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Fala
o inovador Ozires Silva
O presidente da Pele Nova conta aqui a aventura de montar
uma empresa de base tecnológica que tem orgulho
de ser brasileira
Entrevista a Mônica Teixeira
Piloto militar
e engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico
de Aeronáutica, Ozires Silva foi um dos criadores
da Empresa Brasileira de Aeronáutica, a Embraer.
Ele presidiu a então estatal por dezesseis
anos, período em que foram lançados
os famosos modelos Bandeirante e Tucano. Entre 2000
e 2002, esteve à frente da Varig. Também
dirigiu a Petrobrás e foi ministro da Infra-Estrutura.
Aos 73 anos, Ozires ocupa o cargo de vice-presidente
da Academia Brasileira de Estudos Avançados
e é o presidente da Pele Nova Biotecnologia
S.A.(leia mais, em Empresa em Destaque) que, em junho,
lançou no mercado seu primeiro produto, um
curativo especial denominado Biocure, cuja fábrica
piloto está instalada no Mato Grosso do Sul.
O senhor tem dito
que a Pele Nova pode vir a ser empresa maior que a Embraer!
Um clínico que trata de diabéticos nos
disse que a tecnologia básica do Biocure, nosso
primeiro produto, é o sonho da medicina do século
XXI. O que me encantou no projeto da Pele Nova foi o
enorme significado da inovação. Não
há estatísticas muito sólidas sobre
feridas de difícil cura. Recentemente, foi criada
uma Associação Européia de Feridas
de Difícil Cura, que está em processo
de coleta de dados, promoção de eventos.
Diabéticos têm feridas de difícil
cura, e são os pacientes do mundo mais organizados.
Têm estatísticas, trocam informações.
Por causa dessas feridas, milhões de pessoas
perdem contato com a sociedade. A Organização
Mundial da Saúde indica que de 18% a 20% da população
mundial está constituída de diabéticos;
e, infelizmente, em crescimento. Ora, estamos falando
de 1,2 bilhão de pessoas. Desse 1,2 bilhão,
pelo menos 2% ou 24 milhões de pessoas têm
feridas de difícil cura. Só nos Estados
Unidos, são dez milhões. O Departamento
de Saúde norte-americano indica que essas pessoas
gastam US$ 40 mil por ano em curativos. Então,
estamos falando de US$ 400 bilhões. Aí
disse o seguinte: se eu captar de 3% a 4% desse mercado
- e posso captar - já sou maior que
a Embraer.
Mas com
o produto da Pele Nova, o gasto será menor do
que esse de hoje...
É verdade. A vantagem é que nós
nos tornaríamos um grande negócio, por
causa da competitividade. É evidente que qualquer
um pode contestar os números colocados dessa
maneira. Mas como empreendimento para impelir uma inovação,
vale. Nas condições americanas, com o
Biocure, em vez de gastar 40 mil dólares, o diabético
poderá ser curado com US$ 1 mil.
Como conquistar
o mercado americano?
Nós chegamos lá de avião, é
fácil para nosso produto. Estou considerando
diferentes estratégias: uma delas é exportar,
outra é criar uma empresa nos EUA, se for necessário
fabricar lá.
Para entrar
no mercado americano, curativo requer autorização
do FDA (Food and Drug Administration, órgão
que regula a comercialização de produtos
médicos)?
Sim. Como há muito curativos, o FDA tomou a decisão
de fiscalizar por amostragem. Eles analisam aleatoriamente
um determinado curativo; os demais, liberam segundo
certos requisitos: que sejam corretamente fabricados,
estejam de acordo com as especificações,
não causem danos, que a bula seja suficientemente
instrutiva... Cumprindo esses requisitos não
há problemas.
Para obter
essa autorização, há custo para
a empresa?
Não. A lei americana diz que o custo é
do governo, porque ele é quem obriga a empresa
a obter a permissão. Lógico: se a liberdade
de empreender está na constituição,
e governo se interpõe, o custo é dele.
Os ensaios requeridos são pagos pelo governo.
Isso aconteceu com o avião. Nunca pagamos. Pagamos
aqui no Brasil, lá não.
Que papel
teve a Academia Brasileira de Estudos Avançados
na história da Pele Nova?
O objetivo social da academia é ser uma espécie
de incubadora, é servir de ponte entre a inovação
científica e tecnológica, os inventores,
de um lado, e a indústria e o mercado, de outro.
Muitos projetos vieram a nós. Um deles foi o
do Biocure. Em geral, a Academia serve como catalisadora:
pegamos um produto, descobrimos uma empresa e fazemos
a aproximação da empresa que quer produzir
do pesquisador que o criou. No caso do Biocure, o resultado
econômico foi tão espetacular que decidimos
empreender. Mas para criar a Pele Nova, a Academia não
tinha recursos. Então precisamos capitalizá-la;
fizemos road-shows para os investidores. Participei
de todos eles.
Então
o senhor realmente se dedicou!
Visitei todas as empresas da Associação
Brasileira de Capital de Risco. Fizemos umas vinte apresentações.
Duas empresas concordaram em participar. A Delta do
Prata, do Rio de Janeiro, e a Decisão, de São
Paulo, decidiram colocar capital de risco. Dois amigos
meus toparam entrar. Com isso constituímos o
capital necessário.
Qual o
papel de Ubilar Oliveira?
Foi ele que teve a idéia de criar a Academia,
e me contatou para fazer parte dela. É um negociante,
dono de uma empresa em Campo Grande, Mato Grosso do
Sul, que faz a distribuição de cerveja.
Ele é um dos investidores.
O senhor
diz que o Biocure é o primeiro produto da Pele
Nova. Quais serão os outros?
Estamos falando até aqui de uso externo, curativos.
Nada impede que façamos produtos para uso interno.
Aí o campo se abre enormemente. Para obter a
aprovação de curativos na Anvisa (Agência
Nacional de Vigilância Sanitária) é
muito mais fácil. Queríamos velocidade
para lançar o empreendimento. Mas nada nos segura.
Por exemplo: não dá para fazer safena
com esse produto? Claro que dá. Outra coisa:
será que recupera coração danificado
pelo infarto? Pode ser. Por que, se criou um esôfago,
não pode criar um rim, um pâncreas?
Quem faz
pesquisa e desenvolvimento?
Os próprios criadores, a doutora Fátima
Mrué, cirurgiã de Goiânia, e o professor
Joaquim Coutinho Netto, da Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto da Universidade de São
Paulo.
Como se
decidiu sobre a propriedade intelectual da tecnologia?
Os pesquisadores cederam o direito da propriedade intelectual
para a Pele Nova. Nós demos a eles uma participação
acionária e os estamos remunerando. Pretendo
construir, na medida em que os recursos financeiros
permitam, um centro de pesquisa que eles vão
operar. No momento, o P&D está sendo feito
no hospital da USP, em Ribeirão Preto.
Onde será
a sede da fábrica?
A fábrica piloto está no Mato Grosso do
Sul. Se partirmos para o critério de facilidades
de infra-estrutura e dimensão de mercado, São
Paulo é a escolha direta. Mas São Paulo
é muito áspero no que se refere à
tributação. E a tributação
hoje está liquidando a indústria brasileira.
Essa gritaria de empresários contra o nível
de tributação não é absolutamente
choradeira. É muito real. Em uma condição
normal, a tributação da Pele Nova, sem
contar os encargos sociais, é da ordem de 40%.
É muito pesado, bem mais do que vamos remunerar
os acionistas que correram o risco. Não se trata
de o empresário não querer pagar imposto.
É natural remunerar a infra-estrutura que recebe
do país. Mas quando o governo leva metade do
seu ganho sem colocar nada, e ainda exige cópia
autenticada às centenas, enche de fiscalização,
me aborrece de tudo quanto é jeito e ainda chega
no fim e leva metade do que eu ganho, isso não
está certo. A tributação média
nos EUA é de 12%, na Europa, 16%; a nossa é
20%. Não dá!
Em que
outros estados os senhores estão pensando?
Considerando que o custo de produção não
deverá ser alto, um incentivo muito importante
para nós será a redução
do imposto de renda. Pela Constituição,
todo o Norte e o Nordeste têm incentivo para o
IR. Da Bahia para cima, pegando todos os Estados da
Amazônia, qualquer estado serve. Como a matéria-prima
é pouca - a película tem 0,4 mm
de espessura, transportá-la não é
problema. E como o produto final é muito leve,
posso transportar de avião a um custo baixo e
distribuir o produto no Brasil inteiro. Por isso, o
problema fiscal é o decisivo. É claro
que precisa de pesquisa e desenvolvimento, o que torna
São Paulo ideal.
Quando
a fábrica estiver instalada, quantos funcionários
o senhor acha que vai ter?
Depende da produção. Nossa máquina,
aperfeiçoada, vai produzir 50 mil curativos por
dia. Vamos supor que nosso mercado seja da ordem de
250 mil a 500 mil curativos por dia - uma estimativa.
Como o produto concorrente é muito caro, a gente
pode supor que quase ninguém compra. Então,
não se formou ainda mercado. Nessas circunstâncias,
de 250 mil a 500 mil, estou falando de 5 a 10 máquinas.
Hoje, em torno de uma máquina de produção,
há 30 pessoas. Então, terá entre
300 e 500 pessoas.
A máquina
é importada?
Não, é projeto nacional. Essa empresa
é inteiramente propelida em real e em português.
As vendas
estão indo bem?
Achei que seria um pouco menos difícil. Investimos
muito em nossa estratégia básica. Estamos
vendendo principalmente para hospitais; há cem
deles estudando o produto.
E em relação
ao mercado público?
Não temos nenhuma restrição, mas
ele é bem mais complicado.
A política
industrial para fármacos beneficia a Pele Nova?
Espero que sim.
Leia
mais, em Empresa em Destaque
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