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11/10/2005


Síndrome de Peter Pan no campus


Ediane Merola

No último período da faculdade, tem estudante que fica ansioso, indeciso, perde o sono, a vontade de ir às aulas. Muitos ficam à beira de um ataque de nervos e não percebem que padecem de um mal não diagnosticado pela medicina: a TPF, tensão pré-formatura. Os doentes crônicos dizem que o problema é causado principalmente pelo medo de enfrentar o mercado de trabalho e acham que o remédio é adiar o fim do curso. Mas educadores e psicólogos vão além. A TPF afeta mais quem teme as responsabilidades da vida adulta.

No auge do desespero, quem sofre com a TPF muitas vezes adia a formatura, seja para estagiar mais ou pensar na vida. Vinícius de Freitas, de 23 anos, terminaria o curso de administração na PUC no fim deste semestre, mas adiou a formatura para julho de 2006, pois conseguiu um estágio e não quer desperdiçar a oportunidade:

- Eu pensava: vou me formar e fazer o que depois?. Vaga de trainee é difícil. Preferi adiar a formatura. Farei só a disciplina estágio supervisionado II no semestre que vem.

O mercado de trabalho é, logicamente, uma preocupação entre universitários. No primeiro semestre deste ano, o Grupo Foco, de recursos humanos, entrevistou cinco mil pessoas, de 18 a 25 anos, sobre escolhas e perspectivas de carreira. Sobre os motivos que levaram os jovens a escolher a profissão, 63% levaram em conta o mercado em expansão e 75% consideraram a vocação.

Quando decidiu fazer jornalismo, Rafael Ribeiro, de 22 anos, pensou na vocação. Mas hoje, no 8 período da Uerj, se preocupa com o mercado de trabalho e quer mais tempo para estagiar. Por isso, adiou a formatura para o próximo semestre.

- Já fiz estágios, mas sem chance de efetivação. Algumas empresas só querem a mão-de-obra barata. As perspectivas no mercado não são animadoras. Se você corta o cordão umbilical com a faculdade, aí já era - diz Rafael, que agora estagia num site de esportes.

Para a professora Maria Luiza Bustamante P. de Sá, chefe do Serviço de Psicologia Aplicada da Uerj, o temor de enfrentar o mercado realmente é grande mas, segundo ela, quem adia o fim do curso está mesmo com medo de encarar a vida adulta, uma síndrome de Peter Pan.

- A sociedade é movida por ritos de passagem e o fim do curso na faculdade é um deles. O jovem pensa: ih, vou ficar adulto, não posso mais posar de filho. A pressão do mercado só aumenta a tensão - diz Maria Luiza, que é contra adiar o fim do curso. - Tem que encarar as cobranças. Nada na vida é definitivo. Se não estiver feliz com sua formação, mude.

Nas faculdades particulares, é baixo o número de estudantes que ficam um ou dois períodos a mais no campus. Na UniverCidade não passa de 2%, segundo o pró-reitor Paulo Alonso. Apesar de não ter uma estatística sobre os motivos que levam ao adiamento do fim do curso, a superintendente de graduação da UFRJ, Deia Maria Ferreira, conta que muitos alunos de bacharelado também fazem a licenciatura para ter mais chance no mercado de trabalho.

- Também percebemos que alguns alunos pedem reingresso em carreiras da mesma área - diz Deia, acrescentando que o adiamento de curso não causa problemas à universidade, desde que não seja por muitos semestres.

Se a UFRJ tivesse uma estatística sobre o assunto, Milena Maia, do 7 período de letras/literaturas, estaria nela. A estudante da federal adiou a formatura para 2007.

- Desde o 3 período tento bolsa de iniciação científica em literatura portuguesa e até agora nada. No 6 período meu desespero aumentou. Sem isso é difícil entrar para o mestrado. Professor ganha mal. Se saio da faculdade sem a formação adequada, só piora a situação.

[O Globo ]




 
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