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"Design é atividade técnica. O designer conhece
fabricação e materiais",
explica especialista. É por isso que produto com design concorre melhor!
Para Wilson Kindlein, o design
é uma atividade técnica voltada para processos de fabricação,
capaz de reduzir custos e gerar diferencial competitivo. Portanto,
tem tudo a ver com inovação. Ele é doutor em engenharia e design
industrial e Coordenador do Laboratório de Design e Seleção de
Materiais da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul - UFRGS. Leia a entrevista que Wilson concedeu à
jornalista Adriana
Abelhão.
O
que é design?
É uma atividade responsável pelas características estéticas e estruturais
de um produto, que vai ser fabricado em série. O design já
foi mal visto. Pessoas apresentavam-se como designers, sem
conhecimento básico de processo de fabricação, materiais e estética,
causando inúmeros problemas às empresas. Os empresários querem uma
solução e não um rol de possibilidades, como um artista poderia
apresentar. O design é uma atividade técnica.
Não é uma atividade artística?
O design tem um componente artístico, não se realiza sem
ele, mas está voltado para processos de fabricação. Se o designer
não sabe como um produto é feito, pode torná-lo impraticável. Ele
precisa conhecer técnicas e processos de materiais, porque é ele
quem vai colocar o produto mais próximo do usuário.
Mas o que um empresário
tem que se perguntar para saber se o seu produto tem um bom design?
A primeira pergunta é: o meu produto atende às expectativas do usuário?
Se atender, deve se perguntar: qual a posição do meu produto frente
à concorrência? Isso vale até para um equipamento instalado dentro
de outro, que não ficará visível. Alguém vai comprá-lo. Pode ser
o responsável por compras de uma empresa ou mesmo o usuário final,
na hora da reposição da peça. Eles vão manuseá-la e terão uma percepção,
que vai influenciar a decisão de compra. A superfície de um produto
pode parecer gelada, áspera ou grudenta. Existem também variáveis
objetivas, como rugosidade, condutividade térmica e dureza. Associando
essas variáveis, podemos passar uma percepção diferenciada para
o usuário. Por que alguns produtos não vendem? Porque utilizam materiais
de forma desorganizada e não estética. O trabalho do designer
está ligado ao sentido humano, visão, paladar, tato ou olfato. Até
ao barulho. Ao se abrir um bombom, o barulho do papel está associado
à sensação agradável, ou desagradável, de comê-lo. A maneira como
se abre um telefone celular ou a porta de um armário, pode aproximar
ou afastar um possível comprador.
Por que o design
é importante para uma empresa de base tecnológica?
O design é funcional, estrutural e estético. Qualquer empresa
de base tecnológica hoje, se não tiver essas três variáveis mínimas,
tem uma possibilidade muito grande de sair do mercado. A concorrência
está tão ferrenha que um dos fatores diferenciais é o design.
A parte tecnológica muitas vezes já está resolvida. Se não está
resolvida aqui, importar é muito fácil. O design não. Um
produto que tem uma boa aceitação aqui no Brasil, pode não ter na
Argentina ou nos Estados Unidos. A percepção de cada grupo social
é diferenciada.
Então, o trabalho de pesquisa
de mercado também faz parte do desenvolvimento de design?
É fundamental. Se não se souber para onde está vendendo, não se
faz design adequado. O designer tem que estar associado
a um profissional de marketing. Precisa fazer pesquisa de
mercado e ter noções de estatística. Para apresentar uma proposta
ao empresário, o designer tem que incluir essa pesquisa e
trazer um pré-projeto. Isso tem um custo.
É muito caro desenvolver
um design de um produto?
Em termos gerais não, mas evidentemente que um bom projeto de design
envolve pessoas, tempo, custos de deslocamento, de equipamentos
e prototipagem. O empresário tem que estar preparado para arcar
com esses custos, senão, vai receber um produto de má qualidade.
Parcerias com Universidades
são uma boa opção para o empresário reduzir esses custos?
Depende muito do grupo de pesquisa. As nossas Universidades são
muito díspares. A qualificação dos grupos é feita pelo pesquisador,
que vai atrás dos órgãos de fomento, dos empresários, de projetos
de mestrado e doutorado. O empresário terá que procurar por eles.
Deve pesquisar o que já foi desenvolvido, olhar, garantir sigilo
do grupo em relação ao seu produto e colocar máquinas à disposição,
para ensaios. O próprio empresário precisa também pensar como designer.
Não estamos aqui fazendo uma apologia da contratação do designer.
Dentre as várias camisetas que o empresário tem que vestir, vista
mais essa, e tenha uma visão crítica do seu produto.
É bom patentear o design
de um produto?
Resguardar as informações do projeto e assinar um compromisso de
sigilo entre o designer e a empresa é muito bom. Patentear
é outra coisa. Nesse caso é importante a posição de um advogado
especialista, para ver se vale a pena. Muitas vezes é melhor lançar
o produto no mercado e já correr atrás da próxima inovação, para
não dar tempo do concorrente copiar.
Um bom design pode
reduzir custos?
A redução de custos é um fator primordial de um projeto de design.
O designer tem que atender aos empresários e essa é uma de
suas maiores expectativas. O ecodesign, por exemplo, procura
reduzir quantidade de materiais, processos de fabricação, volume,
componentes e elementos de ligação. Um produto é feito de conjuntos
e subconjuntos, ligados por fixação, parafusos ou encaixes. A quantidade
de elementos de ligação é muitas vezes proporcional ao custo e onde
está uma grande parte dele. Um design adequado pode reduzi-lo.
O Brasil está ainda no
princípio na discussão do design?
Não, estamos avançando. Falta acertar o diálogo entre empresários
e grupos de design. Quem conhece melhor o produto é o empresário.
Ele tem que passar informações para o designer, disponibilizar
seu tempo ou de funcionários com poder de decisão, porque aquele
vai ser um diferencial competitivo. Senão, o projeto não vai gerar
os resultados esperados. Enquanto ele não tomar essa consciência,
nem precisa procurar um designer. Vai perder tempo e dinheiro.
O empresário pode considerar
o design um luxo?
Hoje o design não é mais luxo. Muitas empresas de base tecnológica
vendem um único equipamento e ele é a vida da empresa. Esse equipamento
tem que ser muito bem cuidado. Uma empresa que quer inovar tem que
se preocupar com a cor do folder, com o cartão de visitas,
com o equipamento, o crachá. O ser humano gosta do belo e isso vale
também para uma empresa de base tecnológica.
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