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31/01/2006


Setor pede envolvimento com missão


Atuar em ONGs, mesmo que com horário fixo e salário no final do mês, não é como trabalhar em uma empresa qualquer. É preciso acreditar. Encarar o serviço como uma missão e celebrar cada pequena conquista.

Nós não apagamos as diferenças sociais, mas tentamos diminuí-las, diz Taciana Gouveia, diretora institucional da Abong e coordenadora de educação do Instituto Feminista para a Democracia - SOS Corpo, que funciona em Recife e atua para a promoção de direitos e para combater a discriminação sexual.

Graduada em psicologia e mestre em sociologia, Taciana prefere se definir como educadora feminista. O profissional coloca o seu conhecimento a serviço de uma transformação. É preciso ter compromisso político com a causa e lutar em prol dela, completa. Apaixonada pelo que faz, ela afirma que o salário é para se manter viva. No fim do mês, não recebo apenas em dinheiro, mas sou remunerada também com doses de satisfação e realização pessoal quando uma ação educativa, por exemplo, alcança o resultado esperado.

A organização ambientalista WWF-Brasil tem 93 funcionários -cerca de 65 em Brasília e os outros espalhados por todo o país, nos locais em que os projetos são tocados. Na hora da contratação dessas pessoas, um fator extra conta tanto quanto o currículo do profissional: o amor pela natureza e a vontade de protegê-la.

O que a gente busca quando seleciona pessoas para a WWF é envolvimento com a missão, para abraçar essa causa. Essa visão de contribuir com uma causa e ter uma missão nobre pesa, conta a responsável pelo departamento de Recursos Humanos, Deana Gurgel Leite Florêncio.

Cada candidato precisa mostrar que tem afinidade com o tema. Pessoas já envolvidas na preservação ambiental, que reciclam lixo e que estão preocupadas com o aquecimento climático, por exemplo, tem mais chances. Isso faz o diferencial, diz.

Mesmo com a carteira assinada e todos os direitos trabalhistas garantidos, a WWF não é uma empresa comum. O ambiente é informal, todos participam de reuniões para acompanhar os projetos e, claro, fazem a maior festa quando descobrem que o número de micos-leões-dourados cresceu.

É muito fácil encontrar gente até na área financeira que quer ir além da geração de lucro, afirma Deana.

Esse ponto de vista é compartilhado por Sóstenes Oliveira, diretor-geral da Fundação Gol de Letra, entidade presente em São Paulo e em Niterói que atende crianças e jovens dando cursos de complementação educacional. As pessoas que trabalham em ONGs buscam algo a mais. Formado em engenharia de produção, ele já trabalhou em empresas privadas, no poder público e em universidades e conta que se sente bastante motivado no terceiro setor, onde atua há três anos e meio. É muito importante ter uma identificação com a causa e isso é avaliado na hora na hora de contratar um profissional. Experiência anterior no terceiro setor também conta.

Voz ativa A proximidade e o contato contínuo com o público municiam as ONGs com vasto conhecimento sobre determinada realidade, explica Taciana, da Abong. Quando acontece alguma coisa, como um problema no posto de saúde, o usuário do serviço irá recorrer e pedir ajuda à entidade, por estar por dentro da problemática.

Aliada a uma visão política muito clara, formada principalmente na época da redemocratização brasileira nos anos 80 e 90, quando as ONGs começaram a ser criadas, a atuação dessas organizações permitiu a elaboração de uma série de instrumentos e a produção de conhecimento muito importante, avalia Taciana. Um exemplo está na área rural nordestina, onde o governo tem construído cisternas desenvolvidas com tecnologia de ONGs que trabalham na área de semi-árido. E é por isso, entre outras razões, que passamos a ter voz ativa cada vez mais.

Sóstenes, da Gol de Letra, concorda: Com o declínio da credibilidade do poder público, as ONGs funcionam como os olhos da sociedade.

[Folha de S.Paulo ]




 
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