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Por Renato Marques
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu abertura ontem ao fórum "Universo do Conhecimento", promovido pela Universidade São Marcos. Inspirado no projeto "Université de Tous les Savoirs", da Universidade Sorbonne, o programa pretende ser um painel permanente de debates sobre o atual contexto da sociedade. A primeira palestra, proferida pelo ex-presidente, teve como tema "O homem e o novo cenário geo-político internacional".
Para falar sobre o tema, Fernando Henrique Cardoso optou por dividir a palestra em três partes. Inicialmente, o ex-presidente falou sobre as mudanças políticas vividas pela sociedade, em especial ao ocorrido após a Segunda Guerra Mundial. O sociólogo explicou que após o conflito, o mundo passou a viver uma fase de grande polarização política, com EUA e URSS em lados opostos. Com os anos, a revolução social e tecnológica vivida pelo mundo mostrou que o lado socialista do embate não conseguiria se sustentar - abalada por seus próprios problemas internos.
"Tudo estava baseado em uma imensa concentração de poder no Estado e também na concentração dos recursos de conhecimento em certas áreas. Faltou o que hoje é o traço característico da sociedade contemporânea, a disseminação do saber, do conhecimento", explicou. O fim de uma das potências, portanto, poderia significar um novo contexto político global, com uma descentralização da força. Em um mundo em que a tecnologia avança com incrível velocidade e as distâncias são cada vez menores, seria natural imaginar uma ampla divisão de forças.
No entanto, com a queda de uma das potências, o que houve foi uma concentração ainda maior, restringindo a somente uma superpotência. Essa quebra do equilíbrio representou uma séria complicação no panorama global, uma vez que a economia vive um forte processo de expansão comercial. Muito mais pulverizada, a economia vive, efetivamente, um momento de globalização - definida pelo ex-presidente como a segunda parte da explanação.
Para o ex-presidente, as constantes modificações e evolução tecnológica mudaram os sistemas produtivos e sociais, provocando uma verdadeira revolução do conhecimento. Desta forma, a agregação de valor não se dá mais sobre uma base material. "Hoje é tão importante criar uma marca quanto um produto, ou criar um estilo quanto produzir um tecido. Isso tudo é imaginação, conhecimento", afirmou. "Efetivamente estamos vivendo em uma sociedade do conhecimento, que foi suscitada e empurrada para diante por essas descobertas, ocorridas nos últimos 50 anos."
Em meio a este paradoxo - onde a política regride para a concentração de forças e a economia avança para a pulverização dos mercados - está o homem, centro do debate, terceira e última parte da preleção. Neste embate, é a sociedade que acaba colhendo os resultados, negativos ou positivos, uma vez que as instituições políticas não processam as mudanças vividas pela economia. "Esse mundo que prospera e que é fantástico cria muitos problemas para si mesmo ao não se generalizar. E não se generaliza", criticou.
O contexto exigiu da sociedade que criasse novas formas de sociabilidade, com uma teia de relações muito mais ampla, evitando a exclusão que o novo mundo impõe. O ex-presidente apontou o atentado terrorista em Madri como um exemplo de como as relações dentro da sociedade estão diferentes. Segundo ele, em apenas dois dias o resultado da eleição foi alterado sem passar por nenhum tipo de organização constituída.
"Como eles mudaram o voto? Não foi nem pela Internet. Houve uma pesquisa feita em Barcelona, que mostra o grau de freqüência das mensagens enviadas pelo celular e em quais horários. A partir disso, foi possível fazer uma série de ilações para constatar que foi assim, e através dos jovens", explicou. "Foi um instrumento que não passou por partido nenhum, não passou sequer pelo jornal. Foi direto, como se fosse uma comunidade, pessoa a pessoa. É curioso ver essa espécie de reviravolta em um meio frio, técnico."
Apesar deste contexto, o sociólogo se mostrou confiante em uma melhoria nas condições da sociedade. Para ele, é preciso manter o otimismo na capacidade de circulação das idéias e de sua absorção pelos homens. "Não podemos ter uma visão pessimista do mundo, apesar de suas assimetrias", disse. "A despeito de tudo, continuo bastante confiante no ser humano, que é capaz de muita barbaridade, mas também de muita generosidade. Vamos nos juntar para o lado da generosidade", finalizou.
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