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Sábado :: 31 / 07 / 2010

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31 de julio de 2010
PALAVRA DE ESPECIALISTA - Wilson Kindlein

"Design é atividade técnica. O designer conhece fabricação e materiais",
explica especialista. É por isso que produto com design concorre melhor!

Para Wilson Kindlein, o design é uma atividade técnica voltada para processos de fabricação, capaz de reduzir custos e gerar diferencial competitivo. Portanto, tem tudo a ver com inovação. Ele é doutor em engenharia e design industrial e Coordenador do Laboratório de Design e Seleção de Materiais da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Leia a entrevista que Wilson concedeu à jornalista Adriana Abelhão.

O que é design?
É uma atividade responsável pelas características estéticas e estruturais de um produto, que vai ser fabricado em série. O design já foi mal visto. Pessoas apresentavam-se como designers, sem conhecimento básico de processo de fabricação, materiais e estética, causando inúmeros problemas às empresas. Os empresários querem uma solução e não um rol de possibilidades, como um artista poderia apresentar. O design é uma atividade técnica.

Não é uma atividade artística?
O design tem um componente artístico, não se realiza sem ele, mas está voltado para processos de fabricação. Se o designer não sabe como um produto é feito, pode torná-lo impraticável. Ele precisa conhecer técnicas e processos de materiais, porque é ele quem vai colocar o produto mais próximo do usuário.

Mas o que um empresário tem que se perguntar para saber se o seu produto tem um bom design?
A primeira pergunta é: o meu produto atende às expectativas do usuário? Se atender, deve se perguntar: qual a posição do meu produto frente à concorrência? Isso vale até para um equipamento instalado dentro de outro, que não ficará visível. Alguém vai comprá-lo. Pode ser o responsável por compras de uma empresa ou mesmo o usuário final, na hora da reposição da peça. Eles vão manuseá-la e terão uma percepção, que vai influenciar a decisão de compra. A superfície de um produto pode parecer gelada, áspera ou grudenta. Existem também variáveis objetivas, como rugosidade, condutividade térmica e dureza. Associando essas variáveis, podemos passar uma percepção diferenciada para o usuário. Por que alguns produtos não vendem? Porque utilizam materiais de forma desorganizada e não estética. O trabalho do designer está ligado ao sentido humano, visão, paladar, tato ou olfato. Até ao barulho. Ao se abrir um bombom, o barulho do papel está associado à sensação agradável, ou desagradável, de comê-lo. A maneira como se abre um telefone celular ou a porta de um armário, pode aproximar ou afastar um possível comprador.

Por que o design é importante para uma empresa de base tecnológica?
O design é funcional, estrutural e estético. Qualquer empresa de base tecnológica hoje, se não tiver essas três variáveis mínimas, tem uma possibilidade muito grande de sair do mercado. A concorrência está tão ferrenha que um dos fatores diferenciais é o design. A parte tecnológica muitas vezes já está resolvida. Se não está resolvida aqui, importar é muito fácil. O design não. Um produto que tem uma boa aceitação aqui no Brasil, pode não ter na Argentina ou nos Estados Unidos. A percepção de cada grupo social é diferenciada.

Então, o trabalho de pesquisa de mercado também faz parte do desenvolvimento de design?
É fundamental. Se não se souber para onde está vendendo, não se faz design adequado. O designer tem que estar associado a um profissional de marketing. Precisa fazer pesquisa de mercado e ter noções de estatística. Para apresentar uma proposta ao empresário, o designer tem que incluir essa pesquisa e trazer um pré-projeto. Isso tem um custo.

É muito caro desenvolver um design de um produto?
Em termos gerais não, mas evidentemente que um bom projeto de design envolve pessoas, tempo, custos de deslocamento, de equipamentos e prototipagem. O empresário tem que estar preparado para arcar com esses custos, senão, vai receber um produto de má qualidade.

Parcerias com Universidades são uma boa opção para o empresário reduzir esses custos?
Depende muito do grupo de pesquisa. As nossas Universidades são muito díspares. A qualificação dos grupos é feita pelo pesquisador, que vai atrás dos órgãos de fomento, dos empresários, de projetos de mestrado e doutorado. O empresário terá que procurar por eles. Deve pesquisar o que já foi desenvolvido, olhar, garantir sigilo do grupo em relação ao seu produto e colocar máquinas à disposição, para ensaios. O próprio empresário precisa também pensar como designer. Não estamos aqui fazendo uma apologia da contratação do designer. Dentre as várias camisetas que o empresário tem que vestir, vista mais essa, e tenha uma visão crítica do seu produto.

É bom patentear o design de um produto?
Resguardar as informações do projeto e assinar um compromisso de sigilo entre o designer e a empresa é muito bom. Patentear é outra coisa. Nesse caso é importante a posição de um advogado especialista, para ver se vale a pena. Muitas vezes é melhor lançar o produto no mercado e já correr atrás da próxima inovação, para não dar tempo do concorrente copiar.

Um bom design pode reduzir custos?
A redução de custos é um fator primordial de um projeto de design. O designer tem que atender aos empresários e essa é uma de suas maiores expectativas. O ecodesign, por exemplo, procura reduzir quantidade de materiais, processos de fabricação, volume, componentes e elementos de ligação. Um produto é feito de conjuntos e subconjuntos, ligados por fixação, parafusos ou encaixes. A quantidade de elementos de ligação é muitas vezes proporcional ao custo e onde está uma grande parte dele. Um design adequado pode reduzi-lo.

O Brasil está ainda no princípio na discussão do design?
Não, estamos avançando. Falta acertar o diálogo entre empresários e grupos de design. Quem conhece melhor o produto é o empresário. Ele tem que passar informações para o designer, disponibilizar seu tempo ou de funcionários com poder de decisão, porque aquele vai ser um diferencial competitivo. Senão, o projeto não vai gerar os resultados esperados. Enquanto ele não tomar essa consciência, nem precisa procurar um designer. Vai perder tempo e dinheiro.

O empresário pode considerar o design um luxo?
Hoje o design não é mais luxo. Muitas empresas de base tecnológica vendem um único equipamento e ele é a vida da empresa. Esse equipamento tem que ser muito bem cuidado. Uma empresa que quer inovar tem que se preocupar com a cor do folder, com o cartão de visitas, com o equipamento, o crachá. O ser humano gosta do belo e isso vale também para uma empresa de base tecnológica.

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