
Graças à globalização, a demanda para traduções em todas as áreas da ciência e tecnologia
é enorme e continua em expansão. Ao mesmo tempo, tradutores especializados e competentes estão
em escassez. Aqueles que exercem a atividade de tradução técnica-científica podem ser
divididos em duas amplas categorias, dependendo da direção profissional que escolhem:
especialistas em assuntos e especialistas em idiomas. O primeiro possui qualificações
essenciais em disciplinas científicas ou técnicas, às quais eles adicionam habilidades de
tradução; o último entra na profissão como resultado de suas habilidades com idiomas
(com ou sem qualificações formais) e subseqüentemente desenvolve o conhecimento do assunto
ou assuntos com os quais lidam. De acordo com minha experiência, a maioria dos tradutores
técnicos/científicos é especialista em idiomas.
Não é de se admirar que os graduados em ciência raramente consideram a tradução como carreira,
já que esperam exercer cargos onde suas qualificações tenham uma relevância mais evidente.
Além disso, especialmente no mundo do inglês, são relativamente poucos os que são passíveis
de ter um bom conhecimento de um segundo idioma. Mesmo que sejam, pode não ocorrer a eles
a possibilidade de unir os dois tipos de habilidades se tornando tradutores, trazendo à tona
suas qualificações e experiência científica muito como o fazem os autores
científicos/tecnológicos profissionais e os jornalistas científicos. Quase que por
contingência, portanto, a tradução técnica-científica fica largamente nas mãos de
especialistas em idioma.
Minha própria carreira é um bom caso. Em 1987, após terminar meu MA (Magister Artium)
em lingüística e estudos germânicos em Freiburg, na Alemanha, o fim de um contrato temporário
com uma universidade me apresentou uma escolha difícil: continuar tentando financiar um
Ph.D. alternando entre empregos de meio expediente em universidades e empregos em ensino
ou achar uma fonte de renda mais estável para mim e minha família, possivelmente me mudando
de volta para casa na Austrália. Além de me candidatar a cargos acadêmicos, me cadastrei na
agência de empregos local e fui dirigido a uma empresa farmacêutica alemã que procurava um
tradutor interno. Havia feito muita tradução durante meus estudos de línguas contemporâneas
e de lingüística e em certas ocasiões havia traduzido material acadêmico e técnico como
freelance, mas nunca tinha pensado em me tornar um tradutor em tempo integral e não tinha
a menor idéia do que deveria esperar.
A entrevista com o chefe de pesquisa da empresa reacendeu um interesse adormecido em
química e farmácia, minhas traduções teste foram bem recebidas, e a oferta que se seguiu
foi boa demais para se recusar. No final do ano estava me familiarizando com relatórios
de estudos pré-clínicos, procedimentos de análise e fabricação, e manuscritos sobre
biomedicina. Como um graduado em artes, me esforçava muito para aprender os princípios
fundamentais da farmacologia, fabricação farmacêutica e farmacoterapia de úlceras estomacais.
Era um mundo novo, desafiador e profundamente fascinante. O treinamento era feito no trabalho
por dois colegas experientes.
Um ano depois, me mudei para um cargo na Hoffmann-La Roche na Suíça para trabalhar numa
divisão de serviços de idiomas com cinco grupos de idiomas, junto com profissionais de edição
e revisão de texto. Aqui, o desenvolvimento profissional era muito mais sistemático, e eu
participei de cursos internos de produtos (abrangendo farmacologia clínica, indicações e
posologia), junto com workshops em desenvolvimento de medicamentos, testes clínicos, o
processo de regulamentação, e os fundamentos do marketing farmacêutico. A empresa também
pagou por cursos externos de edição de texto e redação médica e me mandou para um estágio
de um mês em redação médica nos Estados Unidos. Tudo isso teve acompanhamento contínuo de
colegas tradutores e de nossa network interna de consultores especialistas que agiram como
mentores.
Uma empresa farmacêutica grande é um ótimo lugar para um tradutor técnico/científico. Suas
vastas e extensas necessidades de tradução fazem o trabalho variado e interessante. Em termos
de fontes de informação é quase ideal, oferecendo boas bibliotecas e acervos com documentação
técnica, junto com acesso à consultoria com especialistas do P&D, da produção e outros membros
especializados do staff.
Outro fator que provavelmente ajuda a manter os graduados em ciência longe da tradução é sua
imagem. A tradução é amplamente encarada como uma tarefa linear e desinteressante que não
requere nenhuma habilidade ou aptidão especial a não ser um domínio adequado de dois idiomas
ou mais. Existe um conceito errôneo geral que o conhecimento de um segundo idioma confere
uma habilidade automática de poder traduzir de um para o outro; os tradutores só precisam
achar a devida correspondência verbal, consultando os devidos dicionários quando se deparam
com termos desconhecidos. Apesar de sua tradição secular, a tradução ainda é uma profissão
precariamente definida cuja imagem só piora com conceitos errôneos como estes ou com a
ausência de consenso até mesmo entre os profissionais experientes sobre questões fundamentais
como padrões, melhores práticas ou qualificações mínimas.
Então o que faz a tradução ser interessante e desafiadora? Para simplificar, é função do
tradutor técnico/científico entender o texto de origem e verter a informação que este tenciona
comunicar de forma completa, precisa e apropriada para o idioma alvo, tendo em mente a
função de uso do texto e o público. Os tradutores têm de reproduzir as mensagens e intenções
do original. Traduções feitas para publicação devem ser lidas como se tivessem sido escritas
na língua alvo e até documentos intencionados para usos menos públicos devem ser convincentes
e legíveis. Isto exige uma série especial de habilidades e aptidões, e a complexidade da
tarefa é geralmente subestimada. Tradutores inexperientes ? e até mesmo especialistas em
determinadas áreas ? tendem a produzir traduções literais ou ´palavra por palavra` que seguem
padrões do idioma de origem ao invés de acharem uma forma de expressão mais natural no
idioma alvo.
Como requisitos básicos, os tradutores técnicos/científicos precisam ter um profundo
conhecimento da língua de origem (incluindo noção de seus padrões retóricos específicos e
estruturas de discurso), serem ligados em detalhes, terem fluência nativa ou quase no idioma
alvo, vocação para escrever, e habilidades para compilar informação altamente desenvolvidas.
Eles realmente precisam unir três tipos de curiosidade ? sobre idioma, o assunto, e a forma
como os especialistas falam e escrevem sobre o assunto. Com todas as outras coisas niveladas,
quanto mais um tradutor sabe sobre o assunto e sua linguagem for especializada, mais fácil
fica a tarefa e melhor o resultado.
Como podem os cientistas contribuir para a tradução? Fora o profundo conhecimento e experiência
sobre sua própria especialidade, eles oferecem uma base científica mais ampla, a curiosidade
inata dos cientistas, e a perspicácia de ter entendido como funciona a ciência e o discurso
científico. Eles também trazem habilidades de pesquisa muito específicas para compilar
informação e para achar a literatura necessária. Não menos importante, eles trazem seu
conhecimento da linguagem especial da ciência. No entanto, os cientistas que pensam em
se tornar tradutores precisam analisar cuidadosamente suas habilidades para as línguas
e para a escrita. E com certeza devem considerar um treinamento formal em idiomas ? a
melhor forma e certamente a mais rápida para desenvolver habilidades de nível profissional.
Já que poucos tradutores técnicos/científicos podem se dar ao luxo de se concentrar em uma
especialização estrita, os cientistas que contemplam uma carreira como tradutor também
devem se preparar para expandir seus conhecimentos sobre seu próprio assunto incluindo
outras áreas.
O mercado de tradução é tão diverso quanto as áreas onde os clientes operam. Por exemplo,
as necessidades de tradução técnica/científica de uma empresa farmacêutica grande passa por
um vasto campo, desde P&D, patentes, fabricação (produção química, formulação farmacêutica
e embalagem), e questões regulamentares até informação sobre produto, marketing e comunicação
científica, com assuntos que variam desde química, bioquímica, biologia molecular,
farmacologia, toxicologia, diagnóstico e medicina, à engenharia química e processual e
proteção ambiental.
Os serviços de tradução são fornecidos por freelancers (o grosso na profissão),
tradutores internos empregados por empresas e instituições, pequenas e grandes empresas
de tradução (que empregam tanto tradutores assalariados quanto freelancers), e agências
de tradução (que terceirizam o trabalho a tradutores freelancers ou empresas de
tradução). O mercado é altamente fragmentado, com grandes partes deste mostrando todas
as características de uma operação do tipo ´fundo de quintal`: a grande maioria dos
tradutores trabalha por conta própria ou no comércio informal por taxas que variam
largamente de um projeto para outro. (A remuneração é tipicamente por palavra ou por página
ou linha de texto, embora alguns profissionais de primeira linha possam negociar tarifas
por hora de trabalho.) Apenas um punhado de empresas de tradução tem alcance internacional.
Isso dificulta achar emprego assalariado, mas o tamanho do mercado mostra que há oportunidades
em abundância para trabalho especializado como freelancer. É só uma questão de sair
procurando para achá-lo.
Quais as recompensas? Na Europa, a grande maioria de tradutores empregados na indústria ganha
bem, comparável ao salário de outros profissionais. A situação dos freelancers varia
consideravelmente, dependendo de suas habilidades e do mercado que escolhem para atuar.
Tradutores competentes com qualificações científicas e técnicas essenciais são muito procurados
pela indústria, por empresas de tradução e agências. Como um tradutor técnico/científico
você pode não estar criando conhecimento, mas você com certeza estará usando seus talentos
criativamente para ajudar a disseminá-lo.
*Traduzido por Karen Shishiptorova