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"O governo atrapalha muito.
É um grande gerador
de problemas e um quase nulo gerador de soluções"
Bob
Wollheim acredita que empreender é um estilo de vida, um ato ''absolutamente
egoísta e egocêntrico, mas é o melhor caminho para o desenvolvimento,
para a igualdade social''. Empreendedor compulsivo, Bob é um dos
pioneiros do mundo pontocom. Sua única experiência fora do empreendedorismo
foi como presidente da StarMedia, portal Latino Americano da Web,
período no qual pode viver de perto, em Nova York, o boom da rede
mundial de computadores, no papel de um dos principais executivos
da empresa. Em pouco tempo voltou para o Brasil para criar a Idea.com
e levantou US$ 7 milhões para captar negócios na Web. Alguns meses
depois, a bolha da Internet estouraria. Hoje, com a Ideia.com
num novo formato e inúmeros projetos, Bob fala sobre sua trajetória
e sobre empreendedorismo ''um modo de encarar a vida que se reflete
nas empresas e nas coisas''.
Depoimento a Adriana
Abelhão
Qual
sua trajetória como empreendedor?
Nasci em Porto Alegre e vim com cinco anos para São Paulo.
Estou com 42 anos. Logo que saí da Fundação
Getúlio Vargas, onde fiz graduação em Administração
de Empresas, comecei um estágio na Ford. Meu pai era um executivo
de outra multinacional, a Santa Marina, do grupo francês Saint-Gobain.
Ele trabalhou lá 40 anos. Essa minha experiência na
Ford, junto à experiência do meu pai, sobre o mundo
corporativo nas empresas, sobre os jogos políticos que existem
nessas organizações, que têm pouquíssimo
a ver com o negócio em si, me fez ainda muito jovem tomar
uma decisão: eu queria um negócio meu. Então,
montei, com mais dois colegas da faculdade, minha pequena empresa
de design gráfico, a Publi/3.
Quanto tempo você
esteve lá?
Fiquei dois anos mais ou menos. Mas eu achava que não iríamos
crescer. As empresas crescem porque tem tamanho ou porque têm
relevância. Existem empresas pequenas e relevantes, que faturam
bem. A gente não tinha nem um, nem outro. Atendemos alguns
clientes legais, como a American Express, o Grupo Ticket, mas não
tínhamos um diferencial. Em 1997, no começo do CD-Room
e da Internet, ninguém percebia a oportunidade que
havia ali. Não inventei nada. Não sou o tipo de empreendedor
que inova ao criar produtos. Talvez eu consiga observar as tendências
e não tenha dificuldades em aderir a alguma coisa enquanto
todo mundo acha que estou louco. Não inventei, aproveitei.
Desfiz a sociedade da Publi/3 e criei a Yes!Design. Toquei essa
empresa durante dois anos. Como ela tinha diferencial, era uma dentre
as poucas produtoras voltadas para a Web no Brasil, pegamos
logo a conta das Pernambucanas, grande empresa do comércio
varejista, depois um pedaço da multinacional anglo-holandesa
Unilever no Brasil. Então começou a acontecer. Percebi
de novo que não crescia, mas dessa vez por falta de capital.
Dois anos depois, com clientes maiores, faturando, busquei internacionalizar
a empresa. Vendi a Yes!Design para a Poppe Tyson, que fazia a mesma
coisa que eu, só que era uma multinacional dos Estados Unidos,
tinha escritórios em Londres, na Malásia, na Austrália.
Virei a Poppe Tyson no Brasil. Um ano depois, quando percebi que
tinha feito uma boa transição, a Poppe Tyson foi vendida
para a Modem Media, uma agência de serviços de marketing,
especializada no mercado digital. Acabei ficando aqui no Brasil
como o diretor geral da empresa e embora não fosse mais sócio,
tinha que tocá-la como se fosse. Às vezes não
tinha dinheiro para pagar os salários e tinha que botar do
meu bolso, porque os caras da Modem Media não me davam bola.
Saí. Foi quando fiz o que chamo de o meu MBA (Master in
Business Administration). Chamo meu emprego na StarMedia de
MBA porque, às vezes, estar empregado pode ser a melhor escola.
Fiquei um ano e meio mais ou menos nos Estados Unidos, em Nova York.
Primeiro, tirei o peso de empreender -- empreender não é
só coisa boa, é muito complicado, muito pesado, você
carrega um piano todos os dias.
Então, nesse momento
você decidiu parar de empreender?
Foi. No quinto dia útil do mês, eu precisava receber
um cheque e não pagar seis, sete, oito, quinze cheques. Às
vezes não tinha dinheiro. Isso consome as pessoas. As pessoas
tendem a falar pouco disso, tendem a fazer romance, exploram o lado
do sucesso e tal, mas em muitos momentos isso é muito desgastante.
Fiquei dois anos no StarMedia. Era o auge do boom pontocom.
A StarMedia abriu o capital e participei disso. Ao final de 1999,
meu lado empreendedor começou a voltar. Eu não era
sócio da StarMedia, mas comecei agir como se fosse. Comecei
a ter algumas brigas com a direção. Olhava o Brasil
e me parecia que o País nunca havia estado tão bem.
Pedi a conta. Voltei ao Brasil e montei uma empresa chamada Ideia.com,
que se propunha a fazer investimentos em pequenas empresas na Internet.
Eram empresas de tecnologia, na área de comunicação,
educação, vários segmentos. Isso culminou em
2002 com a Ideia.com em um novo formato.
Mas não era uma
ótima oportunidade estar lá, na StarMedia?
Era. Mas eu estava batendo a cabeça no topo da empresa. Outro
dia me perguntaram se o empreendedor é um cara que gosta
do risco. Acho que não. O empreendedor é um autoconfiante.
Ele pensa que se ele mesmo tocar a empresa existem riscos menores
do que se ela for tocada por outro. Na StarMedia, cheguei à
conclusão de que ser tocado por uma direção
passou a ser mais arriscado do que tocar meu próprio negócio.
Os pretensos empreendedores costumam dizer assim: se você
me der a sua conta publicitária ou se você virar o
meu cliente, saio do meu emprego maravilhoso, numa multinacional,
e monto uma empresa que vai ser do ***. O verdadeiro empreendedor
não pensa assim. Ele sai e depois liga e fala: eu saí.
Do outro lado da linha, vem a pergunta: você é louco?
Não, mas agora preciso de você como cliente, responde
o empreendedor. O risco é do empreendedor. Voltei para o
Brasil sem nada. Sem cliente, só com o meu dinheiro pessoal.
Montei a Ideia.com e depois levantei US$ 7 milhões para fazer
investimentos em outras empresas.
Capital de risco?
Capital de risco americano, de um fundo. Dois meses depois veio
a crise pontocom. Ficamos pouquinho tempo na euforia. Demorou alguns
meses para as pessoas acharem que a crise seria duradoura e que
ela tinha vindo para ficar. Talvez um ano. Em meados de 2001 foi
quando todo mundo percebeu. A partir de 2002, entrei numa nova fase,
da qual as pessoas não gostam de falar muito, que é
a fase de desconstruir. Também não gosto de falar,
muito menos de fazer. Comprei a parte dos meus sócios e fechei
várias empresas. Demiti um monte de gente, enxuguei o que
tinha que enxugar.
Você voltou para
o Brasil. Chegou aqui e encontrou esse ambiente desfavorável,
poucos meses depois. Você se arrependeu?
Não, de jeito nenhum. Isso não é discursinho
bonito. Fiz uma caída rápida, porque pedi a conta
e não tinha nada, mas em pouquíssimos meses voltei,
para cima do que eu estava. Consegui investidor. Daí veio
a crise e eu pumba! Talvez pela minha vivência, tudo aconteceu
sem loucuras e sem mortos pelo meio do caminho. Meu caminho não
foi nebuloso, foi uma circunstância da crise do momento. Talvez
uma questão de incompetência minha, de dentro dessa
crise querer transformar o limão numa limonada. Cabe-me essa
autocrítica. Alguns caras perceberam e transformaram tudo
numa outra coisa e conseguiram se reerguer. Eu não consegui.
Mas, independente disso, o prazer de estar pilotando essa coisa,
seja subida ou descida, o prazer de ter visto a oportunidade e de
me sentir capaz, ter corrido atrás e ter feito, é
muito maior do que o fato dela não ter dado certo. Se estivesse
sentado lá até hoje, morando em Nova York, seria um
daqueles caras que disseram: ''eu sabia que ia dar errado''. Mas
você participou? Você viveu? Teve a chance? Você
olhou a coisa, sentiu-se capaz e não fez! O trem passou na
sua frente? Pula, entra. Se o trem bateu no muro, você saiu
vivo? Pula fora. Tem outro trem? Tem, mas está mais longe.
Está bom, então vamos andar para o outro. Ser empreendedor
é um estilo de vida, um modo de encarar a vida que se reflete
nas empresas e nas coisas. Empreendedores são pessoas que
acreditam nelas próprias e que têm vontade de fazer
coisas.
É difícil
empreender no Brasil?
De um lado sim, a gente não tem crédito, não
tem apoio de uma sociedade que acha empreender legal. Nem isso a
gente tem. O pai acha que você é louco, a namorada
fica apavorada... Mas está melhorando. É muito difícil
entrar. Para quem já entrou, porque tem autoconfiança,
esquece. O mundo é contra? Azar o mundo. É um processo
tão interno e tão forte que, quando o cara resolve
fazer, já está contra o mundo e não liga mais.
Ser empreendedor no Brasil não é fácil, mas
é uma grande oportunidade. Nos Estados Unidos, existe apoio,
cursos, financiamento e socialmente você é reconhecido.
Onde você for vai ter uma empresa -- milhões de americanos
fazendo isso, disputando aquele mesmo crédito. Então,
no frigir dos ovos, não é tão má idéia
empreender no Brasil, porque há muita oportunidade, muita
coisa para ser feita, tem um super mercado. Se você acerta
a mão, tem chance. Mas o primeiro grande contra é
o governo. Todos os governos, municipal, estadual e federal.
Por que o governo é
contra?
É uma questão filosófica. Não é
a questão de quantos dias leva para abrir uma empresa, quantos
dias leva para fechar, é tudo isso e mais do que isso: existe
uma grande entidade, ou várias, que estão ali para
te atrapalhar. Deveria ser o contrário.
Que grande entidade?
O governo de uma maneira geral. Banco só empresta dinheiro
para quem já tem e para quem, teoricamente, não precisa.
Isso não gera condições, mas não atrapalha
tanto. O governo sim atrapalha muito. Gera custos e problemas. É
um grande gerador de problemas e um quase nulo gerador de soluções.
Os empreendedores apontam falta de capital como o grande problema.
Ele é mesmo, em alguns casos, quando é negócio
que precisa de capital intensivo. Mas tem uma outra coisa que se
soma aqui: a criatividade. Quantas coisas não surgem e acabam
conseguindo capital. São financiados de jeitos absolutamente
criativos, o que, em outro lado do mundo, não dá.
Você falou de realização
e estilo de vida, mas também não é importante
ganhar o dinheiro?
É super importante. Pensar, planilhar, ter o pé no
chão. Mas o que a gente mais vê hoje em dia é
gente que investiu anos somente para ganhar dinheiro. Conseguiu
e aos 40, 50 anos chega num super vazio: o que eu fiz da vida? Que
papel tenho nessa vida? Não tem, ele descobre. Empreender
é uma atitude, é ir a luta, buscar coisas e ter satisfação
pessoal com isso. Empreender é um ato absolutamente egoísta
e egocêntrico, mas é o melhor caminho para o desenvolvimento,
para a igualdade social, para abaixar corrupção, para
tudo isso. Não significa necessariamente ter empresa. Tem
gente que tem uma atitude empreendedora face à vida, trabalha
para os outros, mas sua vida é tocada por realizações.
Empreender é uma atitude, não só no sentido
empresarial, é ser o empreendedor do seu sonho.
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