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08/02/2007


Qualidade do ensino médio em queda


PATRICIA GIUDICE

A qualidade do ensino médio está em queda no Brasil e, em Minas, a situação não é diferente. No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) aplicado no ano passado, a média de nota obtida no Estado foi de 44,57. Em 2005, foi de 56,1.

Os números foram divulgados ontem pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira do Ministério da Educação (Inep/MEC). Minas teve índices acima da média nacional nos pontos totais da redação e prova objetiva, que no Brasil foi de 42,55.

Em 2005, o país atingiu a média de 53,5. De acordo com informações do Inep, no ranking nacional do Enem, os participantes fizeram 36,9 pontos na prova objetiva, em escala que vai de 0 a 100, e 52,08 na redação.

Esta foi a nota média obtida pelos mais de 2,7 milhões de estudantes que realizaram o exame no ano passado. No Sistema Nacional de Avaliação Básica (Saeb), a nota de alunos do 3º ano foi a pior desde 1995. No país, nesse período, na prova de matemática, a nota passou de 288,7 para 270,7.

As diferenças entre o ensino nas escolas públicas e particulares brasileiras ficou mais uma vez em evidência.

Na média total, os alunos que estudaram até o 3º ano do ensino médio somente em instituições públicas, fizeram 34,94 pontos na prova objetiva, enquanto os que estudaram em escolas particulares atingiram pontuação de 50,57.

Na redação, as diferenças foram menores: média de 51,23 pontos para os alunos do ensino público e 59,77 para os do privado.

A secretária de Estado da Educação, Vanessa Guimarães, discorda que o dado que aponta queda no rendimento dos alunos mineiros mostrado no Enem revele uma tendência. Para ela, pelo fato de o exame não ser obrigatório e haver uma oscilação no número de inscrições, a base de avaliação também é ampliada.

"Se esse número se estabilizar, vamos poder falar em tendência. Acho que é um resultado bom, estamos em segundo lugar no Brasil, mas ainda não se pode chegar a conclusão definitiva."

Em Belo Horizonte, o colégio Bernoulli ficou com a maior média: 70,16. Número que não ficou muito distante do obtido pelos alunos do Colégio Militar - 68,69 -, que é uma instituição pública federal.

Na avaliação do professor de política educacional da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Carlos Roberto Jamil Cury, a finalidade do exame é saber em que medida o estudante que está terminando o ensino médio é capaz de fazer uso do raciocínio, das relações humanas, de interpretar perguntas e desenvolver uma redação.

No entanto, segundo ele, a média é muito baixa mesmo que a prova aplicada no ano passada tenha sido mais rigorosa que a de 2005.

"O que é chocante é que deveríamos ter uma média acima de 60, já que o exame não mede memorização, mas sim a capacidade de obter relações. Isso mostra que os estudantes não estão tendo oportunidades ao longo da educação básica e ao final do ensino médio. Oportunidades que deveriam qualificálos como cidadãos, para ter uma participação ativa e crítica para o prosseguimento dos estudos ", analisou Cury.

Período de aula deve ser ampliado, diz especialista

As influências para a queda da média de notas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), principalmente nas escolas públicas, continuam sendo, segundo o professor de políticas educacionais Carlos Jamil Cury, a falta de ensino em tempo integral ou com carga horária maior do que 20 horas semanais, de livros gratuitos, biblioteca bem equipada, alimentação escolar de qualidade.

Ele cita ainda, como fator que contribui com a queda da qualidade do ensino, a necessidade que muitos alunos do ensino médio têm de estudar no período noturno.

"No Brasil, cerca de 50% dos alunos que estão hoje no ensino médio estudam à noite porque precisam trabalhar durante o dia, poucos Estados distribuem livros didáticos para os jovens como se tem no ensino fundamental. Minas agora está oferecendo livro. Mas os alunos não têm uma alimentação escolar, as bibliotecas não são enriquecidas de material. Imagina concorrer com alunos que têm um reforço de inglês, aulas particulares, uma boa biblioteca em casa", disse Cury. (PG)

ProUni impulsiona adesão ao teste

De acordo com o relatório do Ministério da Educação, 71% dos estudantes responderam um relatório socioeconômico e nele afirmaram que fizeram o Enem para facilitar o ingresso na universidade.

A prova do Enem é um dos critérios que permitem a estudantes de baixa renda se inscrever no Programa Universidade para Todos (ProUni), que concede bolsas de estudo integrais e parciais em instituições de ensino superior privadas.

A nota mínima que deve ser alcançada no Enem para conseguir uma bolsa no ProUni este ano é 45 pontos. Segundo o MEC, 565 instituições de ensino superior em todo o país, entre as quais 62 públicas, aceitam as notas do Enem como critério para o ingresso num curso de graduação.

O Enem foi criado em 1998 com o objetivo de avaliar a qualidade do ensino médio em todo o país. A prova não é obrigatória e é aplicada, uma vez por ano, aos alunos que concluem essa fase da vida escolar.(PG/Com Folhapress)

Escola municipal teve participação de 40%

Pouco mais de 25 escolas públicas municipais de Belo Horizonte participaram do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o que representa 40% dos alunos matriculados na rede.

E, mesmo com a queda de mais de dez pontos de um ano para o outro - média de 58,2 em 2005 para 47,3 em 2006 -, a Secretaria Municipal de Educação não considera o dado alarmante.

"Como todos os municípios em geral, Belo Horizonte sofreu uma queda não tão significativa e que ainda não revela nenhuma tendência. Isso só seria possível se fosse registrado em um longo período", explicou o coordenador do Núcleo de Cultura e Saberes, Juvenis César Eduardo Moura.

Para ele, desde a implantação do Enem, há nove anos, o modelo da prova teve muitas variações. Antes, conforme analisou Moura, o teste avaliava competências e habilidades do aluno e hoje está parecido com um vestibular.

"Isso tem um impacto especialmente nos alunos da rede pública, pelo diferencial que esses alunos têm em relação aos bens culturais", disse ele, afirmando que o resultado sempre implica em mudanças e evolução no sistema.

"Temos que dar continuidade aos trabalhos de formação dos profissionais da rede municipal, já estamos ampliando a carga horária do ensino médio diurno de 20 para 25 horas semanais e também incentivando as possibilidades de acesso a atividades culturais", afirmou.

O Enem registrou recorde de participação em 2006: cerca de 2,7 milhões de estudantes fizeram a prova, de um total de 3,7 milhões de inscritos. O percentual dos inscritos que efetivamente compareceram à prova foi o mais alto desde 1998, quando o exame foi implantado: 74,89% do total.

A prova foi realizada no dia 27 de agosto do ano passado. Fizeram o exame os alunos que concluíram o ensino médio no ano passado e também os egressos, ou seja, os que já haviam concluído o ensino médio em anos anteriores. (PG)


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