos junto aos movimentos negros da Bahia. Para ela, os temas ligados à cultura africana ainda não são tratados adequadamente em sala de aula e há muito o que fazer.

Em reforço à opinião da educadora, cabe a constatação de que durante o Fórum Estadual de Educação e Diversidade Étnico-Racial, aberto às 9 horas de ontem, havia aproximadamente 500 diretores ou professores de escolas públicas dos mais variados municípios baianos, mas apenas três secretários municipais da pasta.

O evento, promovido pelo Ministério da Educação e governo estadual, não é exatamente para a capacitação dos docentes, mas para discutir a plena inserção da Lei 10.639, que determina o ensino de história da África e cultura afro-brasileira nas escolas públicas.

PESQUISA ? A secretária municipal da Educação, Olívia Santana, lembrou que, ?historicamente, neste País, a cultura negra não conseguiu adentrar os muros da escola?. Ela anunciou parceria entre o poder municipal e a Fundação Visconde de Cayru e APLB/Sindicato para a criação de cursos de pós-graduação de professores da rede municipal. Projeto semelhante ao que está sendo encaminhado pela Universidade Federal da Bahia, através do Centro de Estudos Afro Orientais (Ceafro).

Outras medidas destinadas a reverter esta situação é o incentivo à produção e aquisição de material didático específico para ser utilizado por professores e alunos da rede pública. Não há muita documentação histórica sobre a forte influência cultural e sociopolítica dos afrodescendentes sobre a Bahia. Porém muitas pesquisas neste sentido têm surgido nos últimos anos, a exemplo dos cadernos de texto com os artigos do professor Ubiratan Castro (presidente da Fundação Palmares) e de Mary Garcia Castro (da Unesco), que abordam questões de raça e gênero.

Ato cívico ? Diversas outras atividades estão sendo realizadas nas escolas de Salvador, abordando justamente a questão da valorização da cultura afro no ambiente escolar, incorporadas às comemorações pela Semana do Estudante. Hoje, várias escolas realizam apresentações de música, teatro e cinema, gincanas, mostras de talentos, torneios de futebol, exposições, oficinas e palestras.

Amanhã, a Praça da Piedade vai sediar um ato cívico para lembrar a Revolta dos Alfaiates e homenagear seus líderes, decapitados no local em 10 de novembro de 1799. A programação também prevê a apresentação de fanfarras, grupos musicais, um coral de história do Brasil cantada e show especial com a banda mirim do Ara Ketu.

[A Tarde ]




 
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