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O que faz os Ricos ricos: um estudo sobre os fatores que determinam a riqueza

Tese de doutorado de Marcelo Medeiros

Marcelo Medeiros, autor da tese

Título oficial da tese: O que faz os Ricos ricos: um estudo sobre os fatores que determinam a riqueza

Autor: Marcelo Medeiros é formado em Economia pela UnB (Universidade de Brasília). Fez mestrado e doutorado em Sociologia pela mesma universidade. Além disso, é pós-graduado em Econometria e Análises Multivariáveis. É coordenador da equipe do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) no Centro Internacional de Pobreza da ONU (Organização das Nações Unidas).

Objetivo: Estudar a desigualdade no Brasil através dos ricos. "Olhando os ricos eu consigo explicar, em parte, porque o Brasil é tão desigual", aponta Medeiros.

Tempo de elaboração: 5 anos

Processo de elaboração: Segundo Medeiros, o tema que ele escolheu tem um elemento político muito forte. "Eu tinha um problema, quando se tem um elemento muito sujeito a debate político, a metodologia deve ser bastante sólida", explica.

Não existiam estudos prévios sobre ricos no Brasil, por isso havia uma dificuldade de definição de grupo. Medeiros definiu uma estratégia para trabalhar na tese: utilizar métodos ortodoxos de estudos da pobreza para estudar a riqueza. "Eu estaria usando um campo que é muito bem consolidado nas Ciências Sociais para estudar um tema que, praticamente, não é estudado", conta. 

Além disso, o estudo deveria ser baseado em dados sólidos, como os do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Porém, as pesquisas do IBGE não foram feitas para estudar ricos. "Tive que fazer uma série de adaptações, estudar coisas que sequer aparecem direito na tese, por exemplo, como é que são os detalhes de realização da pesquisa. Desenvolvi um método que me permitiu ter representatividade estatística enquanto eu estudava um grupo muito pequeno: os ricos", explica o pesquisador. Marcelo passou por diversos obstáculos metodológicos, uma vez feito isso, só tinha que definir hipóteses e começar a trabalhar. 

Aplicação prática: "Eu trabalho em um lugar onde o que eu faço é, basicamente, aplicação prática para tudo. A tese, no entanto, não tem um objetivo instrumental", conta Medeiros. 

Segundo ele, o que a pesquisa oferece é subsídio para uma discussão muito maior, que é definir para onde você orienta os rumos do desenvolvimento nacional. 

O que pretende fazer agora: "Continuar no Centro de Pobreza, pois a responsabilidade moral e idealista é grande. Provavelmente eu nem trabalhe mais com ricos especificamente, na verdade eu só os estudei para entender melhor a desigualdade, um assunto com o qual pretendo continuar trabalhando", comenta Medeiros.

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A tese: Para Medeiros, a tese é um primeiro passo que nunca teve a pretensão de trazer respostas muito consolidadas, mas que serve muito mais para alavancar estudos futuros. Além disso, a dificuldade em usar literatura anterior foi grande, porque praticamente ela não existia no Brasil.

"Seguindo a estratégia que eu adotei, hoje não tenho uma resposta para dizer porque os ricos são ricos. O que eu consegui fazer foi derrubar uma série de hipóteses do senso comum", explica Medeiros. 

Algumas das hipóteses que a pesquisa rejeitou foram: os ricos são ricos porque trabalham muito mais do que os outros; são ricos porque controlam o tamanho da família; são ricos porque têm educação de qualidade e conseguem os melhores postos de trabalho; e assim por diante. 

Quando essas hipóteses são cercadas, você chega no campo de especular. "O que a gente pode especular é que as pessoas são ricas, em parte, porque tiveram uma educação de elite, não só nível superior, mas nas melhores escolas. É possível especular algo em relação à herança de patrimônio e também o fato de se ter uma excelente rede de relações sociais e por isso ter acesso aos melhores postos de trabalho", aponta o pesquisador. 

Apesar do tema estudado ser bastante abstrato, leva a uma conclusão clara: de que existe desigualdade no Brasil muito elevada e para reduzi-la será necessário fazer redistribuição de renda e não só distribuição do que crescer. "Você vai ter que transferir de um grupo para outro, o que significa afetar os grupos mais ricos. Para acabar com a pobreza, isso deverá ser seguido, é uma questão de aritmética e não só desejo político. Não é fácil resolver o problema, o fato é que o caminho está definido. Se ele é possível de ser seguido ou não, aí é outra história", conta Medeiros. 

"Tem uma série de coisas que você começa a especular. Na minha opinião, abre portas para estudos futuros. Acredito que algumas pessoas vão poder fazer melhor do que eu fiz e ir adiante analisando com mais detalhes e outros tipos de dados", conclui.

Medeiros ganhou, com esse estudo, o prêmio de melhor tese do Brasil pela Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais). Para ele, alguns fatores são responsáveis por essa conquista. "Eu tive vários privilégios. Um orientador excelente, o professor Brasilmar Nunes, que teve uma participação muito importante em meu trabalho. Fui aluno em um ótimo curso de pós-graduação. Também tive o privilégio de trabalhar no Ipea com os maiores especialistas do Brasil em desigualdade social. O reconhecimento da Anpocs diz respeito a tudo isso. Ninguém faz ciência sozinho, o prêmio veio para todos nós. Para mim e para as pessoas dessas instituições o prêmio foi uma grande alegria, um incentivo para o futuro", analisa.

Segundo Medeiros, ao premiar a tese, a Anpocs está reafirmando o papel que a pesquisa aplicada sempre teve nas Ciências Sociais brasileiras. "Existe uma tradição muito forte na sociologia brasileira de fazer pesquisa orientada à solução de problemas sociais e a premiação é um sinal de que isso está se tornando uma prioridade cada vez maior", verifica o premiado.

Considerações finais: "Você não consegue explicar porque os ricos são ricos por via da composição de família; simplesmente por nível educacional geral ou atributos do mercado de trabalho. Então eu fechei uma série de portas e deixei outras portas abertas para alguém vir depois e fazer direito o que eu não consegui fazer", brinca Medeiros.

"Eu nunca tive certeza de que eu teria a resposta definitiva para essas coisas, sempre soube que estava fazendo exploração inicial. É mais ou menos o que aconteceu com os estudos de pobreza na década de 70, eles foram melhorados paulatinamente. O importante era que alguém começasse, alguém começou e eles foram melhorados sistematicamente", finaliza.