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"As empresas precisam aprender a compartilhar.
No mercado doméstico,
podem brigar à vontade. Mas, para exportar, elas precisam se
aliar!"
Com a experiência de
quem conhece os meandros do processo de exportações no Brasil,
a ex-ministra da Indústria e Comércio do governo FHC, Dorothea
Werneck, afirmou ao Inove! que a pequena empresa pode sim exportar
e deve unir-se a seus pares para isso. "Continue brigando para
o mercado doméstico e estabeleça aliança na exportação", diz a
ministra. Werneck foi também Secretária Executiva do Ministério
da Fazenda em 1992 e atualmente é vice-presidente da Associação
de Comércio Exterior do Brasil (AEB).A ex-ministra também ocupou
a gerência especial da Agência de Promoção de Exportações (APEX)
e uma cadeira no conselho da Fundação do Comércio Exterior (Funcex).
Atualmente, mais próxima das necessidades de financiamento dos
exportadores, coordena o Programa Exportar do Banco Santander
Banespa, voltado para empresas que exportam há poucos anos. Para
saber que passos sua empresa precisa dar para alcançar o consumidor
externo e crescer, leia a entrevista concedida por Dorothea a
Adriana Abelhão.
É
fácil para a pequena empresa que inova exportar, no Brasil?
O primeiro grande desafio é tomar a decisão, querer exportar, colocar
isso dentro da visão estratégica da empresa. Quando se pensa de
uma forma muito simplificada, vender de São Paulo para o Ceará é
mais longe do que vender para Santiago do Chile. A única diferença
é que você tem que falar espanhol, mas os desafios de mercado são
exatamente os mesmos. Você tem que saber o que o seu consumidor
quer, fazer a adequação do seu produto, ver se é preciso cumprir
alguma exigência de norma técnica. Tem que fazer um trabalho de
prospecção, que é o mesmo que se faz para vender para o Nordeste.
Você vai tomar um avião ou vai pegar o seu carro. A distância pode
ser até maior quando a venda é feita dentro do Brasil. O primeiro
passo é esse, eu quero exportar e isso está na minha visão estratégica.
Aí vem a segunda etapa. Existe hoje, em 2005, um Brasil completamente
diferente de 1999, quando eu comecei a trabalhar na Apex (Agência
de Promoção de Exportações do Brasil). Existe um conjunto de informações
disponíveis em sites, como o de vocês, ou sites do
governo, de instituições, associações de classe, federações de indústrias
e centros de indústrias, que podem disponibilizar as informações
necessárias para o seu passo-a-passo. Para a empresa que está querendo
começar a exportar é muito importante também estar em contato com
outras empresas. Não só na mesma situação, para compartilhar custos
e informações, mas também com empresas que já exportam. Uma associação
de classe é o melhor exemplo para isso, porque eles vão transmitir
a experiência de gente que já está nesse processo há mais tempo,
para dizer, olha, faça o que deu certo e evite o que deu errado.
Eu não vejo nenhuma dificuldade maior para a empresa, mas ela tem
que saber que leva tempo. Duas palavrinhas mágicas são: paciência
e persistência. Durante dois anos ela vai mandar suas primeiras
amostras e em mais dois anos vai começar a se consolidar no mercado.
Mas essa demora é causada
pelo próprio processo de prospecção de mercado ou por algum outro
motivo?
O processo é lento. Leva tempo para a empresa grande também. Ninguém
encontra um comprador lá fora porque vai a uma feira. Às vezes você
encontra um potencial comprador, ele quer uma modificação no seu
produto, você tem que fazer uma adequação, uma embalagem diferente,
um catálogo. Às vezes é necessário contratar um designer
para botar uma cara mais bonita no seu produto. Isso tudo acontece
antes da exportação. Quando o importador pede a amostra, que é o
primeiro passo, ele vai testar se o seu produto de fato vende. Depois
disso, e dependendo do tempo que leva para o produto ser colocado
no mercado, ele volta com novos pedidos. Aí tende a haver um crescimento
geométrico de suas vendas. Esse tempo de maturação faz parte do
processo de exportação em si. Vale para a pequena, média ou grande
empresa, para quem nunca exportou ou para quem está exportando há
10, 20 ou 30 anos.
Além da prospecção de mercado,
a pequena empresa tem que enfrentar também burocracia e documentação
complicada para exportar?
Para isso existem os especialistas. Uma empresa maior já criou seu
departamento de comércio exterior. Uma empresa pequena precisa buscar
consultoria na área comercial-exportadora ou contratar uma pessoa
que saiba fazer isso. Quanto à burocracia, nós somos um País tremendamente
burocratizado e a exportação não é exceção. Leva tempo, mas com
a prática, vai-se descobrindo o caminho das pedras.
E o custo desse especialista,
sai caro para a uma pequena empresa?
Depende. Tem várias possibilidades. Uma delas é pegar um estagiário.
Custa quase nada. A segunda é um recém-formado. Vai custar pouco.
Se você quiser uma pessoa mais experiente, vai custar alguma coisa.
Não é preciso um profissional só para a sua empresa. É possível
contratar só o serviço. Em alguns casos os contratos podem ser com
taxa de sucesso. Ele ganha proporcionalmente às exportações realizadas.
O custo para financiamento
de exportações é caro para a pequena empresa?
Isso tem que ser visto em termos relativos. O grande problema para
as empresas não é a taxa de juros alta, é o acesso ao crédito. A
taxa de juros engloba várias coisas, como o custo das tarifas e
das informações que são prestadas. Em boa parte dos bancos existe
a possibilidade de obter assessoria financeira e de comércio exterior.
Todo esse trabalho é consolidado numa taxa de juros. A taxa de juros
do financiamento para exportação, que é anual, é muito menor do
que a taxa de um financiamento utilizado pela empresa no mercado
doméstico. Um financiamento para capital de giro está em torno de
2,5% ao mês, enquanto que um financiamento para exportação está
entre 8% e 10% ao ano. Só aí já faz diferença.
Você citou que os empresários
devem unir-se para exportar. O que é preciso para isso dar certo?
Por incrível que pareça, a principal dificuldade é o empresário
entender que dentro do Brasil ele está competindo com o seu colega
e que lá fora ele pode ser um grande aliado. As maiores dificuldades
são exatamente compartilhar as coisas aqui no Brasil, antes de sair
para o exterior. Nos consórcios para exportação, o principal problema
são as brigas entre os empresários. Um trabalho dentro de uma associação
de classe tem trazido cases e cases de sucesso. Em
certas situações é muito mais fácil ir junto a uma feira. Você pode
comprar um espaço maior, compartilhar e ratear o custo. Pode também
fazer uma consolidação de carga. Mandando seus produtos junto a
outras empresas, sai mais barato. Há várias formas de compartilhar.
A resistência maior que eu vejo, e que pude ver na minha experiência
na Apex e depois, mais recentemente, trabalhando com financiamento
para as empresas, é as empresas conseguirem sentar junto e compartilhar.
Continue brigando para o mercado doméstico e estabeleça aliança
na exportação. Lá fora, só se sai ganhando com isso.
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