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Livros sobre a vida, seus desafios e mistérios

A escritora Lya Luft conta, em entrevista ao Universia, sua não tão grata experiência como docente e fala da importância da leitura

Publicado em 21/06/2004 - 02:00

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Não deixe de ler

Por Crislaine Coscarelli

Lya Luft nasceu em 1938, na cidade de Santa Cruz do Sul (RS), de colonização alemã. Na escola as crianças da cidade utilizavam livros vindos da Alemanha e por esse incentivo aos onze anos Lya decorava poemas de Goethe e Schiller.

É formada em pedagogia e letras anglo-germânicas pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) e é mestra em literaturas brasileira e portuguesa pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Iniciou sua vida literária nos anos 60, como tradutora de literaturas em alemão e inglês. Já traduziu para o português mais de cem livros, entre eles destacam-se traduções de Virginia Wolf, Reiner Maria Rilke, Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass, Botho Strauss e Thomas Mann. 


A vida amorosa influenciou muito no seu trabalho. Conheceu Celso Pedro Luft, seu primeiro marido, quando tinha 21 anos em uma prova de vestibular. Ele tinha quarenta e era irmão marista. Ele tirou a batina para casar com ela em 1963. Inspirada começou a escrever poesias. Os primeiros poemas foram reunidos no livro "Canções de Limiar" (1964).

Depois de sofrer um acidente automobilístico quase fatal em 1979 começa a escrever romances. A autora diz que a experiência a levou a começar a fazer tudo que evitava.

Separou-se de Celso Pedro Luft em 1985 e foi viver com o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino, que morreu três anos depois. Em 1992 voltou a casar-se com o primeiro marido, de quem ficou viúva em 1995.

Seus livros em geral falam de relações familiares conturbadas, traumas da infância e suas seqüelas na vida adulta.O mais recente deles é "Perdas & Ganhos" (2003 - Editora Record).

Em entrevista exclusiva ao Universia, Lya Luft fala de sua experiência como docente e da importância da literatura para qualquer formação.

Universia - O prêmio concedido pela Fundação Conrado Wessel, já está sendo considerado por muitos como o "Nobel Brasileiro". Como é para a senhora ser a escolhida deste ano na categoria Literatura?
Lya Luft -
Uma honra, uma surpresa. A cerimônia foi solene e bonita, com personalidades importantes na platéia e entregando os prêmios, inclusive o Ministro da Cultura e o presidente da ABL (Associação Brasileira de Letras).Os demais ganhadores foram todos de altíssima categoria, cientistas famosos internacionalmente.

Universia - Conte um pouco sobre a sua experiência como docente. O que pôde tirar de melhor e de pior desta experiência?
Lya Luft - Não gostei da parte burocrática e acadêmica, pois sou difícil de me enquadrar nesse terreno. Gostei imensamente de falar com estudantes de 1970 a 1980.

Universia - Como era o seu relacionamento com esses estudantes?
Lya Luft - Excelente, sempre gostei de gente e acho que me comunico com facilidade.

Universia - O trabalho no meio acadêmico influenciou, de alguma forma, no fato da senhora ter se tornado uma escritora de sucesso?
Lya Luft -
Nada tem a ver, pois, como disse, não me adaptei ao meio acadêmico, que continuo achando difícil. O sucesso dos meus livros tem a ver com arte e seriedade no trabalho, carinho dos leitores, sorte, editora competente e o elemento de imponderabilidade em qualquer sucesso.

Universia - Que conselho daria aos estudantes de hoje para que conquistem o sucesso na profissão que escolheram como a senhora conquistou?
Lya Luft - Primeiro, é preciso descobrir qual o nosso dom, o talento. Perseguir o sonho de o realizar, sem vaidade nem ambição tola. Levar muito a sério o trabalho, mas não se levar demais a sério.Vaidade é melancólico.

Universia - O que diria a um estudante que aspira tornar-se um escritor?
Lya Luft -
Leia muito, muitíssimo.Escreva sempre, pois escrever bem é um exercício. Não seja aflito nem precipitado, não se julgue merecedor de sucesso, faça isso pela alegria.

Universia - E aos docentes? Que conselho daria para que incentivem cada vez mais a leitura de seus alunos?
Lya Luft -
Sejam eles mesmos grandes leitores. Escolham coisas que agradem aos alunos, deixem cada um escolher dentro disso o que mais lhe agrada. Nem todo mundo lê bem literatura clássica, por exemplo.

Universia - Quando a literatura começou a se manifestar na sua vida e a partir de que momento optou por se tornar escritora?
Lya Luft - Nunca optei, foi acontecendo ao natural. Minha profissão real sempre foi de tradutora.Minha paixão por livros nasceu comigo, foi cultivada na biblioteca de meu pai, perseguida pelo prazer. Nada muito especial.

Universia - De que maneira as inúmeras traduções que fez influenciaram suas obras?
Lya Luft -
Como um magnífico exercício, pois anos a fio escrevi português diariamente.

Universia - Por que a opção por temas ligados ao sentimento humano?
Lya Luft - Minha literatura toda, dos romances aos poemas e aos ensaios do Perdas & Ganhos, teve como tema principal a vida, seus desafios e mistérios, sua ética, seus dramas.Nunca saí dessa linha.

Universia - Quais os autores que mais gosta de ler e quais lhe servem como fonte de inspiração?
Lya Luft -
Inspiração atualmente nenhum autor que eu saiba.Leitura predileta, sempre poesia e ensaio. Pouca ficção.

Universia - Há algum autor ou obra que tenha uma influência mais forte no seu trabalho como escritora?
Lya Luft -
Os contos de fadas lidos na infância, com seu mesclado de belo e sinistro. Monteiro Lobato infantil. Talvez grandes romancistas russos na adolescência, teatro grego na mesma fase.Tudo me influência, e nada realmente constrói. O meu estilo pessoal é meu e veio com o tempo.Com a libertação possível das influências da juventude.

Universia - Quais os cinco títulos de cabeceira que a senhora diria que não podem faltar no desenvolvimento pessoal e/ou profissional?
Lya Luft -
O Continente, Érico Veríssimo; Contos de Clarice Linspector, todos eles; Machado de Assis, seus romances; Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas; Algum grande poeta, em qualquer idioma: o meu é sempre Rilke, em alemão

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