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Quinta-feira :: 29 / 07 / 2010

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29 de julio de 2010
BEABÁ

Fomos perguntar para quem entende... e leia a resposta que ouvimos:
Sim, as pequenas que inovam têm chance no mercado alemão!

Thiago Guimarães

A Alemanha é um dos mais importantes destinos para os produtos brasileiros. Ao longo da década de 1990, o país foi o terceiro maior receptor das exportações brasileiras, abaixo dos Estados Unidos e da Argentina. Com a crise econômica argentina, em 2002 a Alemanha chegou a ser nosso segundo mais importante parceiro comercial. Mas esta posição durou pouco tempo: em outubro deste ano, a corrente de comércio com a China atingiu US$ 7,7 bilhões, superando as transações com a Alemanha que acumulavam US$ 7,5 bilhões, de acordo com os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Entre 1995 e 2004, as exportações brasileiras para a Alemanha cresceram a um ritmo mais baixo do que a média para outros países do mundo. Enquanto o País se aproxima de novos mercados consumidores, como os países do Leste Europeu, e as exportações para a China, por exemplo, dobraram de 2002 a 2004, o valor das vendas para a Alemanha não chegou a duplicar nos últimos dez anos. Mas neste ano, a Alemanha estima que as importações cresçam 6% e mais 5,4% em 2006.

O minério de ferro da Companhia Vale do Rio Doce, a soja das regiões Sul e Centro-Oeste, café, carnes, fumo e instrumentos mecânicos perfaziam cerca de US$ 1,7 bilhão em 2002. Ou seja, commodities respondem por cerca de 70% do valor das exportações brasileiras para a Alemanha. Trata-se de uma pauta de exportações bastante concentrada em poucos produtos de setores altamente organizados que conseguem operar estruturas de marketing e colocar seus produtos no seletivo mercado alemão. Apesar disso, nos últimos dois anos, crescem importações alemãs de máquinas, veículos e autopeças do Brasil.

Mas os produtos das pequenas que inovam têm chance no mercado alemão?

Produtos alimentícios, têxteis, cosméticos e bens culturais são alguns produtos que têm bom potencial de exportação para a Alemanha, segundo o consultor de comércio exterior Jürgen Schlichting, gerente da European Business Consultancy. É possível colocar no mercado alemão produtos com alto valor agregado produzidos no Brasil? ''Definitivamente sim'', responde o consultor. ''Desde que a empresa adote uma estratégia de médio a longo prazo, considerando a conquista do mercado como investimento no futuro da empresa.''

Firmas sem experiência em exportação conseguem vender na Alemanha se fizerem uma avaliação dos competidores, do mercado consumidor e dos canais de distribuição. Em uma análise que fez para a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, o consultor diz que ''o enfoque dado à estatística setorial, sempre voltada para o passado, deverá ser substituído por um enfoque do potencial de cada empresa com os seus produtos específicos, independendo do respectivo setor''.

O planejamento das exportações ajuda a calcular o tempo para os produtos entrarem no mercado alemão. ''Não existe o caminho mais rápido para exportar, mas apenas o caminho sistemático, passo a passo'', diz Schlichting. Como os alemães têm hábitos de consumo bastante conservadores se comparados, por exemplo, aos latino-americanos, leva tempo até que novidades sejam aceitas e façam parte do dia-a-dia da população. Os europeus, e particularmente os alemães, são bastante preocupados com a qualidade dos produtos. Por isso, novos produtos são recebidos com ceticismo; conquistar a clientela para uma novidade pode levar de um a dois anos. O ideal, segundo o consultor, é elaborar uma estratégia que enfatize a qualidade e o preço dos produtos em relação a seus concorrentes, além de escolher um bom sistema de distribuição.

Documentação

Nos casos de exportação direta - quando a comercialização é feita sem um intermediário, como as tradings - o exportador deve providenciar os documentos necessários. Se o valor das exportações ultrapassa mil euros ou se seu peso passa de uma tonelada, é preciso preparar por escrito uma Declaração Alfandegária de Importação. A declaração tem por base o Einheitspapier, que pode ser obtido na Câmara de Comércio e Indústria Alemã, na Alemanha. O preenchimento correto deste documento é importante pois impostos e barreiras não-tarifárias serão aplicadas com base nele.

Outro documento necessário aos produtos que recolhem impostos alfandegários é a Declaração de Valor de Importação (em alemão, Zollwertanmeldung), que informa o valor do produto comercializado às autoridades alfandegárias. É um documento que pode ser dispensado para valores inferiores a 10 mil euros.

Alimentos têm tratamento diferenciado. Para entrar no mercado alemão, precisam de uma Autorização de Importação (Einfuhrgenehmigung) concedida pelo Departamento Federal de Agricultura e Alimentação (Bundesanstalt für Landwirtschaft und Ernährung, ou simplesmente BLE). Alguns produtos alimentícios também podem precisar de uma Licença de Importação (Einfuhrlizenz). A Câmara de Comércio pode dar orientação, nestes casos.

Certificação

Antes de fechar contratos de venda, é preciso verificar se os produtos atendem as normas técnicas exigidas pela Alemanha. Em geral, é necessário obter uma série de selos e certificados, sem os quais não é possível comercializar no território europeu. Seguindo instruções acordadas em toda a Europa, os alemães tentam definir objetivamente os parâmetros que definem se um produto é seguro ou não ao consumidor, e se são ambientalmente sustentáveis. A maioria dos produtos industrializados deve obter a marcação CE (Conformité Européenne) junto a um organismo credenciado pela Associação Alemã de Controle Técnico (TÜV). O selo da CE é aceito em todo Mercado Comum Europeu.

Outro selo é o Öko-Test, pelo qual é avaliada a sustentabilidade ecológica do produto e de sua embalagem. Já o Grüner Punkt é uma certificação alemã que tem sido adotada pelos outros países e tem de ser observado por quem vai exportar para a Alemanha. O exportador de um suco em caixinha, por exemplo, tem que ter certeza de que a embalagem é reciclável. Pela lei, a indústria e o comércio são obrigados a recolher os materiais que podem ser reaproveitáveis. O importador alemão pode ajudar o exportador a se relacionar com as entidades certificadoras, mas os custos devem ser arcados pelo exportador.

Feiras e oportunidades

Dois projetos desenvolvidos pela Câmara Brasil-Alemanha podem interessar aos empresários brasileiros. Um é o Destino Exportador Alemanha, criado em 2000, e voltado a difundir informações sobre como exportar para por diversos meios como exportar para a Alemanha. Um livro foi impresso em 2000, depois foram produzidos vídeos e, desde o final de 2002, a câmara realiza seminários já assistidos por mais de 1.800 pessoas. Outro projeto, que se chama Treinamento de Participação em Feiras, visa a capacitar empresas para participar de feiras internacionais. Normalmente o curso é oferecido em parceria com associações de classe, sindicatos e outras organizações civis.

Publicação

A Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha publicou em novembro de 2004 o Guia de Exportação para a Alemanha - "Gateway to Europe" 2005. É uma edição atualizada da primeira versão de 2000. Organizado por Lars Grabenschröer e Débora Creutzberg, o livro traça um perfil da Alemanha e traz informações sobre a economia e as leis do país, depois da ampliação da União Européia. Os dados mais recentes sobre o comércio exterior são de 2003 e há algumas projeções de mercado para 2004 e 2005. O Guia é uma boa referência para o empresário começar a entender como funciona o mercado alemão, sem a necessidade de se dominar o idioma. O livro custa R$ 180 para não-associados à Câmara e, em São Paulo, pode ser solicitado pelo e-mail economico@ahkbrasil.com ou pelo telefone (11) 5187-5137.

A Alemanha e a União Européia

A Alemanha faz parte do Mercado Comum Europeu. Isso significa que sua política aduaneira e comercial é a mesma que a dos outros 24 membros do bloco de 450 milhões de pessoas. Esses países decidem em conjunto os tributos e as regras para os produtos importados de qualquer nação que não pertence à União Européia. Os códigos TARIC dão a base para as tarifas de importação na Alemanha. No site da União Européia está disponível a tabela de tarifas de importação praticadas pela Europa para cada produto de acordo com sua catalogação internacional. Lá é possível verificar se seu produto se beneficia de algum acordo de preferência. Outro site mantido pela União Européia é o Expanding Exports Helpdesk, um completo sistema de consulta em inglês sobre tarifas, regulamentos e volume de comércio.

Mas conseguir acesso ao mercado de algum país integrante da União Européia não significa necessariamente que seu produto possa ser vendido na Alemanha, por exemplo. O segundo país que mais participa do comércio internacional é também um dos mercados mais exigentes da Europa, diz Débora Creutzberg, diretora de treinamento e comércio exterior da Câmara Brasil-Alemanha de Porto Alegre. ''Os importadores e os consumidores são mais seletivos porque a oferta de produtos importados é muito grande. Ganha relevância o aspecto cultural de chegar junto ao comprador e convencê-lo a comprar. E isso não tem a ver com lei'', diz Débora.

A Comissão da União Européia é o órgão que decide sobre as alíquotas do principal imposto de importação, o ''Euro Alfandegário''. As alíquotas do imposto de importação atualmente variam entre 0 e 17% sobre o valor de venda de todos os produtos. Um grande problema é exportar produtos agrícolas - os impostos protegem a agricultura européia dos competitivos preços do mercado internacional. Além disso, produtos alimentícios precisam de documentos adicionais para ingressar no mercado alemão, como a Autorização de Importação (Einfuhrgenehmigung), a Licença de Importação e a Declaração de Controle de Importação. Ainda conforme Débora, o governo alemão não dá tratamento diferenciado para nenhum produto exportado pelo Brasil.

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