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Traduções Médicas: O Panorama Corporativo

Por Peter Boylehoffmann
La Rochebasel, Suíça


Graças à globalização, a demanda para traduções em todas as áreas da ciência e tecnologia é enorme e continua em expansão. Ao mesmo tempo, tradutores especializados e competentes estão em escassez. Aqueles que exercem a atividade de tradução técnica-científica podem ser divididos em duas amplas categorias, dependendo da direção profissional que escolhem: especialistas em assuntos e especialistas em idiomas. O primeiro possui qualificações essenciais em disciplinas científicas ou técnicas, às quais eles adicionam habilidades de tradução; o último entra na profissão como resultado de suas habilidades com idiomas (com ou sem qualificações formais) e subseqüentemente desenvolve o conhecimento do assunto ou assuntos com os quais lidam. De acordo com minha experiência, a maioria dos tradutores técnicos/científicos é especialista em idiomas.

Não é de se admirar que os graduados em ciência raramente consideram a tradução como carreira, já que esperam exercer cargos onde suas qualificações tenham uma relevância mais evidente. Além disso, especialmente no mundo do inglês, são relativamente poucos os que são passíveis de ter um bom conhecimento de um segundo idioma. Mesmo que sejam, pode não ocorrer a eles a possibilidade de unir os dois tipos de habilidades se tornando tradutores, trazendo à tona suas qualificações e experiência científica muito como o fazem os autores científicos/tecnológicos profissionais e os jornalistas científicos. Quase que por contingência, portanto, a tradução técnica-científica fica largamente nas mãos de especialistas em idioma.

Minha própria carreira é um bom caso. Em 1987, após terminar meu MA (Magister Artium) em lingüística e estudos germânicos em Freiburg, na Alemanha, o fim de um contrato temporário com uma universidade me apresentou uma escolha difícil: continuar tentando financiar um Ph.D. alternando entre empregos de meio expediente em universidades e empregos em ensino ou achar uma fonte de renda mais estável para mim e minha família, possivelmente me mudando de volta para casa na Austrália. Além de me candidatar a cargos acadêmicos, me cadastrei na agência de empregos local e fui dirigido a uma empresa farmacêutica alemã que procurava um tradutor interno. Havia feito muita tradução durante meus estudos de línguas contemporâneas e de lingüística e em certas ocasiões havia traduzido material acadêmico e técnico como freelance, mas nunca tinha pensado em me tornar um tradutor em tempo integral e não tinha a menor idéia do que deveria esperar.

A entrevista com o chefe de pesquisa da empresa reacendeu um interesse adormecido em química e farmácia, minhas traduções teste foram bem recebidas, e a oferta que se seguiu foi boa demais para se recusar. No final do ano estava me familiarizando com relatórios de estudos pré-clínicos, procedimentos de análise e fabricação, e manuscritos sobre biomedicina. Como um graduado em artes, me esforçava muito para aprender os princípios fundamentais da farmacologia, fabricação farmacêutica e farmacoterapia de úlceras estomacais. Era um mundo novo, desafiador e profundamente fascinante. O treinamento era feito no trabalho por dois colegas experientes.

Um ano depois, me mudei para um cargo na Hoffmann-La Roche na Suíça para trabalhar numa divisão de serviços de idiomas com cinco grupos de idiomas, junto com profissionais de edição e revisão de texto. Aqui, o desenvolvimento profissional era muito mais sistemático, e eu participei de cursos internos de produtos (abrangendo farmacologia clínica, indicações e posologia), junto com workshops em desenvolvimento de medicamentos, testes clínicos, o processo de regulamentação, e os fundamentos do marketing farmacêutico. A empresa também pagou por cursos externos de edição de texto e redação médica e me mandou para um estágio de um mês em redação médica nos Estados Unidos. Tudo isso teve acompanhamento contínuo de colegas tradutores e de nossa network interna de consultores especialistas que agiram como mentores.

Uma empresa farmacêutica grande é um ótimo lugar para um tradutor técnico/científico. Suas vastas e extensas necessidades de tradução fazem o trabalho variado e interessante. Em termos de fontes de informação é quase ideal, oferecendo boas bibliotecas e acervos com documentação técnica, junto com acesso à consultoria com especialistas do P&D, da produção e outros membros especializados do staff.

Outro fator que provavelmente ajuda a manter os graduados em ciência longe da tradução é sua imagem. A tradução é amplamente encarada como uma tarefa linear e desinteressante que não requere nenhuma habilidade ou aptidão especial a não ser um domínio adequado de dois idiomas ou mais. Existe um conceito errôneo geral que o conhecimento de um segundo idioma confere uma habilidade automática de poder traduzir de um para o outro; os tradutores só precisam achar a devida correspondência verbal, consultando os devidos dicionários quando se deparam com termos desconhecidos. Apesar de sua tradição secular, a tradução ainda é uma profissão precariamente definida cuja imagem só piora com conceitos errôneos como estes ou com a ausência de consenso até mesmo entre os profissionais experientes sobre questões fundamentais como padrões, melhores práticas ou qualificações mínimas.

Então o que faz a tradução ser interessante e desafiadora? Para simplificar, é função do tradutor técnico/científico entender o texto de origem e verter a informação que este tenciona comunicar de forma completa, precisa e apropriada para o idioma alvo, tendo em mente a função de uso do texto e o público. Os tradutores têm de reproduzir as mensagens e intenções do original. Traduções feitas para publicação devem ser lidas como se tivessem sido escritas na língua alvo e até documentos intencionados para usos menos públicos devem ser convincentes e legíveis. Isto exige uma série especial de habilidades e aptidões, e a complexidade da tarefa é geralmente subestimada. Tradutores inexperientes ? e até mesmo especialistas em determinadas áreas ? tendem a produzir traduções literais ou ´palavra por palavra` que seguem padrões do idioma de origem ao invés de acharem uma forma de expressão mais natural no idioma alvo.

Como requisitos básicos, os tradutores técnicos/científicos precisam ter um profundo conhecimento da língua de origem (incluindo noção de seus padrões retóricos específicos e estruturas de discurso), serem ligados em detalhes, terem fluência nativa ou quase no idioma alvo, vocação para escrever, e habilidades para compilar informação altamente desenvolvidas. Eles realmente precisam unir três tipos de curiosidade ? sobre idioma, o assunto, e a forma como os especialistas falam e escrevem sobre o assunto. Com todas as outras coisas niveladas, quanto mais um tradutor sabe sobre o assunto e sua linguagem for especializada, mais fácil fica a tarefa e melhor o resultado.

Como podem os cientistas contribuir para a tradução? Fora o profundo conhecimento e experiência sobre sua própria especialidade, eles oferecem uma base científica mais ampla, a curiosidade inata dos cientistas, e a perspicácia de ter entendido como funciona a ciência e o discurso científico. Eles também trazem habilidades de pesquisa muito específicas para compilar informação e para achar a literatura necessária. Não menos importante, eles trazem seu conhecimento da linguagem especial da ciência. No entanto, os cientistas que pensam em se tornar tradutores precisam analisar cuidadosamente suas habilidades para as línguas e para a escrita. E com certeza devem considerar um treinamento formal em idiomas ? a melhor forma e certamente a mais rápida para desenvolver habilidades de nível profissional. Já que poucos tradutores técnicos/científicos podem se dar ao luxo de se concentrar em uma especialização estrita, os cientistas que contemplam uma carreira como tradutor também devem se preparar para expandir seus conhecimentos sobre seu próprio assunto incluindo outras áreas.

O mercado de tradução é tão diverso quanto as áreas onde os clientes operam. Por exemplo, as necessidades de tradução técnica/científica de uma empresa farmacêutica grande passa por um vasto campo, desde P&D, patentes, fabricação (produção química, formulação farmacêutica e embalagem), e questões regulamentares até informação sobre produto, marketing e comunicação científica, com assuntos que variam desde química, bioquímica, biologia molecular, farmacologia, toxicologia, diagnóstico e medicina, à engenharia química e processual e proteção ambiental.

Os serviços de tradução são fornecidos por freelancers (o grosso na profissão), tradutores internos empregados por empresas e instituições, pequenas e grandes empresas de tradução (que empregam tanto tradutores assalariados quanto freelancers), e agências de tradução (que terceirizam o trabalho a tradutores freelancers ou empresas de tradução). O mercado é altamente fragmentado, com grandes partes deste mostrando todas as características de uma operação do tipo ´fundo de quintal`: a grande maioria dos tradutores trabalha por conta própria ou no comércio informal por taxas que variam largamente de um projeto para outro. (A remuneração é tipicamente por palavra ou por página ou linha de texto, embora alguns profissionais de primeira linha possam negociar tarifas por hora de trabalho.) Apenas um punhado de empresas de tradução tem alcance internacional. Isso dificulta achar emprego assalariado, mas o tamanho do mercado mostra que há oportunidades em abundância para trabalho especializado como freelancer. É só uma questão de sair procurando para achá-lo.

Quais as recompensas? Na Europa, a grande maioria de tradutores empregados na indústria ganha bem, comparável ao salário de outros profissionais. A situação dos freelancers varia consideravelmente, dependendo de suas habilidades e do mercado que escolhem para atuar. Tradutores competentes com qualificações científicas e técnicas essenciais são muito procurados pela indústria, por empresas de tradução e agências. Como um tradutor técnico/científico você pode não estar criando conhecimento, mas você com certeza estará usando seus talentos criativamente para ajudar a disseminá-lo.

*Traduzido por Karen Shishiptorova