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Sem
planejamento estratégico, não há
investidor
que se arrisque a colocar dinheiro em sua empresa
Entrevista a Mônica Teixeira
Armando
Clemente ocupa o cargo de secretario executivo da
Rede de Tecnologia do Rio de Janeiro há oito
anos. No cargo, e como professor nos cursos de pós
graduação da área de Engenharia
de Produção da Coppe-UFRJ, Armando percebe
um problema comum entre aqueles que querem criar uma
empresa de base tecnológica: a dificuldade
em situar o futuro produto a ser lançado no
espaço competitivo do mercado. O remédio
para essa dificuldade ? que também resolve
outros problemas das empresas nascentes ? é
o planejamento estratégico para a correta estruturação
do negócio. Nesta entrevista, Armando detalha
suas idéias sobre o tema. E se você gostar
da conversa, e quiser saber mais, pode ler Planejamento
do Negócio ? Como transformar idéias
em realizações, o livro que resultou
do acompanhamento, feito por alunos de mestrado, e
sob sua orientação, de um grupo de empresas
incubadas na sua busca por capital de risco. Mais
informações sobre o livro no site da
editora, www.lucerna.com.br.
Os
problemas enfrentados por uma empresa de base tecnológica
são diferentes daqueles enfrentados por uma empresa
comum, quando se trata de seu planejamento estratégico?
-Não. A concepção é a mesma,
as etapas e as fases pelas quais a empresa passa são
idênticas. Há uma diferença de cultura:
quem cria empresas de base tecnológica, ou empresas
oriundas da Universidade e instaladas em incubadoras
ligadas a Universidades e centros de pesquisa, são
em geral ex-alunos de mestrado ou de doutorado ou até
de graduação, que fazem uma grande confusão.
Que confusão é esta? Eles acham que, por
terem uma tecnologia interessante, já têm
tudo. Mas se essa tecnologia não estiver direcionada
para um mercado, para um público-alvo, ela vale
zero. O empresário que não é um
tecnólogo formado, que não passou anos
desenvolvendo e pesquisando e fazendo tecnologia, já
tem a visão de atacar o mercado, de conseguir
?se dar bem? rápido. O processo de
empresas de base tecnológica não é
um processo rápido -- com exceção
do software que é uma coisa muito rápida
ou até micro eletrônica. Nos outros setores,
demora para a empresa se sedimentar, para transformar
aquela tecnologia num produto, identificar um mercado
para este produto, identificar quem são os seus
concorrentes, onde ele vai atuar, para ele poder visualizar
um nicho de mercado e conseguir se colocar. Negócios
mais empíricos são negócios rápidos,
entram e saem rapidamente do mercado. É diferente
do processo de um produto tecnológico, que tem
um ciclo de vida mais longo, mais denso.
No livro
que o senhor organizou, Planejamento do Negócio,
fala-se em seis fases de planejamento, a sexta fase
sendo a da criação da empresa. Ou seja:
a empresa nasce no fim do processo de planejamento.
A idéia desse livro nasceu de eu ter acompanhado
as primeiras reuniões entre empresários
de base tecnológica e investidores de risco,
organizadas nos Venture Fórum da Finep (Financiadora
de Estudos e Projetos). Comecei a perceber que as empresas
não estavam preparadas para vender o seu negócio.
Elas já estavam incubadas, tinham um produto,
conheciam muito esse produto; mas, na maioria das vezes,
não conseguiam valorar o seu negócio.
Faltava aos empresários um pouco mais de consistência,
de noção do que seu produto significava
frente ao mercado, identificar quem eram os seus concorrentes,
qual a diferença de seu produto frente aos concorrentes,
porque alguém compraria o produto dele e não
o produto de A ou C. Como sou professor da UFRJ e na
Coppe, propus a uma turma de mestrado fazer um curso
aplicado. Pedi aos alunos que participassem do Venture
Fórum como espectadores, para fazer uma analise
critica sobre a forma pela qual esses empresários
se apresentavam aos investidores. A partir daí,
nasceu o livro, que é a tentativa de montar um
roteiro sobre como planejar um negocio. Há muitos
livros que ensinam a fazer um plano de negócios,
nossa idéia foi mais oferecer um norteador, para
chamar a atenção do empresário
para alguns conceitos, para o processo por onde ele
tem que passar. Acrescentamos um glossário e
um check list no final.
Esses
seis passos até a criação da empresa
estão sintetizados na primeira
figura
publicada no livro.
A primeira figura do livro sintetiza os passos, mostra
como a partir da idéia, planeja-se um negócio,
e como se chega a uma proposta de valor para ele. A
partir do momento que você tem uma idéia,
para essa idéia se transformar num negócio,
há alguns passos a serem seguidos. O objetivo
dessa fase é minimizar, e muito, o risco daquela
proposta de negócio.
Pode
até chegar à conclusão que não
tem negócio.
Exato. O planejamento estratégico é o
primeiro passo. Trata-se de verificar a validade da
idéia. Para começar, o país tem
leis; é necessário saber em que conjunto
de leis o negócio está enquadrado. O arcabouço
legal é um dos fatores políticos, econômicos,
sociais e tecnológicos ? PEST ? por
onde deve começar o planejamento. Em seguida,
vem a reflexão sobre o posicionamento do negócio.
Em que contexto seu negócio vai se inserir? Que
posição vai ocupar no mercado? O mercado,
como todo mundo sabe, é competitivo, cruel, tem
um monte de gente querendo a mesma coisa que você.
Como é que você se posiciona em relação
a esses outros concorrentes? Ao responder a essas perguntas,
o futuro empresário começa a entender
em que mercado está entrando. Também é
preciso realizar aquilo que os administradores chamam
de análise
SWOT.
(página 38) SWOT vem das palavras inglesas
Strenghts, Weaknesses, Opportunities e
Threats ? Forças, Fraquezas, Oportunidades
e Ameaças. A idéia é que o empresário
descubra como, por exemplo, usar suas forças
para minimizar as suas fraquezas, aumentar as suas oportunidades
e diminuir as ameaças que estão ao seu
redor. De posse desse conjunto de informações
-- o ambiente político legal, em que lugar a
empresa vai se colocar, a identificação
dos concorrentes, a percepção das ameaças,
forças, oportunidades, fraquezas -- , você
formou um quadro geral e começa a entender que
o apito terá que tocar: estou num certo lugar,
em um mercado com certas características, a empresa
será boa nisso, ruim naquilo, a legislação
tolhe aqui, mas incentiva ali. Pode-se então
imaginar cenários: o maravilhoso, otimista; o
ruim, pessimista. Em cima deles, pode-se então
tentar um meio termo, que talvez seja o cenário
real. Para chegar ao cenário desejado, traçam-se
as metas e as ações para atingir os objetivos
vislumbrados nos cenários otimista, pessimista
e real. Cumpridas essas etapas, você se planejou
estrategicamente para entrar no mercado.
A empresa
já pode então vir a existir?
Ainda não. Nessa primeira fase, você conseguiu
organizar a cabeça e definir ações
concretas para poder atingir a um determinado objetivo.
Até agora aqui, ninguém falou numa coisa
fundamental: a grana. Tenho uma empresa desenhada para
fazer um determinado produto, para atingir um determinado
mercado, vou vender tanto. Agora, para eu fazer isto,
quanto é que isto vai me custar? Como eu tenho
que me organizar? Será que eu sei tudo? Que competências
são essenciais? Como devo me estruturar enquanto
empresa ou enquanto negócio para poder atingir
a este objetivo aqui inicial definido? Esse segundo
conjunto de respostas, nós chamamos de estruturação
do negócio.
Ter desenvolvido
uma tecnologia é uma competência essencial?
Sim. Mas, desenvolvida a tecnologia, os empresários
sabem construir aquela tecnologia? Não em cima
de um protótipo de teste, uma ?aranha?
de laboratório, mas um produto. O consumidor
não compra uma aranha fabricada em laboratório,
compra um produto. É preciso de competências
para fazer aquilo virar um produto. E ai você
precisa definir que tipo de competência.
O que
mais é competência?
Digamos que o empresário já saiba desenvolver
a tecnologia até o produto. Se ele não
souber dizer para as pessoas que o produto existe, não
vai adiantar nada; alguém tem que saber vender
o produto. Essa é outra competência essencial.
Você precisa ter uma equipe, hoje você não
faz nada sozinho. Há algumas outras decisões
a serem tomadas. Oor exemplo: vai terceirizar serviços?
Ou pretende ser uma empresa vertical, onde se faz tudo?
Você tem fornecedores? Vai por acaso vai depender
de um único fornecedor? São muitos os
detalhes sobre os quais o empresário precisa
se posicionar. Deles, nasce a estrutura, o desenho do
negócio. Na primeira fase, do planejamento estratégico,
a gente basicamente vislumbrou e identificou a oportunidade.
Na segunda, da estruturação do negócio,
o que você precisa fazer é habilitar esta
oportunidade em um negócio concreto. A empresa
vai ser uma S/A? Vai ser uma Ltda? Lembre-se que a gente
já fez uma análise do ambiente político-legal
-- você não vai desperdiçar a chance
de optar pelo Simples, ninguém quer pagar tanto
imposto, então você tem que ver como é
que você trabalha isso. Nasce daí o modelo
operacional, a forma de operar da empresa. O modelo
de marketing deve responder à pergunta: como
a empresa vai se mostrar para os consumidores?
Por último,
você colocou na figura o modelo financeiro...
...que responde de quanto vai ser o investimento, de
quanto capital de giro você vai precisar, quanto
custa o produto. Quanto mais o empresário conhece
do mercado, quanto mais o modelo financeiro estiver
bem amarrado, menos erros vai cometer. É daí
que vai definir o investimento inicial, que garantirá
a infra-estrutura mínima para começar
o negócio. Até botar o produto em operação,
vai haver uma despesa mensal. Você já projetou,
já sabe qual é o mercado, já sabe
quanto o teu produto vale e ai você vai ter uma
idéia de quanto você vai vender, naquele
cenário que imaginou. Haverá uma expectativa
de venda; você pode então comparar o investimento
inicial, o tempo em que só haverá despesa,
com o momento em que vai começar a entrar. Um
dia você começa a igualar a saída
com a entrada, a partir dali o negocio passa a dar retorno:
é o sucesso da empresa. Tudo isso feito e pensado,
então você escreve seu plano de negócios,
e pode sair à cata do investidor.
Mas onde
está o dinheiro?
Há duas opções: ou vai para o mercado
financeiro buscar empréstimos, ou vai para o
papai, o titio ou para um amigo rico e apresenta a eles
o negócio, seu modelo financeiro, sua estrutura,
a expectativa de retorno etc. Quer dizer, nesse ponto,
você estará preparado para convencer o
investidor de que a empresa é um bom negócio.
?Se você continuar com seu dinheiro aplicado,
o retorno vai ser 15% ao ano, nesse meu negocio a expectativa
é de 25% ao ano?. O investidor analisa,
ele não é trouxa ? se fosse, não
teriam o dinheiro, então você precisa ser
convincente e dar dados concretos para ele tomar a decisão.
Fora da família e dos amigos, as alternativas
são o mercado financeiro ou o investidor de risco.
O mercado financeiro tem as taxas comuns de juros; e
o investidor de risco não tem isto, é
risco mesmo.
O capital
de risco sobra ou falta no Brasil?
Sobra. As pessoas não estão conseguindo
investir em risco, ou por falta de bons projetos, ou
porque a cultura do investimento de risco ainda não
está difundida e consolidada o suficiente de
forma a existirem analistas que entendam desse tipo
de operação. No risco, há ainda
um terceiro problema não resolvido. É
a saída do capital de risco. No Brasil, e no
mundo inteiro, a estratégia de saída é
uma coisa que ainda não esta bem resolvida.
Você
se refere à saída do investidor, ou à
saída do investidor do ponto de vista da empresa?
Há dois tipos de investimento de risco, aqueles
chamados de angel, quando o investidor aposta em você,
ainda que você só tenha a idéia.
Ele investe para que você transforme a idéia
em oportunidade e depois num negocio. esse investidor
confia no seu taco e aposta em você para que você
se dedique exclusivamente ao desenvolvimento da idéia.
Então o angel vai botar o dinheiro suficiente
para que você tenha tranqüilidade; ele vai
cuidar da conta de luz, da conta de gás, da operação
administrativa. Qual será a participação
no negócio desse capital, frente ao intangível
que é o seu conhecimento? Vai ser meio a meio?
Do produto desenvolvido, metade é meu, metade
é seu? Como o angel sai da sociedade, para apostar
em outro? Como é que ele realiza lucro? Tem a
outra situação, em que o empresário
já tem o produto, um mercado definido, um planejamento
para a operação do produto em si ?
ele precisa do investidor de risco para botar o produto
na rua. Nesse caso, já é mais fácil
definir quanto vale o negócio, e qual é
a participação do investidor no contexto
do negócio. Mas mesmo assim, se for uma empresa
limitada, a forma de saída é uma coisa
complicada. A empresa então deve se transformar
num S/A? Se for esse o caso, é mais simples,
o investidor vende suas ações e realiza
o lucro, Mas o processo de transformar a empresa numa
sociedade anônima é demorado, difícil
de você concretizar. É um processo lento,
o da disseminação do investimento de risco,
mas já avançou muito no Brasil. A tendência
é essas coisas se normalizarem e avançarem.
Como você
avalia o ambiente para o empresário inovador,
hoje, no Brasil?
Muito favorável. Tem a Lei da Inovação
(link para matéria do Inovação),
os fundos setoriais com aplicação de recursos
direto na área de tecnologia. A relação
empresa, Universidade vem sendo fortalecida. O ambiente
propicio enseja o surgimento de novas empresas, novas
parcerias, novos produtos. No empreendedorismo de base
tecnológica, o processo é mais lento mesmo,
não é você fazer uma camisa e sair
no dia seguinte com ela ? estamos falando de tecnologia,
de acúmulo de conhecimento, de aplicação
do conhecimento, de transformá-lo em produto.
E que
condição uma empresa de base tecnológica
deve satisfazer para ser uma empresa de alta rentabilidade?
Um aspecto é a necessidade de rever sempre seu
plano de negócio, que deve virar um instrumento
de gestão da sua organização. Periodicamente,
as metas devem ser revistas, e também o seu posicionamento
-- porque depois do lançamento de seu produto,
passaram-se seis meses, um ano, e a empresa que perdeu
mercado para você, vai querer reconquistar o mercado
dela. É um processo continuo e interminável
de estar sempre na busca do melhor, da liderança,
da conquista de mercado -- e isso você só
consegue fazer com planejamento.
O que
mais você observa nas empresas de base tecnológica
de sucesso?
A fibra desses empreendedores. Há alguma coisa
que está no sangue, na veia. Não adianta
sentar na cadeira de dono e ficar esperando. Fibra é
uma coisa interessante. Quem tem, trabalha muito, muito
mesmo, muitas noites sem dormir, muitos fins de semana
trabalhando, deixando de realizar muitas atividades
de lazer e se dedicar com perseverança a um ideal,
a um objetivo.
Que
é ficar rico?
Eu diria que é a satisfação pessoal,
a realização pessoal. O empreendedor é
um cara vaidoso por natureza. Ele precisa que o mercado
o reconheça como bom. E como sente o reconhecimento
do mercado? Através do sucesso do produto dele.
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