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Academia ou Indústria: Tomando uma Decisão Consciente

Por Tim Hulsen
Pesquisador Ph.D e Membro do Conselho GeNe YouS
Holanda


Devo seguir uma carreira acadêmica ou trabalhar para uma empresa? É geralmente uma decisão difícil para aqueles que estão em vias de terminar seus estudos universitários. Com base em suas experiências pessoais nos dois mundos, Tim Hulsen fala da situação na Holanda.

Parecia lógico iniciar um trabalho de pesquisa depois de terminar meu mestrado em biologia na Universidade de Nijmegen, mas hesitei em iniciar um Ph.D. Trabalhar em uma universidade não parecia muito atraente: muito trabalho árduo por um salário relativamente pequeno e poucas perspectivas de ascensão profissional. Em geral as universidades são famosas, ou devo dizer notórias, pelo péssimo apoio quando se trata do plano de carreira. Após um Ph.D., a maioria das pessoas começa a fazer um pós-doc, geralmente uma posição de curta duração, o que significa uma ocupação insegura.

Mas eu ainda era jovem - tinha apenas 21 anos - então pensei em tentar um emprego temporário numa empresa para ver se era isso que eu preferia. Se não desse certo, ainda poderia conseguir um emprego em alguma universidade como estudante de Ph.D. Por sorte, meu projeto final era em bioinformática que começava a despontar na Holanda. Precisava-se de muita bioinformática, mas não havia muita gente com a devida experiência. Assim, tive a segurança de saber que não seria difícil achar outro emprego num futuro próximo se as coisas não dessem certo na área empresarial.

Identifiquei algumas empresas que tendiam para a área de biologia numa feira de empregos na universidade, onde as empresas fizeram apresentações para os estudantes, e mandei então meu currículo. A Organon, uma empresa farmacêutica que é parte da Akzo Nobel cujo centro de pesquisa principal fica em Oss, foi a primeira a me responder. Após duas ou três conversas informais, a Organon me contratou temporariamente, no início por três meses, mas que logo foi prorrogado por um ano no total.

Minhas primeiras impressões foram bastante boas. A atmosfera era bem relaxada em contraste com algumas histórias que ouvi sobre outras empresas. Mas isso talvez tenha sido pela localização da empresa, numa parte do sudeste da Holanda que é na verdade conhecida por ser despojada e tranqüila. Os irritantes workaholics da universidade pareciam ausentes na empresa. Estas pessoas eram bem normais, trabalhavam de 9 as 5, tinham vida familiar e hobbies e na hora do almoço discutiam outros assuntos além do trabalho. Isso era ótimo, levando em conta que alguns professores na universidade parecem achar que é muito normal querer falar sobre ciência o dia todo, todo dia.

Acho que isso é uma das coisas que contribui para a relação de amor e ódio que existe entre as universidades e as empresas. De um lado, as universidades precisam das empresas para custear sua pesquisa, e as empresas precisam das universidades para ter informações científicas cruciais. Além disso, as empresas dependem das universidades para treinar as pessoas que mais tarde trabalharão para eles. Por outro lado, como mencionei, a perspectiva dos funcionários pode ser bem diferente. As pessoas que trabalham nas universidades fazem pouco caso dos colegas que trabalham em empresas porque parecem trabalhar apenas para ganhar dinheiro ao invés de trabalhar pelo bem da comunidade científica. As pessoas que trabalham para uma empresa geralmente vêem seus colegas acadêmicos como alienados de visão limitada, concentrados apenas em sua pequena área de especialidade e esquecem o resto da vida. Esta descrição pode parecer um pouco generalizada e exagerada, mas acho que na essência é uma verdade que se aplica a muitos.

Esta questão é ilustrada pela experiência de um de meus colegas na Organon durante um congresso no exterior. Ele falava sobre sua pesquisa com um acadêmico e tudo ia muito bem até ele cometer o erro de dizer que trabalhava para uma empresa. Nesta hora, o acadêmico simplesmente deu as costas e foi embora. Era como se ele acreditasse que meu colega tivesse vendido a alma ao diabo quando se empregou fora do mundo acadêmico, não reconhecendo que pode haver muitos motivos além do dinheiro para se escolher uma empresa ao invés de uma carreira acadêmica.

Depois de uns seis meses trabalhando na Organon, decidi que seria uma boa idéia fazer um Ph.D. Sabia que queria me concentrar especificamente na pesquisa e isso iria garantir que eu não chegasse ao um túnel sem saída. Notei que a maioria dos pesquisadores na empresa tinham Ph.D.

Conversei com a Organon sobre minha decisão. Hoje tenho um cargo como Ph.D. no Centre for Molecular and Biomolecular Informatics (CMBI), o departamento de bioinformática da universidade de Nijmegen e continuo trabalhando na Organon uma vez por semana. A empresa já tinha uma colaboração com o CMBI e o objeto de minha pesquisa - definir relações ortólogas entre todas as proteínas nos organismos seqüenciados - parecia se encaixar bem com um dos grupos do CMBI. A empresa paga a universidade a quantia referente ao meu salário e mais um adicional para custear as despesas de viagem e por aí em diante.

Uma coisa que acho superpositiva em pesquisa em uma universidade é a liberdade para publicar - não há nenhuma restrição. Quando se trabalha para uma empresa o sigilo é sempre considerado. Os detalhes da sua pesquisa precisam ser guardados de empresas concorrentes, então um artigo não deve conter nenhuma informação confidencial, o que torna o procedimento de publicar deveras difícil. Além disso, a empresa tem contratos de sigilo com outras empresas, como com os fornecedores do micro-array, técnica que possibilita a avaliação simultânea de milhares de genes. Em geral os dados destes fornecedores devem ser usados apenas em pesquisa interna, sem desvendar os dados da expressão primária. Por sorte não tenho estas preocupações no momento, e trabalho principalmente na universidade, com seu acesso livre a muitos recursos e menores restrições para publicar.

Outro contraste é a diferença entre pesquisa básica e aplicada. O bom de trabalhar numa empresa é que a pesquisa sempre tem um objetivo nitidamente articulado. Todo o trabalho árduo terá um resultado concreto, simplesmente porque é assim que a empresa faz dinheiro. Mas a vantagem de fazer pesquisa acadêmica básica é, cito novamente, a disponibilidade de mais liberdade. Contanto que você seja capaz de conseguir o dinheiro para custear sua pesquisa, você pode a princípio trabalhar em qualquer assunto que queira. De alguma forma, espero poder unir a pesquisa básica à aplicada, já que os resultados de meu estudo devem ser interessantes tanto para os acadêmicos quanto para a Organon. Mas nem sempre é fácil estar no meio destes dois tipos de abordagens.

No momento, não tenho mesmo certeza qual será o meu futuro. Claro, minhas experiências são pessoais e relacionadas particularmente à minha situação, mas espero que ajude outros jovens pesquisadores a fazerem uma boa escolha. E enfim tenho a vantagem de ver os dois lados da moeda, algo que aconselho a todos.

*Traduzido por Karen Shishiptorova