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31/10/2005


Provão X Enade


A polêmica sobre os dois modelos de avaliação ainda persiste no meio acadêmico Priscilla Borges

A polêmica entre o extinto Provão e o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), que o substituiu, ainda parece longe do fim. Especialistas da área se dividem nas opiniões sobre qual sistema é mais eficiente. O funcionamento do novo processo provoca preocupações em estudantes e professores. A dúvida paira em como o exame será aproveitado e o que ele revelará.

A comunidade acadêmica espera que a avaliação seja mais fidedigna à realidade da educação superior brasileira do que o Provão foi. Entre 1996 e 2003, 470 mil formandos de 6,5 mil cursos de 26 áreas passaram pelo teste, que continha perguntas sobre o conteúdo aprendido durante a graduação. As notas dos estudantes eram transformadas nos conceitos dos cursos, que variavam de A a E.

Em paralelo, ocorria uma Avaliação das Condições de Ensino, feita por uma equipe de especialistas. O grupo verificava a infraestrutura das instituições, a qualidade do corpo docente e se o projeto pedagógico era realmente aplicado. No entanto, os resultados não contribuíam no conceito do curso e a divulgação destas avaliações era feita à parte. De acordo com o ex-ministro da educação Paulo Renato de Souza, que implantou o Provão, as análises dos especialistas comprovavam os resultados do Provão. Os melhores conceitos ficavam com as instituições que apresentavam boas condições de ensino.

Para Ivanna SantAna Torres, mestre em gestão e políticas públicas em educação, o processo era reduzido. Se a proposta era fazer uma avaliação institucional, o exame não poderia ser restrito ao aluno. O sucesso ou não do curso dependia exclusivamente da nota do estudante. Não condizia com a realidade, analisa.

O Sinaes avaliará instituição, cursos e alunos. Os conceitos das graduações só serão divulgados após a análise de todos eles. Com o detalhe de que os estudantes repetirão as provas depois de três anos. Portanto, os primeiros resultados do Sinaes só serão conhecidos em 2008, depois da junção dos dados das segundas avaliações dos estudantes que participaram do Enade no ano passado. Segundo Amir Limana, em 2009, será apresentado um mapa do ensino superior brasileiro em todas as 53 áreas de conhecimento avaliadas. Criaremos uma cultura de avaliação, diz.

Ivanna concorda que o Sinaes poderá fazer uma radiografia dos cursos e instituições. Mas destaca a importância da utilização dos resultados para aprimorar as falhas no ensino, aumentando a qualidade das faculdades e universidades. Se eles (os resultados) não forem considerados para a elaboração de políticas públicas do governo e planejamento das instituições será um esforço inútil, garante.

Ranking da discórdia Durante a aplicação do Provão, os conceitos de cada faculdade era divulgado. Fazia-se um ranking com os melhores e os piores cursos de graduação do país, segundo o resultado das notas dos estudantes. A prática levantava inúmeras críticas. Primeiro, porque os especialistas em educação dizem que as classificações não são saudáveis. Ivanna, que não gosta da prática, ressalta que as instituições devem ser observadas no contexto em que estão inseridas. No ranking, isso não acontece.

Por outro lado, havia inúmeras reclamações sobre a veracidade do conceito. As notas eram relativas, ou seja, comparadas às tiradas por outros candidatos. Um mesmo conceito abrigava diferentes pontuações, de acordo com a área avaliada. Por exemplo, um curso de odontologia considerado A poderia ter nota 40, enquanto um de Jornalismo também A poderia apresentar nota 70. Não havia uma média para determinar o nível mínimo de excelência que o curso deveria ter. No Sinaes, isso já acontece.

Ivan Camargo, decano de graduação da Universidade de Brasília (UnB), vê o ranking como uma conseqüência natural dos processos de avaliação. Acredito que isso acabará existindo de novo. A sociedade conseguia visualizar o que interessava para ela - saber se uma instituição era boa ou ruim - de uma maneira fácil e rápida. A informação tem de ser dirigida à população comum e não restrita aos doutores, declara.

O QUE ELES PENSAM PROVÃO Durante a aplicação do Provão, avaliamos 90% dos estudantes do ensino superior. Anualmente, todos os formandos tinham de demonstrar o conhecimento adquirido e isso forçava o aluno a fazer a prova com seriedade. A nota dele seria utilizada pelo mercado de trabalho. E o conceito do Provão estava sempre relacionado aos resultados da avaliação das instituições. Isso prova que o exame atestava a qualidade do curso. Paulo Renato de Souza, ex-ministro da Educação durante o governo Fernando Henrique Cardoso

SINAES A continuação das visitas de especialistas às instituições é o único ponto positivo do Sinaes. Mas a falta da divulgação dessas avaliações e da aplicação do exame aos alunos anualmente prejudicou o sistema. As faculdades estão demitindo mestres e doutores porque não precisam mais mostrar nada a ninguém. Além disso, a escolha por amostragem deixa de evidenciar a qualidade do curso. Ivan Camargo, decano de graduação da Universidade de Brasília (UnB)

PROVÃO O Provão mostrava se os alunos tinham se saído bem ou mal naquela prova. Como qualquer avaliação tinha resultados relativos. Mas eu não via problemas nos conceitos e rankings. Os conceitos mostravam os estudantes das instituições que tinham se saído melhor naquela prova. A informação era mais clara para a sociedade. Outro aspecto positivo é que era anual.

SINAES Avaliar o ensino superior é fundamental. O Sinaes traz um avanço em relação ao Provão, porque aumenta a quantidade de informações e aspectos avaliados. Mas, com o Sinaes, está ocorrendo a mesma coisa que se reclamava do Provão: os dados do Enade estão sendo divulgados isoladamente. Vamos demorar a conhecer um conceito de um curso e isso é ruim.

Ivanna SantAna Torres, mestre em gestão e políticas públicas em educação

PROVÃO O Provão foi importante porque possibilitou a discussão sobre a avaliação institucional da educação superior no Brasil. No entanto, ele ficou restrito a um único exame e transferiu para os estudantes toda a responsabilidade pelo sucesso ou não das instituições. Além disso, serviu para a elaboração de rankings e não para direcionar políticas públicas para a área.

SINAES O Sinaes é um avanço, porque considera a avaliação do processo de formação, já que os estudantes passam pelas provas no começo e no fim do curso. Isso possibilita o redirecionamento do trabalho pedagógico do curso. O exame dos alunos é apenas parte da avaliação e não o todo. Outro ponto positivo é que a prova exige do estudante conhecimentos específicos e gerais, aqueles necessários a qualquer universitário.

[Correio Braziliense ]




 
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