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Investidor
disposto a correr risco? Só procure quando
souber muito bem o que quer com sua empresa
Entrevista a Adriana Abelhão
Álvaro
Gonçalves assumiu a presidência da Associação
Brasileira de Capital de Risco (ABCR) em junho desse
ano, onde ocupava o cargo de conselheiro desde 2001.
Atual Conselheiro do Centro de Estudos de Venture
Capital e Private Equity da Fundação
Getúlio Vargas, sócio e diretor da Stratus
Investimentos, uma empresa gestora de fundos de Venture
Capital, Álvaro conhece bem as dificuldades
enfrentadas pelos empreendedores quando estão
à procura de Capital de Risco para alavancagem
de seus negócios. Segundo sua análise,
essas dificuldades podem ser superadas levando-se
em conta o cumprimento de uma série de etapas,
indispensáveis para que o empreendedor entre
numa rota segura de crescimento, tendo como aliado
o investidor em Venture Capital. Se você quer
conhecer melhor o caminho que pode levá-lo
a essa peculiar modalidade de investimento, leia a
entrevista!
Basta
ter uma idéia de um produto para atrair venture
capital?
Não. Antes de mais nada, o empreendedor precisa
formar uma equipe empresarial - pessoas que serão
atraídas pelo sonho, pelo projeto, e não
pelo dinheiro. Às vezes elas têm capacidade
financeira para se dedicar ao negócio full-time
sem cobram nada, só pela possibilidade de ter
um percentual do negócio no futuro. Essas pessoas
formam uma equipe. Primeiro, o empreendedor deve buscar
esses sócios executivos que o ajudem a implantar
a empresa. Essa fase vem antes do dinheiro. É
muito comum ver grupos formados assim, nos quais as
pessoas estão trabalhando em outros lugares e
se dedicam à empresa aos sábados ou depois
do expediente. É uma fase em que o empreendedor
se torna uma equipe: ele atrai um amigo que entende
mais de finanças do que ele, ou que entende mais
de vendas. Um negócio aumenta em muito suas chances
de êxito quando é implantado por uma equipe
empreendedora, com habilidades complementares.
Depois
da formação dessa equipe empreendedora,
já é hora de procurar por Venture Capital?
Não. O empreendedor precisa saber antes o que
quer. Em geral, 90% dos empreendedores em estágio
inicial não têm idéia do que precisam
para sua empresa crescer quando procuram por venture
capital.
E nesse
caso, qual é a dica?
Ouvir muito, discutir muito, procurar orientação.
O empreendedor precisa ter clareza do que quer. Sem
isso, ou ele não vai conseguir atrair investimento
, ou vai correr o risco de algum picareta levá-lo
até um fundo e gerar uma seqüência
de conflitos. O empreendedor precisa ter um plano estratégico.
Não estou falando de uma apostila bonitinha,
onde estará escrito: Plano de Negócios.
Os analistas dos fundos privados de investimento gostam
de receber planos de negócios onde há
uma anotação dizendo "em revisão".
Isso mostra que o empreendedor está trabalhando
no assunto. Um Plano de Negócios com uma redação
muito perfeita, pode ter certeza -- não foi feito
pelo empresário. Um plano empresarial sai de
dentro do coração do empreendedor, com
os defeitos e qualidades. Com orientação,
os defeitos podem ser corrigidos na origem. Se alguns
escapam, não tem grande problema. Como muitos
vêm da área acadêmica, imaginam que
isso é uma prova e que eles têm que acertar
tudo. Não é bem assim. Na vida do mercado,
pelo contrário, o erro é benvindo. O empreendedor
do Mc Donalds faliu quatro vezes antes de dar certo.
Então, errar é bom, aprender com os erros
é melhor ainda.
Qual é
a reflexão que o empreendedor deve fazer para
elaborar seu planejamento estratégico?
Se o sujeito começar a frase dizendo "eu
tenho um produto", é quase certo que ele
está vindo muito cedo para a conversa. O ideal
é que ele diga "eu tenho uma empresa".
Nenhum empreendimento vive a vida inteira em cima de
um produto, são casos raríssimos. O empreendedor
tem que provar ser uma maquininha de fazer produtos.
Quem só pensou em uma tecnologia e acha que a
partir dela pode contratar pessoas para montar a empresa
está equivocado. Nenhuma empresa nasce assim.
É fundamental o sujeito se estruturar e pensar
o negócio dele. O primeiro passo é buscar
capital humano. O segundo é buscar o capital
individual, de preferência acompanhado de reforço
de capital humano, que não é necessariamente
dedicação de trabalho, mas também
contatos para abrir portas, dar referências.
Esse capital
individual, que acompanha capital humano, contatos,
referências, é o capital do Angel Investor?
Exato. Pode ser um parente, um amigo, um executivo conhecido
que aposentou e que ganhou muito dinheiro. Ai é
uma hora boa para pegar alguém com alguma experiência,
alguém que coloque um pouco de dinheiro, mas
que também já tenha vivido uma vida dentro
de uma empresa.
Mas vamos
supor que esse empreendedor não tenha um sogro
ou um tio com dinheiro, nem conheça um executivo
nessas condições. O que fazer?
Um bom empreendedor é, em geral, um bom "fuçador".
Dessa maneira, acaba despertando o interesse de pessoas
com experiência. Um sujeito que tenha muito dinheiro,
um empresário, um executivo que está numa
fase adiantada da carreira, normalmente se estimula
ao ver um sujeito mais jovem que tem a característica
inata de empreender. Se o sujeito não conhece
ninguém que tenha como abrir portas para ele,
ou apresentá-lo a alguém que tenha mais
dinheiro, ou que não tem um vizinho, um professor
do qual ele ficou amigo que pode indicá-lo para
alguém, então ele não vai ser empresário.
A idéia do bom aluno, do gênio acadêmico
que, contratado por uma grande organização,
sobe na carreira, é uma idéia de carreira
de modelo muito antigo. Hoje em dia boas carreiras são
também associadas a uma certa atitude empreendedora,
ainda que interna dentro de uma empresa. A habilidade
de buscar esse capital individual, de encontrar um Angel
está associada a isso. Muitos empreendedores
têm essa possibilidade e essa capacidade, mas
a desprezam e tentam pular direto para o fundo privado
de Venture Capital.
Existem
as associações de Angels, esse é
um caminho?
Existem Angels que não têm tanto dinheiro,
mas que têm muita motivação e interesse
em apoiar negócios e se agrupam para ganhar escala
e para trocar experiências. O meio acadêmico
produz muitas parcerias entre professores e ex-alunos.
Isso gera uma mescla muito interessante entre a vida
acadêmica e o setor privado empresarial, que se
unem para gerar novos negócios.
Qual o
passo seguinte para o empreendedor, depois de atrair
capital humano e o Angel?
Em paralelo, existe a fase da busca por clientes. É
preciso ter um mínimo de atividade comercial,
para testar se o produto é viável, se
alguém paga por ele, se o preço justifica
o produto. Há vários produtos que melhorariam
a vida do cliente, mas pelos quais ele não está
disposto a pagar. Existe demanda quando o cliente quer
comprar. Se o empresário tem que incutir o produto
na cabeça do cliente, se o cliente não
quer comprar aquilo correndo, então o produto
não tem demanda ainda. Em momentos em que a economia
está restritiva, as pessoas focam necessidades
maiores ainda que reconheçam que o produto trará
benefícios.
E quais
os negócios mais procurados pelos fundos?
Depende do fundo. Podem se voltar para serviços,
tecnologia, infra-estrutura, biotecnologia. Cada fundo
define seu padrão. Uma empresa voltada para tecnologia
da informação que precise de 50 milhões
de dólares pode estar além do possível
para um determinado fundo. Por outro lado, se uma empresa
só precisa de 200 mil reais, pode não
interessar a outro fundo.
Quanto,
em média, os fundos Venture Capital investem,
por empresa?
O número mínimo para investimento nos
fundos é de aproximadamente dois milhões
de reais. Se uma empresa não justifica investimento
nesse patamar, não é empresa para um fundo
de venture capital. Isso, muitas vezes, leva empreendedores
a apresentarem projetos desse montante, quando na verdade
precisam de apenas 500 mil reais. A maior causa de descarte
de projetos por fundos decorre disso. Bons produtos,
na área de software, têm uma margem bruta
muito alta e um custo de venda marginal muito baixo.
Em decorrência disso, a operação
gera muito caixa e dificilmente, nessa fase, o empresário
precisa de dinheiro. A empresa deve justificar a utilização
do recurso, ter um projeto para utilização
daquele dinheiro que faça sentido empresarial.
Existe
alguma estimativa da Associação Brasileira
de Capital de Risco (ABCR) de quanto é a oferta
de venture capital hoje, no Brasil?
Dentro do universo de fundos estabelecidos, excluindo-se
a figura do Angel, devem existir hoje cerca de R$ 200
milhões disponíveis. A questão
é que os projetos vão para os fundos antes
da hora. Os empreendedores não percebem que,
antes de procurar um fundo, precisam colocar seu produto
para queimar um pouco no mercado, para ver se resiste
à demanda, por exemplo. Se houvesse bons projetos,
o capital seria ilimitado.
Isso
significa que está sobrando venture capital?
O dinheiro não está se deslocando para
esses negócios. Quando a incidência de
projetos que dão resultado é grande, os
fundos selecionam empreendimentos rapidamente e os projetos
começam a crescer. Mas os projetos em que os
fundos estão investindo hoje, na média,
não despertam o interesse de quem tem mais capital
disponível. Não se trata de atribuir culpa
aos empreendedores, dizendo que eles não são
bons e por isso existem poucos fundos. É preciso
ter no país uma base de formação
para o empreendedor, ter informação disponível
de como ele deve se estruturar. O empreender tem que
entrar mais na cultura de preparação do
jovem profissional. Há um trabalho de formiguinha
a fazer, de explicar o que é empreender e como
se empreende para a sociedade e para o governo. É
preciso montar uma estrutura e isso vai tomar muito
mais tempo.
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