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18/10/2005


As aparências enganam


Erika Klingl

A Faculdade de Tecnologia Paulo Freire, que funciona no início do Lago Norte, em Brasília, não dá aula de pedagogia nem utiliza o método do educador para ensinar seus alunos de tecnologia de redes. As Faculdades Integradas Machado de Assis, em Santa Rosa (RS), sofrem do mesmo desvio de personalidade. Lá, não existe curso de letras, literatura ou pedagogia. Na verdade, a maioria das vagas é oferecida para universitários interessados no diploma de administração, comércio internacional e ciências contábeis.

Assim como essas duas instituições privadas de ensino superior, quase metade das 2.078 faculdades, universidades ou centros universitários registrados no Ministério da Educação (MEC) tem nomes de pessoas, cidades e até de personagens de livros. E as instituições nem sempre se importam muito com a coerência entre o nome do lugar e o que é ensinado em sala de aula. A Faculdade Tancredo Neves, na capital de São Paulo, por exemplo, não dá aulas de ciência política ou sociologia. O forte lá é o curso de administração e análise de sistemas.

Algumas delas dão um jeitinho. A Faculdade Isaac Newton, de Salvador (BA), dá aula de administração e comunicação e não tem planos de expandir as turmas para a área de ciências. Mas a instituição tem uma justificativa para o nome: ela garante que transforma conhecimento em inovação, assim como fez Newton quando escreveu as três leis da física.

Vera Lúcia Moreira, responsável pelo cadastro da Faculdade de Tecnologia Paulo Freire, que abriu a primeira turma em agosto deste ano, também se justifica. De acordo com ela, o nome do educador foi escolhido na rotina da instituição por causa da concepção político-filosófica que aproxima a faculdade das teorias de Freire, sobretudo na concepção da cidadania aliada à educação e à formação de um povo. A proposta político-pedagógica da FATEP/DF está em realçar a política educacional para os oprimidos, para a inclusão, para a formação de uma comunidade que tem na profissão um novo modo de tornar-se autônomo, afirma.

Às vezes, não há motivos tão profundos e filosóficos, e a escolha passa pela sigla formada pelas primeiras letras do nome da instituição. Existem, por exemplo, 22 instituições com os mais variados nomes, mas que receberam como apelido a tão sonhada Fama. A sigla é usada para denominar a Atena Maranhense, de São Luís (MA), a Aldete Maria Alves, de Iturama (MG), e a Faculdade de Administração e Marketing, de Brasília (DF).

Nem todas instituições de ensino superior são assim. Conhecida dos brasilienses há 25 anos, a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes foi aberta pela própria atriz, que passou em Brasília os últimos anos de sua vida. Lá, todas as turmas estudam artes de verdade, passando por música, artes plásticas e, claro, teatro.

Líderes e santos Das mais de duas mil faculdades e universidades registradas no Cadastro de Instituições de Ensino Superior, 397 têm nomes de personalidades, como o tirado do livro mais lido entre as misses na década de 1960. Aquele, cujo personagem principal era eternamente responsável pelo que cativava. O Instituto de Ensino Superior Pequeno Príncipe, de Curitiba (PR), oferece curso de enfermagem desde o primeiro semestre do ano passado. O nome foi herdado do hospital de mesmo nome que funciona ligado à faculdade, explica Veridiana Carneiro, coordenadora de comunicação da entidade. Como o aprendizado está vinculado ao hospital, as alunas não se incomodam, garante.

O nome do Pequeno Príncipe é exclusivo, mas isso está longe de ser uma regra. Albert Einstein, por exemplo, aparece seis vezes. O cientista judeu que criou a teoria de relatividade está presente no Distrito Federal, em São Paulo e até em Cruz das Almas, na Bahia. Apesar da meia dúzia de homenagens, Einstein não está no topo do ranking dos nomes mais escolhidos.

A campeã de escolhas é Nossa Senhora. A mãe de Cristo foi lembrada em nada menos que 12 casos, cada um deles com uma identificação diferente. Logo atrás dela está dom Bosco, escolhido por 10 instituições. Os dois primeiros lugares dão mostra de uma tendência dos donos de instituição. Os nomes religiosos são mais comuns do que os dos reles mortais em uma lista com políticos, juristas, escritores e educadores.

As famílias de Albert Einstein, do ex-presidente norte-americano Kennedy e de Machado de Assis não recebem um centavo pela exposição dos três em letreiros de instituições privadas de ensino superior. Os nomes das personalidades brasileiras ou estrangeiras escolhidas pelos donos de faculdades já caíram em domínio público, segundo explica o advogado da Associação Nacional de Universidades Privadas, Marcos Zacarini. Elas são tratadas, portanto, apenas como uma homenagem.

Também não existe uma regra que limite a criatividade. De acordo com Zacarini, a única exigência do Ministério da Educação (MEC) é que a instituição não tenha em seu nome algo que prejudique ou engane o aluno. Na prática, isso quer dizer que uma faculdade não pode se chamar universidade, ou o estudante pode pagar por uma coisa e estar recebendo outra. Afinal, as universidades são consideradas a elite do ensino superior e para receber o título têm que possuir mais professores titulados, com dedicação exclusiva e com um número mínimo de cursos.

As regras de nome existem apenas para as mantenedoras das instituições, ou seja, as empresas que administram e pagam as contas da faculdade ou centro universitário. As mantenedoras estão submetidas às regras de qualquer empresa, inclusive na escolha dos nomes.

As literárias Sobrou até para o Pequeno Príncipe, na lista de 20 instituições que optaram por temas literários na hora de escolher o nome. No topo do ranking está Machado de Assis, que aparece quatro vezes. 1. Faculdade de Ciências Contábeis Machado de Assis, Rio de Janeiro (RJ), Faculdade de Tecnologia Machado de Assis, Curitiba(PR), Faculdades Integradas Machado de Assis, Santa Rosa (RS), Faculdade Machado de Assis, Rio de Janeiro (RJ) e Universidade Braz Cubas, Mogi das Cruzes (SP) 2. Faculdade Camões, Curitiba (PR) e Faculdade de Tecnologia Camões, Curitiba (PR) 3. Faculdade Carlos Drummond de Andrade, São Paulo (SP) e Faculdade de Tecnologia Carlos Drummond de Andrade, São Paulo (SP) 4. Faculdade Mário de Andrade, São Paulo (SP) e Faculdade de Tecnologia Mário de Andrade, São Paulo (SP) 5. Instituto de Ensino Superior Pequeno Príncipe, Curitiba (PR)

Os pensadores Albert Einstein é disparado o cientista mais lembrado pelos donos de faculdades na hora de batizar suas instituições. Ele aparece seis vezes, seguido por Oswaldo Cruz e Isaac Newton, nas mais de 30 instituições com nomes de pensadores. 1. Faculdade Albert Einstein, Brasília (DF), Instituto Superior de Educação Albert Einstein, Brasília (DF), Faculdade de Ciência e Tecnologia Albert Einstein, Cruz das Almas (BA), Faculdade Albert Einstein de São Paulo, São Paulo (SP), Faculdade de Enfermagem do Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo (SP) e Faculdade de Tecnologia Albert Einstein, São Paulo (SP) 2. Faculdade de Tecnologia Oswaldo Cruz, São Paulo (SP) e Faculdades Oswaldo Cruz , São Paulo 3. Faculdade Leonardo da Vinci, São Paulo (SP) e Faculdade Leonardo da Vinci, Porto Alegre (RS) 4. Faculdade Isaac Newton, Salvador (BA) 5. Faculdade de Tecnologia Equipe Darwin, Brasília (DF)

Os políticos Seguindo a tradição brasileira de homenagear políticos em praças e ruas, cerca de 40 instituições optaram por nomes de peso. Ruy Barbosa foi o mais bem colocado, mas sobrou até para o presidente norte-americano Kennedy. 1. Faculdade Ruy Barbosa de Administração e de Direito, Salvador (BA), Faculdade Ruy Barbosa, Salvador (BA), Faculdade Luterana Rui Barbosa, Marechal Cândido Rondon (PR)e Faculdades Integradas Rui Barbosa, Andradina(SP) 2. Faculdade Cenecista Presidente Kennedy , Largo (PR), Escola de Engenharia Kennedy, em Belo Horizonte (MG) e Faculdade Kennedy, João Montevade (MG) 3. Faculdade de Administração JK, Brasília (DF) e Faculdade Juscelino Kubstschek, Brasília (DF) 4. Faculdade Tancredo Neves, São Paulo, (SP) e Instituto de Ensino Superior Presidente Tancredo de Almeida Neves, São João Del Rei, (MG) 5. Universidade Camilo Castelo Branco, São Paulo (SP) e Faculdades Integradas Castelo Branco, Colatina (ES)

Nossas senhoras A mãe de Cristo foi lembrada em nada menos de 12 casos. 1. Faculdade Nossa Senhora Aparecida, Aparecida de Goiânia (GO) e Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Nossa Senhora Aparecida, Sertãozinho (SP) 2. Instituto Superior de Educação Nossa Senhora de Sion, Curitiba (PR) e Instituto Superior de Educação Nossa Senhora de Sion, Campanha (MG) 3. Faculdade Católica Nossa Senhora das Neves, Natal (RN) 4. Instituto Superior de Educação Nossa Senhora de Lourdes, Porto Seguro (BA) 5. Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio, Itu (SP)

As intelectualizadas Numa lista de centenas de instituições com nomes dos próprios donos antecedidos da palavra professor para dar um ar de seriedade à instituição, oito escolheram educadores importantes. O mais lembrado foi Cândido Mendes, seguido por Anísio Teixeira. 1. Faculdade Cândido Mendes do Maranhão, São Luis (MA), Faculdade Cândido Mendes de Vitória, Vitória (ES) e Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro (RJ) 2. Faculdade Anísio Teixeira de Feira de Santana, em Feira de Santana (BA) e Escola Superior de Ensino Anísio Teixeira, Serra (ES) 3. Faculdade de Tecnologia Darcy Ribeiro, Fortaleza (CE) 4. Faculdade Câmara Cascudo, Natal (RN) 5. Faculdade de Tecnologia Paulo Freire, Brasília (DF)

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