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Sábado :: 31 / 07 / 2010

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31 de julio de 2010
PALAVRA DE ESPECILISTA


"O governo atrapalha muito. É um grande gerador
de problemas e um quase nulo gerador de soluções"

Bob Wollheim acredita que empreender é um estilo de vida, um ato ''absolutamente egoísta e egocêntrico, mas é o melhor caminho para o desenvolvimento, para a igualdade social''. Empreendedor compulsivo, Bob é um dos pioneiros do mundo pontocom. Sua única experiência fora do empreendedorismo foi como presidente da StarMedia, portal Latino Americano da Web, período no qual pode viver de perto, em Nova York, o boom da rede mundial de computadores, no papel de um dos principais executivos da empresa. Em pouco tempo voltou para o Brasil para criar a Idea.com e levantou US$ 7 milhões para captar negócios na Web. Alguns meses depois, a bolha da Internet estouraria. Hoje, com a Ideia.com num novo formato e inúmeros projetos, Bob fala sobre sua trajetória e sobre empreendedorismo ''um modo de encarar a vida que se reflete nas empresas e nas coisas''.

Depoimento a Adriana Abelhão

Qual sua trajetória como empreendedor?
Nasci em Porto Alegre e vim com cinco anos para São Paulo. Estou com 42 anos. Logo que saí da Fundação Getúlio Vargas, onde fiz graduação em Administração de Empresas, comecei um estágio na Ford. Meu pai era um executivo de outra multinacional, a Santa Marina, do grupo francês Saint-Gobain. Ele trabalhou lá 40 anos. Essa minha experiência na Ford, junto à experiência do meu pai, sobre o mundo corporativo nas empresas, sobre os jogos políticos que existem nessas organizações, que têm pouquíssimo a ver com o negócio em si, me fez ainda muito jovem tomar uma decisão: eu queria um negócio meu. Então, montei, com mais dois colegas da faculdade, minha pequena empresa de design gráfico, a Publi/3.

Quanto tempo você esteve lá?
Fiquei dois anos mais ou menos. Mas eu achava que não iríamos crescer. As empresas crescem porque tem tamanho ou porque têm relevância. Existem empresas pequenas e relevantes, que faturam bem. A gente não tinha nem um, nem outro. Atendemos alguns clientes legais, como a American Express, o Grupo Ticket, mas não tínhamos um diferencial. Em 1997, no começo do CD-Room e da Internet, ninguém percebia a oportunidade que havia ali. Não inventei nada. Não sou o tipo de empreendedor que inova ao criar produtos. Talvez eu consiga observar as tendências e não tenha dificuldades em aderir a alguma coisa enquanto todo mundo acha que estou louco. Não inventei, aproveitei. Desfiz a sociedade da Publi/3 e criei a Yes!Design. Toquei essa empresa durante dois anos. Como ela tinha diferencial, era uma dentre as poucas produtoras voltadas para a Web no Brasil, pegamos logo a conta das Pernambucanas, grande empresa do comércio varejista, depois um pedaço da multinacional anglo-holandesa Unilever no Brasil. Então começou a acontecer. Percebi de novo que não crescia, mas dessa vez por falta de capital. Dois anos depois, com clientes maiores, faturando, busquei internacionalizar a empresa. Vendi a Yes!Design para a Poppe Tyson, que fazia a mesma coisa que eu, só que era uma multinacional dos Estados Unidos, tinha escritórios em Londres, na Malásia, na Austrália. Virei a Poppe Tyson no Brasil. Um ano depois, quando percebi que tinha feito uma boa transição, a Poppe Tyson foi vendida para a Modem Media, uma agência de serviços de marketing, especializada no mercado digital. Acabei ficando aqui no Brasil como o diretor geral da empresa e embora não fosse mais sócio, tinha que tocá-la como se fosse. Às vezes não tinha dinheiro para pagar os salários e tinha que botar do meu bolso, porque os caras da Modem Media não me davam bola. Saí. Foi quando fiz o que chamo de o meu MBA (Master in Business Administration). Chamo meu emprego na StarMedia de MBA porque, às vezes, estar empregado pode ser a melhor escola. Fiquei um ano e meio mais ou menos nos Estados Unidos, em Nova York. Primeiro, tirei o peso de empreender -- empreender não é só coisa boa, é muito complicado, muito pesado, você carrega um piano todos os dias.

Então, nesse momento você decidiu parar de empreender?
Foi. No quinto dia útil do mês, eu precisava receber um cheque e não pagar seis, sete, oito, quinze cheques. Às vezes não tinha dinheiro. Isso consome as pessoas. As pessoas tendem a falar pouco disso, tendem a fazer romance, exploram o lado do sucesso e tal, mas em muitos momentos isso é muito desgastante. Fiquei dois anos no StarMedia. Era o auge do boom pontocom. A StarMedia abriu o capital e participei disso. Ao final de 1999, meu lado empreendedor começou a voltar. Eu não era sócio da StarMedia, mas comecei agir como se fosse. Comecei a ter algumas brigas com a direção. Olhava o Brasil e me parecia que o País nunca havia estado tão bem. Pedi a conta. Voltei ao Brasil e montei uma empresa chamada Ideia.com, que se propunha a fazer investimentos em pequenas empresas na Internet. Eram empresas de tecnologia, na área de comunicação, educação, vários segmentos. Isso culminou em 2002 com a Ideia.com em um novo formato.

Mas não era uma ótima oportunidade estar lá, na StarMedia?
Era. Mas eu estava batendo a cabeça no topo da empresa. Outro dia me perguntaram se o empreendedor é um cara que gosta do risco. Acho que não. O empreendedor é um autoconfiante. Ele pensa que se ele mesmo tocar a empresa existem riscos menores do que se ela for tocada por outro. Na StarMedia, cheguei à conclusão de que ser tocado por uma direção passou a ser mais arriscado do que tocar meu próprio negócio. Os pretensos empreendedores costumam dizer assim: se você me der a sua conta publicitária ou se você virar o meu cliente, saio do meu emprego maravilhoso, numa multinacional, e monto uma empresa que vai ser do ***. O verdadeiro empreendedor não pensa assim. Ele sai e depois liga e fala: eu saí. Do outro lado da linha, vem a pergunta: você é louco? Não, mas agora preciso de você como cliente, responde o empreendedor. O risco é do empreendedor. Voltei para o Brasil sem nada. Sem cliente, só com o meu dinheiro pessoal. Montei a Ideia.com e depois levantei US$ 7 milhões para fazer investimentos em outras empresas.

Capital de risco?
Capital de risco americano, de um fundo. Dois meses depois veio a crise pontocom. Ficamos pouquinho tempo na euforia. Demorou alguns meses para as pessoas acharem que a crise seria duradoura e que ela tinha vindo para ficar. Talvez um ano. Em meados de 2001 foi quando todo mundo percebeu. A partir de 2002, entrei numa nova fase, da qual as pessoas não gostam de falar muito, que é a fase de desconstruir. Também não gosto de falar, muito menos de fazer. Comprei a parte dos meus sócios e fechei várias empresas. Demiti um monte de gente, enxuguei o que tinha que enxugar.

Você voltou para o Brasil. Chegou aqui e encontrou esse ambiente desfavorável, poucos meses depois. Você se arrependeu?
Não, de jeito nenhum. Isso não é discursinho bonito. Fiz uma caída rápida, porque pedi a conta e não tinha nada, mas em pouquíssimos meses voltei, para cima do que eu estava. Consegui investidor. Daí veio a crise e eu pumba! Talvez pela minha vivência, tudo aconteceu sem loucuras e sem mortos pelo meio do caminho. Meu caminho não foi nebuloso, foi uma circunstância da crise do momento. Talvez uma questão de incompetência minha, de dentro dessa crise querer transformar o limão numa limonada. Cabe-me essa autocrítica. Alguns caras perceberam e transformaram tudo numa outra coisa e conseguiram se reerguer. Eu não consegui. Mas, independente disso, o prazer de estar pilotando essa coisa, seja subida ou descida, o prazer de ter visto a oportunidade e de me sentir capaz, ter corrido atrás e ter feito, é muito maior do que o fato dela não ter dado certo. Se estivesse sentado lá até hoje, morando em Nova York, seria um daqueles caras que disseram: ''eu sabia que ia dar errado''. Mas você participou? Você viveu? Teve a chance? Você olhou a coisa, sentiu-se capaz e não fez! O trem passou na sua frente? Pula, entra. Se o trem bateu no muro, você saiu vivo? Pula fora. Tem outro trem? Tem, mas está mais longe. Está bom, então vamos andar para o outro. Ser empreendedor é um estilo de vida, um modo de encarar a vida que se reflete nas empresas e nas coisas. Empreendedores são pessoas que acreditam nelas próprias e que têm vontade de fazer coisas.

É difícil empreender no Brasil?
De um lado sim, a gente não tem crédito, não tem apoio de uma sociedade que acha empreender legal. Nem isso a gente tem. O pai acha que você é louco, a namorada fica apavorada... Mas está melhorando. É muito difícil entrar. Para quem já entrou, porque tem autoconfiança, esquece. O mundo é contra? Azar o mundo. É um processo tão interno e tão forte que, quando o cara resolve fazer, já está contra o mundo e não liga mais. Ser empreendedor no Brasil não é fácil, mas é uma grande oportunidade. Nos Estados Unidos, existe apoio, cursos, financiamento e socialmente você é reconhecido. Onde você for vai ter uma empresa -- milhões de americanos fazendo isso, disputando aquele mesmo crédito. Então, no frigir dos ovos, não é tão má idéia empreender no Brasil, porque há muita oportunidade, muita coisa para ser feita, tem um super mercado. Se você acerta a mão, tem chance. Mas o primeiro grande contra é o governo. Todos os governos, municipal, estadual e federal.

Por que o governo é contra?
É uma questão filosófica. Não é a questão de quantos dias leva para abrir uma empresa, quantos dias leva para fechar, é tudo isso e mais do que isso: existe uma grande entidade, ou várias, que estão ali para te atrapalhar. Deveria ser o contrário.

Que grande entidade?
O governo de uma maneira geral. Banco só empresta dinheiro para quem já tem e para quem, teoricamente, não precisa. Isso não gera condições, mas não atrapalha tanto. O governo sim atrapalha muito. Gera custos e problemas. É um grande gerador de problemas e um quase nulo gerador de soluções. Os empreendedores apontam falta de capital como o grande problema. Ele é mesmo, em alguns casos, quando é negócio que precisa de capital intensivo. Mas tem uma outra coisa que se soma aqui: a criatividade. Quantas coisas não surgem e acabam conseguindo capital. São financiados de jeitos absolutamente criativos, o que, em outro lado do mundo, não dá.

Você falou de realização e estilo de vida, mas também não é importante ganhar o dinheiro?
É super importante. Pensar, planilhar, ter o pé no chão. Mas o que a gente mais vê hoje em dia é gente que investiu anos somente para ganhar dinheiro. Conseguiu e aos 40, 50 anos chega num super vazio: o que eu fiz da vida? Que papel tenho nessa vida? Não tem, ele descobre. Empreender é uma atitude, é ir a luta, buscar coisas e ter satisfação pessoal com isso. Empreender é um ato absolutamente egoísta e egocêntrico, mas é o melhor caminho para o desenvolvimento, para a igualdade social, para abaixar corrupção, para tudo isso. Não significa necessariamente ter empresa. Tem gente que tem uma atitude empreendedora face à vida, trabalha para os outros, mas sua vida é tocada por realizações. Empreender é uma atitude, não só no sentido empresarial, é ser o empreendedor do seu sonho.

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