Publicidade

Publicidade

Brasil :: Página inicial >

Sábado :: 31 / 07 / 2010

SERVIÇOS ::

31 de julio de 2010
PALAVRA DE ESPECIALISTA


"Programas de intra-empreendedorismo, na verdade, são programas de produtividade e felicidade" , afirma a sorridente Gina Paladino

Entrevista a a Adriana Abelhão

Gina Gulineli Paladino é economista, diretora do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) do Paraná, instituição ligada à Confederação Nacional das Indústrias (CNI), que tem como foco apoiar as empresas quanto à capacitação, pesquisa e inovação tecnológica. Gina fala conosco sobre intra-empreendedorismo, um programa ?de produtividade e de felicidade? que ajuda a empresa a ganhar mais dinheiro e, ?de quebra, vai deixar as pessoas mais felizes?. Para ela, empreendedorismo também se aprende na escola e a empresa que já percebeu que investir nas capacidades empreendedoras de seus funcionários é um bom negócio, faz diferença entre ganhadores e perdedores.


O que é intra-empreendedorismo?
Existe o empreendedor por oportunidade, que é o empreendedor clássico. Ele identifica um nicho de mercado, um produto, e se lança em um negócio por conta própria. É o dono do capital e vai se apropriar do resultado da atividade. O intra-empreendedor atua dentro de uma empresa. Ele não é o proprietário das máquinas e dos equipamentos, do capital ? o que não significa que ele não possa, dentro daquela organização, desenvolver um projeto ou um produto. As qualidades e características do empreendedor e do intra-empreendedor vão ser as mesmas: auto-estima, capacidade de argumentação, capacidade de decidir por conta própria, capacidade para correr riscos. O mais importante no intra-empreendedorismo é identificar e desenvolver as características empreendedoras das pessoas.

É possível aprender a ser criativo e empreendedor?
Sim, as características empreendedoras podem ser desenvolvidas. Não é preciso nascer com elas. Empreendedorismo, criatividade e inovação estão sempre juntas. No caso do empreendedorismo, existem práticas, treinamentos e cursos para ajudar a pessoa a desenvolver essa capacidade, se ela quiser e gostar. No caso da criatividade, a questão é um pouco mais complexa. Passa por questões da educação, da psicologia e do ambiente. Hoje, há empresas que realizam ateliês de criatividade, com profissionais do mundo inteiro e do Brasil. Não estou falando da criatividade artística. Os artistas obviamente são criativos por excelência. Estou falando da criatividade produtiva, dentro das empresas.


O que é feito nesses ateliês de criatividade?
Existe muito instrumental trabalhando imagem e percepção. Por exemplo, as pessoas assistem a um filme. Será que todo mundo enxergou a mesma coisa? Percebeu um detalhe aparentemente oculto? Nós temos uma lente viciada pela escola, pelos valores, pela família. Não conseguiremos enxergar coisas diferentes se não colocarmos outra lente nos olhos. É a visão do diverso, do aparentemente oculto, do diferente. Por exemplo, um copo só serve para tomar água? Quantos usos para um copo o ser humano é capaz de fazer? Até hoje, repertoriados, há 132... Num ateliê de criatividade, pode-se chegar a 20, 30 desses usos. Por que não chegamos a 132? São levantadas questões como essa. Você está no domínio da criatividade e a linha divisória entre a criatividade e a inovação é muito tênue. Dentro das empresas, a criatividade está focada. E se uma solução, proposta por um funcionário virar um produto ou um serviço, uma coisa nova no mercado, já virou inovação. Da criatividade, passo para a invenção e para a inovação. Nesses ateliês de criatividade, dependendo de como for monitorado o trabalho, geralmente feito em grupos de 15 a 20 pessoas, no terceiro dia já existem produtos novos, criados por pessoas que nunca antes tinham inventado um produto.


O que acontece com a pessoa quando ela vai para um ambiente desses, descobre esse novo olhar, e depois volta para a empresa?
Algumas empresas já descobriram que a inovação é um diferencial competitivo essencial para continuarem liderando nos seus mercados. Elas sabem que daí vão sair soluções úteis e rentáveis. Essa é a diferença entre os ganhadores e perdedores no mundo moderno. Por que funciona com essas mentes que participam desses ateliês? Porque elas vão ser cobradas para serem criativas.

Isso acontece nas grandes empresas?
No Brasil, criatividade e intra-empreendedorismo é assunto das empresas grandes, em sua maioria multinacionais. O setor de atuação também é importante. O intra-empreendedorismo está ligado diretamente a produtos de uso pessoal. São empresas voltadas para beleza, criança, brinquedo, perfumes, limpeza, produtos de consumo individualizados. No caso dos setores onde os processos são fundamentais, como por exemplo nos bens de capital, insumos e matérias primas, a criatividade individual daquele colaborador específico é menos importante. Nessas empresas é essencial a competência de um grupo de especialistas e pesquisadores que desenvolve um novo processo, uma nova máquina ou uma nova solução. O professor pardal, que é o paradigma da criatividade do indivíduo, é menos capaz de ter uma solução para um fluxo complexo de produção de papel e celulose ou de uma siderúrgica. Nesses casos, o conhecimento científico e tecnológico, acumulado nas universidades, é fundamental. Nesse caso nós estamos num modelo puro de inovação, que é tecnologia, pesquisa e inovação, e não de criatividade. Mas no setor produtivo, industrial, é fundamental contar sim com pessoas criativas e empreendedoras. O empregado pode arranjar um calço para uma máquina, o que vai permitir que ela ande um metro a mais por hora. E isso pode ser importantíssimo para ganhar do concorrente.


Vale o mesmo para uma empresa de base tecnológica?
O empreendedor de base tecnológica já é um ente diferenciado. Aquele menino que saiu do mestrado de eletrônica e está criando uma empresa já tem um diferencial enorme em relação aos 99,9% que não se destacaram para isso. Ele já é um empreendedor, já está salvo. Não vai morrer de tédio, nem de fome. Quando se discute a questão do intra-empreendedorismo, estamos falando da média e da grande empresa. Estou interessada naqueles milhares de colaboradores, que diariamente se dirigem para as médias e grandes organizações para passarem um dia de tédio, cumprirem normas e regras e não questionar nada. O desafio fundamental do intra-empreendedorismo é a competitividade industrial do Brasil e o quanto as empresas podem de fato ganhar dinheiro. Não estou falando que vão fazer isso por poesia. Elas podem realmente ganhar dinheiro estimulando e criando ambientes criativos e inovadores em seus diferentes níveis. A mulher do cafezinho pode sim ter uma solução interessante para servir. Ela conhece aquele negócio e temos que permitir que isso aconteça. As pessoas com certeza, de quebra, vão ficar mais felizes. Na verdade trata-se de um programa de produtividade e felicidade.


Como é a premiação ou remuneração das iniciativas inovadoras dos funcionários no intra-empreendedorismo?
Cada caso é um caso e cada setor, tamanho de empresa e negócio tem suas particularidades. As premiações podem ser individuais, mas as organizações estão estimulando também equipes criativas, inovadoras e empreendedoras. Esse modelo só vai funcionar bem se for ganha-ganha. Tudo bem, nós vamos crescer 100, mas vocês vão ganhar 10, 20. A empresa vai ter que criar uma coisa muito própria e muito compatível com a sua cultura organizacional. A empresa de alimentos de Curitiba pode ter uma cultura muito diferente da mesma empresa que produz o mesmo produto lá na Bahia. Uma negociação que reduz a jornada de trabalho para o funcionário ir à praia mais cedo às sextas-feiras em Salvador vai deixar o funcionário muito mais feliz. Aqui em Curitiba não vai funcionar de jeito nenhum.

Existem riscos na implantação desse ambiente intra-empreendedor? O inovador quebra regras, pode invadir a área de um colega, criar conflitos. Pode chegar um momento no qual ele vai embora da empresa, porque quer montar a sua própria empresa. Como as empresas lidam com isso?
Essa história toda tem limites e algumas regras. Há regras, projetos, responsabilidades. Tem muito pouco risco nesse sentido, porque existem limitações e normas. O segundo risco é importantíssimo. Essas pessoas, depois que você destampou a panela de pressão do cérebro delas, e da felicidade, elas vão embora. A parede ficou muito estreita. A experiência não está mostrando que eles saem em massa das empresas. Mas alguns saem. Mais, as empresas estão aprendendo como tirar proveito desses espaçosos e estão estimulando-os para que criem empreendimentos e negócios que as beneficiem. São as chamadas terceirizações corporativas. O indivíduo já conhece a minha organização, começa a ficar espaçoso, então, cria um negócio aqui na esquina. Nós íamos fazer aqui dentro, mas não vamos fazer mais e você faz. A empresa vai perder alguns funcionários, mas vai se aproveitar disso e criar empreendimentos. Por que não?

-----------------------------------------------------------------

Leia Também:

O presidente da Pele Nova conta aqui a aventura de montar uma
empresa
de base tecnológica que tem orgulho de ser brasileira



Conheça também os canais Universia: Carreira e Pesquisa


Inove! - Empreendedorismo de Base Tecnológica - © 2004 - Direitos Reservados

Links patrocinados