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Sábado :: 31 / 07 / 2010

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31 de julio de 2010
PALAVRA DE ESPECIALISTA


Investidor disposto a correr risco? Só procure quando
souber muito bem o que quer com sua empresa

Entrevista a Adriana Abelhão

Álvaro Gonçalves assumiu a presidência da Associação Brasileira de Capital de Risco (ABCR) em junho desse ano, onde ocupava o cargo de conselheiro desde 2001. Atual Conselheiro do Centro de Estudos de Venture Capital e Private Equity da Fundação Getúlio Vargas, sócio e diretor da Stratus Investimentos, uma empresa gestora de fundos de Venture Capital, Álvaro conhece bem as dificuldades enfrentadas pelos empreendedores quando estão à procura de Capital de Risco para alavancagem de seus negócios. Segundo sua análise, essas dificuldades podem ser superadas levando-se em conta o cumprimento de uma série de etapas, indispensáveis para que o empreendedor entre numa rota segura de crescimento, tendo como aliado o investidor em Venture Capital. Se você quer conhecer melhor o caminho que pode levá-lo a essa peculiar modalidade de investimento, leia a entrevista!


Foto: Mônica TeixeiraBasta ter uma idéia de um produto para atrair venture capital?
Não. Antes de mais nada, o empreendedor precisa formar uma equipe empresarial - pessoas que serão atraídas pelo sonho, pelo projeto, e não pelo dinheiro. Às vezes elas têm capacidade financeira para se dedicar ao negócio full-time sem cobram nada, só pela possibilidade de ter um percentual do negócio no futuro. Essas pessoas formam uma equipe. Primeiro, o empreendedor deve buscar esses sócios executivos que o ajudem a implantar a empresa. Essa fase vem antes do dinheiro. É muito comum ver grupos formados assim, nos quais as pessoas estão trabalhando em outros lugares e se dedicam à empresa aos sábados ou depois do expediente. É uma fase em que o empreendedor se torna uma equipe: ele atrai um amigo que entende mais de finanças do que ele, ou que entende mais de vendas. Um negócio aumenta em muito suas chances de êxito quando é implantado por uma equipe empreendedora, com habilidades complementares.

Depois da formação dessa equipe empreendedora, já é hora de procurar por Venture Capital?
Não. O empreendedor precisa saber antes o que quer. Em geral, 90% dos empreendedores em estágio inicial não têm idéia do que precisam para sua empresa crescer quando procuram por venture capital.

E nesse caso, qual é a dica?
Ouvir muito, discutir muito, procurar orientação. O empreendedor precisa ter clareza do que quer. Sem isso, ou ele não vai conseguir atrair investimento , ou vai correr o risco de algum picareta levá-lo até um fundo e gerar uma seqüência de conflitos. O empreendedor precisa ter um plano estratégico. Não estou falando de uma apostila bonitinha, onde estará escrito: Plano de Negócios. Os analistas dos fundos privados de investimento gostam de receber planos de negócios onde há uma anotação dizendo "em revisão". Isso mostra que o empreendedor está trabalhando no assunto. Um Plano de Negócios com uma redação muito perfeita, pode ter certeza -- não foi feito pelo empresário. Um plano empresarial sai de dentro do coração do empreendedor, com os defeitos e qualidades. Com orientação, os defeitos podem ser corrigidos na origem. Se alguns escapam, não tem grande problema. Como muitos vêm da área acadêmica, imaginam que isso é uma prova e que eles têm que acertar tudo. Não é bem assim. Na vida do mercado, pelo contrário, o erro é benvindo. O empreendedor do Mc Donalds faliu quatro vezes antes de dar certo. Então, errar é bom, aprender com os erros é melhor ainda.

Qual é a reflexão que o empreendedor deve fazer para elaborar seu planejamento estratégico?
Se o sujeito começar a frase dizendo "eu tenho um produto", é quase certo que ele está vindo muito cedo para a conversa. O ideal é que ele diga "eu tenho uma empresa". Nenhum empreendimento vive a vida inteira em cima de um produto, são casos raríssimos. O empreendedor tem que provar ser uma maquininha de fazer produtos. Quem só pensou em uma tecnologia e acha que a partir dela pode contratar pessoas para montar a empresa está equivocado. Nenhuma empresa nasce assim. É fundamental o sujeito se estruturar e pensar o negócio dele. O primeiro passo é buscar capital humano. O segundo é buscar o capital individual, de preferência acompanhado de reforço de capital humano, que não é necessariamente dedicação de trabalho, mas também contatos para abrir portas, dar referências.

Esse capital individual, que acompanha capital humano, contatos, referências, é o capital do Angel Investor?
Exato. Pode ser um parente, um amigo, um executivo conhecido que aposentou e que ganhou muito dinheiro. Ai é uma hora boa para pegar alguém com alguma experiência, alguém que coloque um pouco de dinheiro, mas que também já tenha vivido uma vida dentro de uma empresa.

Mas vamos supor que esse empreendedor não tenha um sogro ou um tio com dinheiro, nem conheça um executivo nessas condições. O que fazer?
Um bom empreendedor é, em geral, um bom "fuçador". Dessa maneira, acaba despertando o interesse de pessoas com experiência. Um sujeito que tenha muito dinheiro, um empresário, um executivo que está numa fase adiantada da carreira, normalmente se estimula ao ver um sujeito mais jovem que tem a característica inata de empreender. Se o sujeito não conhece ninguém que tenha como abrir portas para ele, ou apresentá-lo a alguém que tenha mais dinheiro, ou que não tem um vizinho, um professor do qual ele ficou amigo que pode indicá-lo para alguém, então ele não vai ser empresário. A idéia do bom aluno, do gênio acadêmico que, contratado por uma grande organização, sobe na carreira, é uma idéia de carreira de modelo muito antigo. Hoje em dia boas carreiras são também associadas a uma certa atitude empreendedora, ainda que interna dentro de uma empresa. A habilidade de buscar esse capital individual, de encontrar um Angel está associada a isso. Muitos empreendedores têm essa possibilidade e essa capacidade, mas a desprezam e tentam pular direto para o fundo privado de Venture Capital.

Existem as associações de Angels, esse é um caminho?
Existem Angels que não têm tanto dinheiro, mas que têm muita motivação e interesse em apoiar negócios e se agrupam para ganhar escala e para trocar experiências. O meio acadêmico produz muitas parcerias entre professores e ex-alunos. Isso gera uma mescla muito interessante entre a vida acadêmica e o setor privado empresarial, que se unem para gerar novos negócios.

Qual o passo seguinte para o empreendedor, depois de atrair capital humano e o Angel?
Em paralelo, existe a fase da busca por clientes. É preciso ter um mínimo de atividade comercial, para testar se o produto é viável, se alguém paga por ele, se o preço justifica o produto. Há vários produtos que melhorariam a vida do cliente, mas pelos quais ele não está disposto a pagar. Existe demanda quando o cliente quer comprar. Se o empresário tem que incutir o produto na cabeça do cliente, se o cliente não quer comprar aquilo correndo, então o produto não tem demanda ainda. Em momentos em que a economia está restritiva, as pessoas focam necessidades maiores ainda que reconheçam que o produto trará benefícios.

E quais os negócios mais procurados pelos fundos?
Depende do fundo. Podem se voltar para serviços, tecnologia, infra-estrutura, biotecnologia. Cada fundo define seu padrão. Uma empresa voltada para tecnologia da informação que precise de 50 milhões de dólares pode estar além do possível para um determinado fundo. Por outro lado, se uma empresa só precisa de 200 mil reais, pode não interessar a outro fundo.

Quanto, em média, os fundos Venture Capital investem, por empresa?
O número mínimo para investimento nos fundos é de aproximadamente dois milhões de reais. Se uma empresa não justifica investimento nesse patamar, não é empresa para um fundo de venture capital. Isso, muitas vezes, leva empreendedores a apresentarem projetos desse montante, quando na verdade precisam de apenas 500 mil reais. A maior causa de descarte de projetos por fundos decorre disso. Bons produtos, na área de software, têm uma margem bruta muito alta e um custo de venda marginal muito baixo. Em decorrência disso, a operação gera muito caixa e dificilmente, nessa fase, o empresário precisa de dinheiro. A empresa deve justificar a utilização do recurso, ter um projeto para utilização daquele dinheiro que faça sentido empresarial.

Existe alguma estimativa da Associação Brasileira de Capital de Risco (ABCR) de quanto é a oferta de venture capital hoje, no Brasil?
Dentro do universo de fundos estabelecidos, excluindo-se a figura do Angel, devem existir hoje cerca de R$ 200 milhões disponíveis. A questão é que os projetos vão para os fundos antes da hora. Os empreendedores não percebem que, antes de procurar um fundo, precisam colocar seu produto para queimar um pouco no mercado, para ver se resiste à demanda, por exemplo. Se houvesse bons projetos, o capital seria ilimitado.

Isso significa que está sobrando venture capital?
O dinheiro não está se deslocando para esses negócios. Quando a incidência de projetos que dão resultado é grande, os fundos selecionam empreendimentos rapidamente e os projetos começam a crescer. Mas os projetos em que os fundos estão investindo hoje, na média, não despertam o interesse de quem tem mais capital disponível. Não se trata de atribuir culpa aos empreendedores, dizendo que eles não são bons e por isso existem poucos fundos. É preciso ter no país uma base de formação para o empreendedor, ter informação disponível de como ele deve se estruturar. O empreender tem que entrar mais na cultura de preparação do jovem profissional. Há um trabalho de formiguinha a fazer, de explicar o que é empreender e como se empreende para a sociedade e para o governo. É preciso montar uma estrutura e isso vai tomar muito mais tempo.

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