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20/06/2005


Vale tudo por um aluno


A escolha do curso é um dilema cada vez maior para os candidatos a uma vaga no ensino superior brasileiro. Antes de enfrentar a maratona de provas, os vestibulandos agora precisam se debruçar sobre uma avalanche crescente de opções de cursos e instituições de ensino. Todos os dias são abertos no Brasil, em média, seis novos cursos em faculdades, centros universitários ou universidades. Foi assim em 2002 e também em 2003, como revelam as estatísticas do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Os números mostram que Minas Gerais não fugiu à regra: só em 2003, foram abertos 314 cursos superiores no Estado, o que equivale à média de um curso novo por dia útil. Disposto a combater essa explosão, o governo federal está mudando as regras para atestar a qualidade dos cursos e promete mais rigor na avaliação dos novos pedidos que se amontoam no Ministério da Educação.

Enquanto isso não acontece, para vencer a concorrência cada dia mais acirrada vale tudo: anunciar inscrição em troca de taxa simbólica, agasalho ou um quilo de alimento; oferecer bolsas para os primeiros colocados; anunciar descontos especiais para funcionários públicos e até mesmo trocar as provas de vestibular pela análise de currículos dos candidatos. As estratégias para divulgar as ofertas vão além dos tradicionais outdoors, cartazes e folhetos próximos a cursinhos pré-vestibulares. Até estandes em shoppings, para facilitar a inscrição no processo seletivo, já foram instalados.

A grande responsável pela explosão do ensino superior é a rede privada, que transformou a educação num negócio lucrativo, responsável por 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, cerca de R$ 27 bilhões. ?Somos os campeões latino-americanos de educação superior em escolas particulares. No ranking mundial, estamos em sétimo lugar. Só perdemos para os países asiáticos quando analisamos a quantidade de matrículas na rede privada?, observa Hélgio Trindade, presidente da Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior (Conaes), ciente de que o Ministério da Educação necessita de instrumentos mais rigorosos para controlar esse crescimento.

CONTROLE DE QUALIDADE Enquanto não se alteram as regras de acesso do setor privado no ensino superior, previstas na Reforma Universitária, o Brasil está implantando o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), um novo instrumento de avaliação superior que analisa não apenas o desempenho dos alunos, mas também a qualidade das instituições e dos cursos, coordenado pelo Conaes. ?Tamanha quantidade de oferta?, avalia o professor Mauro Braga, ?não é sinônimo de qualidade?. Ele conta que mais de uma vez, ao ser convocado pelo MEC para avaliar cursos em diferentes estados do Brasil, deparou com situações inexplicáveis. ?Uma vez, fomos obrigados a escrever no relatório que o curso avaliado era comparável ao ensino médio de baixa qualidade?, recorda Mauro Braga, que é coordenador do Centro de Estudos de Educação Superior e Políticas Públicas para a Educação da UFMG.

"Esses alunos normalmente não têm tempo para estudar, já estão empregados e precisam da graduação para ascensão profissional. Por isso escolhem uma escola fácil de passar e de pagar" - Andréa Maria Oliveira, coordenadora pedagógica da Associação Pré-UFMG

O que mais preocupa Braga é o foco das propagandas dos novos cursos, que nunca anunciam a qualidade, mas só o preço. Assim, segundo o professor, faculdades de qualidade duvidosa ganham fachada sofisticada com a mágica do marketing. Mergulhadas no mundo dos cartazes e folhetos coloridos com anúncios de provas, novos cursos e diferentes promoções, as estudantes Talita Oliveira e Marília Quadros, de 18 anos, garantem que não se convencem com qualquer oferta. ?Se é muito barato, muito apelativo ou se não informam detalhes do vestibular nem olho. Tá na cara que não é sério?, observa Marília, que pretende cursar direito, um dos campeões em oferta no mercado.

Entretanto, de acordo com a coordenadora pedagógica da Associação Pré-UFMG, Andréa Maria Oliveira, há alunos que querem apenas um diploma e não se preocupam com a qualidade duvidosa do ensino. ?Esses normalmente não têm tempo para estudar, já estão empregados e precisam da graduação para ascensão profissional. Por isso escolhem sempre uma escola fácil de passar e de pagar?, lamenta Andréa, dizendo que sua função é justamente não deixar os alunos se renderem a qualquer promoção mirabolante, principalmente das escolas novas no mercado.

Para os defensores da liberdade total no mercado para as escolas particulares, a função de controlar a qualidade é do governo. Já o preço, os serviços e a fama da instituição devem ser regulados pelo próprio mercado. ?Só posso recomendar algo, que o interessado pesquise, verifique e compare antes de fechar negócio?, diz Henrique Pinto dos Santos, superintendente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino de Minas, dizendo que a oferta só aumentou porque, nos últimos cinco anos, houve uma enorme expansão no número de alunos do ensino médio pressionando por mais vagas no superior.

[Estado de Minas ]




 
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