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O clima do Brasil e do mundo

Entrevistado: Antônio Divino de Moura, diretor do Instituto Nacional de Metereologia

Publicado em 29/09/2003 - 14:06

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Por Jurandira Gonçalves *

Atual diretor do Instituto Nacional de Metereologia (INMET), em Brasília, Antônio Divino de Moura é um dos ex-alunos da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) de maior expressão no cenário científico internacional. Foi presidente do programa intergovernamental Tropical Ocean Observing System - TOGA, tendo participado então das pesquisas que permitiram estabelecer a origem de fenômenos como o El Niño e La Nina. Foi, também, membro fundador e diretor, durante seis anos, do Instituto Internacional de Pesquisas em Mudanças Climáticas (IRI), onde é desenvolvida ciência de ponta relativa à modelagem e previsão climática. Graduado em Engenharia Elétrica, na turma de 1969, Moura foi um dos homenageados este ano na quarta edição do programa Sempre UFMG, indicado pela Escola de Engenharia como um ex-aluno ilustre. Nesta entrevista, ele falou sobre a situação do campo da metereologia no Brasil e sobre seus planos à frente do INMET.

Qual sua opinião sobre o desenvolvimento da pesquisa científica no Brasil, em relação à época em que se graduou?
Antônio Divino:
Quando me formei, o Brasil era extremamente incipiente na pesquisa em metereologia. Fui o primeiro brasileiro a ter Phd na área. Havia apenas uma escola de graduação, enquanto hoje elas são seis e, a maioria, com mestrado e doutorado. Houve um avanço muito grande. A pesquisa sobre clima no Brasil, hoje, é considerada, sob vários aspectos, como de Primeiro Mundo. Avançou principalmente no sentido do reconhecimento dos quatro climas típicos do Brasil: o semi-árido, onde temos o problema da seca, o clima tropical, com o problema das geadas, o clima amazônico, com a análise dos efeitos da retirada da floresta, e o clima da região dos cerrados, onde há um grande potencial agrícola através da correção da acidez dos solos. Houve avanços em pesquisas específicas para cada região. Hoje o Brasil tem pesquisas de qualidade publicadas em revistas especializadas internacionais.

Qual linha de ação irá seguir, e quais seus principais planos como diretor do Instituto Nacional de Metereologia (Inmet)?
Antônio Divino: Implementar os dados mais recentes colhidos na área de metereologia. O Instituto me dá a oportunidade de pegar um órgão de governo, onde a coisa é incipiente, e trazer, por exemplo, uma parceria com um instituto do porte do IRI (Instituto Internacional de Pesquisas sobre Previsões Climáticas). É preciso melhorar a previsão climática no Brasil e fazer a ponte entre previsão climática e agricultura. Esse é nosso carro chefe! É preciso avançar o conhecimento científico, junto com as universidades. Queremos melhorar a questão do zoneamento agroclimático, para que se possa reconhecer a melhor aptidão de cada área, para determinadas culturas e vice e versa. É preciso mapear cenários onde culturas possam se adaptar. O programa integrado da questão metereológica com a agricultura pretende unir vários parcerios e já desenvolvemos trabalhos com a Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária), Embrapa, Unicamp, Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), Instituto de Pesquisas Espaciais etc., e pretende atuar junto ao "Fome Zero". A questão da saúde pública é outra ênfase. Podemos trabalhar com a prevenção e com o alerta de doenças causadas pelo clima, como males respiratórios, dengue, malária, etc. Podemos abrir um caminho para a atuação dos órgãos responsáveis. Outro foco é a parceria com a defesa civil para trabalhar com possibilidades de, por exemplo, secas muito fortes principalmente no Nordeste, para diminuir o desgaste para a população atingida.

Como os problemas ambientais, como o efeito estufa e o buraco da camada de ozônio, estão interferindo no clima da Terra?
Antônio Divino:
As principais interferências no clima da Terra vêm do mar. Nós criamos ozônio (carros, fábricas, etc) que causa problemas para os homens, como diversas doenças. O ozônio que forma a camada que nos protege dos raios ultravioletas é o ozônio estratosférico, formado pelo bombardeamento das radiações do sol. Os gases CFCs reagem com esse ozônio e desfazem sua estrutura, gerando, assim, o buraco da camada de ozônio. Mas esse problema tem diminuído consideravelmente graças aos acordos que proíbem a emissão de gases CFCs. O efeito estufa, no entanto, é uma questão de mais difícil controle, pois seu maior causador é o vapor de água. O fenômeno é necessário para nossa sobrevivência e para que não morramos de frio. O que é prejudicial é o chamado efeito estufa adicional, que interfere no nível médio dos mares, na temperatura ambiental e prejudica, principalmente, as regiões insulares.

Mas não existem novos estudos ou projetos para reduzir o problema do efeito estufa?
Antônio Divino:
Existem. O problema do efeito estufa é que ele se insere numa questão econômica. Enquanto não houver uma matriz econômica melhor, que substitua, ou ao menos diminua o uso do petróleo, o efeito não será reduzido. O efeito estufa adicional e o problema das mudanças climáticas extrapolou o meio acadêmico e tornou-se uma questão política. É preciso que os países acordem, desenvolvam novas políticas públicas e busquem novos recursos e alternativas para sanar o problema do abastecimento de energia, sem implicar em conseqüências catastróficas para o planeta.

Outra questão muito discutida é o impacto do desmatamento da Amazônia no clima. Quais as principais conseqüências disso?
Antônio Divino: O maior problema da retirada da floresta é a perda da diversidade biológica. Sem a cobertura vegetal, o clima se torna mais quente e a precipitação mais intensa, aumenta a probabilidade de erosão com o conseqüente desgaste do solo. Os efeitos podem atingir toda a América Latina. Mas é importante enfatizar que não há provas de grandes mudanças a nível global. Afinal, vivemos no planeta água e as maiores alterações climáticas são provocadas por fenômenos oceânicos.

Quais são os principais avanços na área da metereologia?
Antônio Divino: No Brasil, nos últimos 10 anos, essa área teve um progresso acelerado. Hoje pretende-se criar um mecanismo de cooperação entre o Inmet e o INPE (Instituto nacional de Pesquisas Espaciais), que tem um laboratório com supercomputadores que ajudam na previsão do tempo. Em âmbito mundial, temos os trabalhos do IRI, o projeto Toga, e as pesquisas do PCC, que é um Painel Intergovernamental com mais de 2.000 cientistas. As pesquisas estão avançadas no sentido das escalas de mudanças climáticas. Foi montado no Japão o maior supercomputador do mundo, com 520 supercomputadores interligados, que simulam o clima do mundo a cada 5 quilômetros, por milhares de anos, e permitem que se possa analisar esse clima e seus fenômenos.

E os avanços técnicos? O Brasil tem apresentado evolução nessa área?
Antônio Divino: O Brasil está engatinhando na questão da tecnologia de seus próprios satélites. O país desenvolve um programa com a China, para sensoriamento remoto, e já pretende lançar outro. Mas ainda são necessários a injeção de recursos e o melhor gerenciamento desses recursos e do conhecimento. Em nível global, os avanços técnicos são muitos. Existem satélites para monitorar oceanos, massas de ar, presença de clorofila no oceano etc. As fotografias por satélites já têm resolução da ordem de centímetros, distinguem objetos e permitem o mapeamento das atividades que ocorrem na superfície.

* Do departamento de Comunicação Social da UFMG

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