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28/01/2004


No tabuleiro da baiana tem...


Usar a internet será parte do cotidiano dos baianos assim como parar na esquina mais próxima para saborear um acarajé. A idéia parece estranha, mas já foi colocada em prática e batizada de Tabuleiro Digital.

"Queremos tornar o uso da rede tão cotidiano e simples quanto comer um acarajé", comparou o diretor da Faculdade de Educação da Ufba e idealizador do projeto, professor Nelson Pretto. A primeira experiência começou a funcionar na Faced, na última quinta-feira, para deleite dos alunos e de quem mais quiser usufruir do uso gratuito de computadores.

O projeto visa ao acesso livre a terminais de computadores conectados à internet, voltado para alunos e para a comunidade não-acadêmica. É uma forma de minimizar a exclusão digital que atinge cerca de 95% da população baiana. Em um mundo tomado pelas tecnologias da informação, acaba à margem do desenvolvimento social aquele que não tem a oportunidade de aprender a lidar com elas. A questão deixa de ser meramente técnica e passa a ser social.

Nesse contexto, vê-se que a maioria dos baianos tem suas chances de desenvolvimento profissional cerceadas por não possuir condições de comprar um computador ou freqüentar um curso.

O projeto prevê, a princípio, o uso de 20 computadores reunidos nas áreas de circulação dos três andares da faculdade. As máquinas estão sobre suportes que lembram tabuleiros de baianas. São de madeira, compensado, e têm os apoios em forma de X e acompanham um banquinho.

O design do suporte tem tudo a ver com a proposta do Tabuleiros Digitais. A internet, explica Pretto, deve ser encarada como algo do presente, que faça parte da vida diária de todos. "Ela não deve ser vista como uma coisa do futuro, tem que estar presente em cada esquina. Assim buscamos a comparação com os tabuleiros de acarajé", salientou.

"Nossa intenção é transformar o uso da internet em algo corriqueiro. Aproximá-la das pessoas e não limitar a salas exclusivas, por exemplo", completou o arquiteto Eduardo Rossetti, idealizador dos suportes.

Ele brinca dizendo que, da mesma forma que o cheirinho de acarajé faz com que tenhamos vontade de comer o bolinho, a visão do tabuleiro digital vai chamar o usuário para o computador. "A relação das pessoas com os computadores e com a internet tem de ser natural, cotidiana", completou.

Por causa disso, os locais escolhidos para a instalação das máquinas foram as áreas de circulação da unidade. Espaços públicos onde alunos e comunidade podem interagir. É estratégico. Computadores com acesso à internet passam a integrar o ambiente comum, onde todos circulam, e não somente os laboratórios de informática, tão disputados nas faculdades.

Nelson Pretto complementa: "É um espaço público, de socialização, totalmente desvinculado de salas de aula ou de qualquer disciplina. É por onde o aluno passa entre uma aula e outra ou onde pára para conversar. Nesse tempinho, pode acessar a internet". Inserindo a internet no ambiente comum, a intenção é que se introduza, definitivamente, a prática no mundo da cibercultura.

Pretto salienta que não se pretende pedagogizar o uso da internet, como se faz nos laboratórios de informática presentes em todas as unidades da Ufba. Nessas salas, o uso tem que ser restrito, pois os computadores estão ali para serem utilizados em aulas, trabalhos de pesquisa.

O uso livre do aluno só acontece quando há horários vagos e com restrições. "O tabuleiro, ao contrário, é um ponto de encontro, para quem quiser usar a internet, para o fim que desejar. Não tem qualquer controle ou supervisão por parte de professores ou funcionários da instituição", completa o diretor da Faced.

Aberto à comunidade - No dia da inauguração, os terminais passaram todo o tempo ocupados por alunos e curiosos que foram dar uma espiadinha para saber o que se passava no prédio da Faced, localizado no Vale do Canela.

Marta Moreira, 30 anos, está no 6º semestre de Pedagogia. Ela foi uma das primeiras a utilizar um tabuleiro digital e aprovou. "Eu achei ótimo porque abre novos horizontes, não deixa o uso dos computadores limitados às salas de aula, onde tem sempre alguém para regular o nosso tempo", revela.

Segundo a estudante, ir sempre ao laboratório é até um pouco constrangedor, uma vez que o espaço é para aulas e fica chato utilizar os terminais para uso pessoal, como escrever e-mails. "Aqui eu uso na hora que eu precisar e para o que eu quiser. É muito mais liberdade", conclui.

Cursando o 8º- semestre de pedagogia, Kariene Silva Simões Santos, 27 anos, define como "fantástico" o projeto de Nelson Pretto. "É rápido, prático, ideal para quem precisa usar a internet. O laboratório não resolve, pois está aberto para uso livre em horários específicos", diz a aluna. Ela tem internet em casa, mas passa quase todo o dia na faculdade e comemora: entre uma aula e outra, vai poder passar um tempinho navegando livremente.

"Vi o burburinho e resolvi espiar. Descobri que aqui tem internet grátis", opina a estudante de cursinho Carla Santos Pereira, 20 anos. Ela conta que costuma pegar ônibus em frente à Faced e que agora deverá passar pela faculdade com freqüência para usar o computador. "Não tenho internet em casa e os locais que cobram pelo acesso são caros. Isso aqui é ideal", comenta.

A jovem é uma das poucas pessoas de fora que conheceram os Tabuleiros Digitais. Apesar de estar aberto à toda comunidade, não houve muita divulgação e poucos sabem que não precisa ser da instituição para usufruir das máquinas. De acordo com Pretto, a idéia é que o projeto cresça para que realmente atinja a todos. "O que estamos pleiteando no momento é que o Tabuleiros possa funcionar 24 horas. Para isso, teríamos que ter um maior número de seguranças na unidade", revela.

Fonte: A Tarde Online


[A Tarde Online ]




 
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