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Sábado :: 31 / 07 / 2010

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31 de julio de 2010
PALAVRA DE ESPECIALISTA



Dono de empresa de contabilidade afirma: o governo faria
bem se começasse a confiar mais na palavra do empresário

''A simplicidade é a sofisticação do bom gosto.'' Se pudesse, o contador Hogim Athié Gebara levaria este lema para o governo, a fim de desburocratizar a vida das empresas no Brasil. Especialmente das pequenas, suas clientes na HG Contacom Contabilidade Ltda. A Contacom pretendia ser ''uma espécie de fast-food da contabilidade'', utilizando a Internet para agilizar a comunicação com os clientes e transformando a contabilidade em uma efetiva ferramenta de gestão dos pequenos negócios. Mas a empresa ainda não oferece serviços tão prontamente como Gebara esperava. ''Infelizmente a burocracia e o governo impedem. Alguns municípios ainda requerem que o empresário preencha documentos à máquina de escrever, com papel carbono'', justifica. A entrevista foi concedida em 10 de janeiro de 2005 a Thiago Guimarães.

O governo brasileiro atrapalha a vida do empresário?
Bastante. Constantemente há mudanças na base de tributação. Ora mudam a base de cálculo, ora mudam o prazo ou a forma de recolhimento. O Chile e outros países têm um sistema tributário bem mais simplificado e eficiente. Por outro lado, existe a própria burocracia que o Estado cria. Por exemplo, para abrir uma empresa, você tem que comunicar os três entes tributantes. É de uma complexidade que chega a levar sessenta dias.

Qual a burocracia para abrir uma empresa?
Nos Estados Unidos, você abre uma empresa pelo correio - basta preencher os formulários e enviá-los. No Brasil, o empresário tem que ir à junta comercial. São duas vezes para pesquisar o nome, a terceira para dar entrada no contrato social, a quarta para buscá-lo. Mas houve um avanço: hoje você já consegue ver pela Internet a fila que vai enfrentar na junta. E existem também alguns organismos criados em torno da junta que agilizam o processo mediante o pagamento de uma taxa. É gratificante saber que é possível agilizar, mas é inconcebível que isso não possa acontecer naturalmente. Se, em vez da junta, a empresa for aberta via cartório, continua o marasmo de antigamente: pilhas e pilhas de documentos. Os cartórios não cumprem os prazos de forma nenhuma.

O passo seguinte é a Receita Federal.
Exato. De todos os organismos do governo, a Receita Federal está automatizada em um nível realmente exemplar. Você obtém e preenche as informações pela Internet, mas em um determinado momento é obrigado a juntar a documentação da junta ou do cartório com cópias autenticadas de documentos, e encaminhá-la via Sedex a um posto da Receita. Aí começa a burocracia.

A Receita informa que normalmente o prazo de cadastro é de dez dias.
Algum dia esse prazo realmente existiu. Mas hoje não existe. E isso porque a Receita é o órgão mais otimizado. Há um detalhe: na inscrição do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, a Receita contempla como data da abertura não a data da inscrição do CNPJ, mas a data do registro do contrato social na junta. Quando a defasagem é superior a um mês, você passa a ter exigências fiscais anteriores à data em que você tirou o CNPJ. A própria legislação tributária força você a tomar atitudes que vão contra os conceitos contábeis.

Preencher mensalmente o Documento de Arrecadação da Receita Federal é uma dor de cabeça para as empresas?
Sim, porque requer o dispêndio de um tempo qualificado para prestar uma informação que não traz nenhum retorno, só custo. Pode trazer uma multa gorda se o DARF não for preenchido corretamente e no prazo correto. E infelizmente não é qualquer leigo que consegue preenchê-lo.

E tirar uma Certidão Negativa de Débito?
São tantas as exigências e é tão frágil o processamento que, às vezes, a Receita erra e o empresário não obtém a CND. O que inviabiliza o negócio naquele momento e pode até trazer prejuízo, sendo que o problema não é seu.

E o senhor acha que isso poderia ser mais simplificado?
O governo poderia confiar muito mais na palavra do brasileiro. Para fins de comprovação, os órgãos de fiscalização não têm informação de nada, o empresário é obrigado a levar tudo. Quando se encerra uma empresa, por exemplo, o empresário é obrigado a comparecer aos órgãos para os quais vai comunicar seu cancelamento e comprovar os últimos cinco anos. Eles não poderiam olhar em seu controle e verificar se o empresário deve alguma coisa?

O Instituto Nacional do Seguro Social oferece o Baixa Empresa Web, serviço pelo qual seria possível fazer tudo pela Internet.
O INSS também está bem adiantado. Estando tudo regularizado, você automaticamente providencia a baixa da inscrição junto à Previdência. Mas as irregularidades são muito comuns devido à complexidade do sistema e à dificuldade em processar informações em tempo hábil. Pouca coisa pode ser resolvida pela Internet. Aí você é obrigado a comparecer, e o processo lento e doloroso vigora.

Estão em discussão propostas para desburocratizar a abertura e o fechamento de empresas.
Empresas muito pequenas estão facilitadas para abrir. Mas o governo mantém uma tributação tão agressiva que desestimula a pessoa a manter uma empresa. O Estado dá de um lado e tira de outro. Se você tirar uma nota hoje e não recebê-la, por inadimplência por exemplo, os impostos são recolhidos. Em qualquer país civilizado, a tributação se dá na liquidação financeira.

Alguma sugestão?
É só olhar os outros países e trazer para cá a forma que acharmos mais interessante e menos agressiva. Particularmente, pediria ao governo encontrar uma forma de não descapitalizar o empresariado e minimizar a carga trabalhista, possibilitando o crescimento das empresas.

O senhor não está dizendo tudo isso só para valorizar seu trabalho?
Estou dizendo porque realmente poderia ser muito mais fácil. Sei que fica ruim para eu falar disso, porque, quanto mais complexo, melhor para mim. Mas veja as prefeituras, por exemplo, que são as campeãs da burocracia. Alguns municípios ainda requerem que o empresário preencha documentos à máquina de escrever, com papel carbono.

Por que uma empresa precisa de contador?
A contabilidade visa a escrituração dos fatos do dia-a-dia da empresa - os gastos, os recebimentos, as faturas, os impostos. Antigamente, o empresário tinha o contador para cumprir tabela, para recolher guias. Mas hoje, considerando o nível de tributação, o empresário precisa estar muito bem antenado com seus custos e usar a contabilidade como ferramenta gerencial. Na realidade, para isso que ela foi concebida.

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