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Quinta-feira :: 09 / 09 / 2010
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A pressão da inadimplência
Existem, hoje, no Brasil, 1.763 instituições de ensino superior (IES) que cobram mensalidades. Boa parte delas enfrenta problemas de caixa por causa da crescente inadimplência. Heitor Pinto Filho, presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) e dono da UniNove, de São Paulo, estima que, atualmente, entre 30% e 40% dos estudantes matriculados estejam inadimplentes. Esse problema não tem só a ver com a crise pela qual passa o País, mas também com uma MP editada no passado, que permite que o aluno estude sem pagar, critica. Além disso, diz Pinto Filho, a grande quantidade de instituições abertas nos últimos anos criou problemas na concorrência. O presidente da Anup antecipa que haverá problemas não apenas nos investimentos em melhoria da qualidade de ensino. Até os salários dos professores poderão atrasar por causa das dificuldades dos alunos em pagar as mensalidades.
Especializada no setor de instituições de ensino superior, a empresa de consultoria Lobo & Associados fez uma pesquisa sobre a inadimplência nas IES privadas brasileiras no ano passado, na qual analisou 49 instituições do País. A média nacional de inadimplência encontrada é de 11% a 20% e a coordenadora do trabalho, Maria Beatriz, concorda que está subindo. Ela explica a diferença entre este número e o apresentado pela Anup: - Consideramos inadimplência somente a partir do terceiro mês de não-pagamento da mensalidade. Além disso, observamos que, mesmo nesses grupos, de 60% a 80% das dívidas costumam ser renegociadas ou pagas na rematrícula. Maria Beatriz mostra, com base em seu trabalho, que há uma relação direta entre a qualidade do ensino e a taxa de inadimplência. Nas IES que obtiveram conceitos A e B no Provão, a taxa é de 12,1%, enquanto nas que obtiveram notas D e E a taxa praticamente dobra: 21,9%. Nas que obtiveram nota C, a taxa é de 16%. Roberto Lobo, ex-reitor da USP e da Universidade de Mogi das Cruzes e também sócio da Lobo & Associados, afirma que as instituições de ensino superior que quebram são as que apresentam problemas de gestão. Deficiências que podem acometer tanto as IES que primam pela alta qualidade da educação - e têm gastos elevados com professores em tempo integral, bibliotecas, pesquisa, etc. - como aquelas nas quais os custos com a educação são mais baixos: - Uma das armadilhas para as IES privadas de ponta é tentar imitar o modelo das universidades públicas e se esquecer da realidade do setor, alerta Lobo. No grupo de excelência do ensino superior está a Facamp (Faculdades de Campinas). Prestes a completar seu quarto ano em atividade, a instituição já é muito procurada por alunos que querem transferência, mas o nível de exigência faz com que 90% dos pedidos sejam negados. Com um quadro atual de 920 alunos, a Facamp tem taxa de inadimplência de apenas 0,8%. Um dos fundadores da Unicamp e sócio-fundador da Facamp, o professor João Manuel Cardoso de Mello, explica como funciona a equação: - Os salários dos professores são altos, a mensalidade é quase o dobro da média do mercado (R$ 965) e nosso custo administrativo é baixo. O aluguel é barato, as instalações são térreas, toda a administração é informatizada... A Facamp começou oferecendo apenas os cursos de Administração e Economia. Hoje oferece mais cinco opções de graduação, além de quatro MBAs. No início deste ano, o Grupo Unilever selecionou novos trainees e estagiários entre mais de 10 mil candidatos. Na área de Administração, a Facamp foi a IES com maior número de estudantes aprovados: cinco. Cardoso explica os bons resultados com ingredientes que vão desde uma didática que integra teoria e prática, até a preocupação em desenvolver o raciocínio abstrato dos alunos. Além disso, em todos os cursos da Facamp aulas de inglês e português são obrigatórias. De volta à questão administrativa, Cardoso, que foi diretor do Instituto de Economia da Unicamp, comenta o quadro geral das IES brasileiras: - As instituições de nível médio geralmente são muito mal geridas. E são elas as que mais sofrem com o empobrecimento da classe média, a inadimplência, a evasão e a concorrência. Edevaldo Alves da Silva, presidente da UniFMU, da qual fazem parte também, UniFiam-Faam (de São Paulo) e Ceub (de Brasília), comenta o problema da inadimplência. Segundo ele, a taxa na instituição é de cerca de 25%. No ano passado, chegou ao recorde de 32%. O problema tem devorado todo mundo. Para complicar mais, a nossa concorrência é brava. Mas achamos que sofremos menos porque o aluno que chega até nós vem pela qualidade do ensino, afirma. A UniFMU tem 25 mil alunos, e mensalidades na faixa dos R$ 600. Apesar do problema em relação ao pagamento, o empresário garante que não tem reduzido o ritmo de investimentos. Não é possível ter apenas uma lógica empresarial nesse ramo. A universidade tem procurado negociar com os alunos em dificuldade financeira e obtém sucesso em 95% dos casos, diz. Na Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, a taxa de inadimplência declarada pela assessoria de imprensa é de 5% a 8%, em média. A instituição tem 95 mil alunos na graduação e mensalidades por volta de R$ 320. O diretor da mantenedora da Estácio, Marcelo Campos, comenta as estratégias da instituição para contornar a inadimplência: - Como boa parte do nosso público é das classes B e C, oferecemos os mesmos cursos com 50% de desconto, no período da tarde, como opção para quem não pode pagar. Na mesma faixa de mensalidades (em torno de R$ 320) e também sediada no Rio de Janeiro, a UniverCidade tem 35.483 alunos e, segundo informa sua assessoria de imprensa, com taxa de inadimplência de 14%. Também por meio da assessoria, o vice-reitor Paulo Alonso informa que a inadimplência altera o fluxo de caixa da UniverCidade e isso se reflete na diminuição de investimentos, como a renovação de laboratórios e as benfeitorias nas instalações. No rol das instituições que tradicionalmente focam em excelência, novamente encontramos aquelas em que a taxa de inadimplência é apenas residual. é o caso da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV (Fundação Getúlio Vargas), que tem 1.600 alunos nos cursos de graduação em Administração Pública e de Empresas, e mensalidades no valor de R$ 1.298. O vice-coordenador dos cursos, Ricardo Bresler, explica que cerca de 20% a 25% dos alunos (357) estudam custeados pelo crédito educativo, um financiamento estudantil que existe desde a década de 60 para ajudar os alunos sem recursos financeiros. Esse crédito surgiu para que a falta de dinheiro não impedisse um aluno aprovado de estudar aqui e, hoje, ele nos permite não ter inadimplência, diz Bresler. Na mesma linha está o Ibmec Educacional São Paulo. A instituição tem 6 mil alunos, distribuídos em cursos de graduação e especializações (como MBA e CBA). A taxa de inadimplência no Ibmec é de 2,5%, porcentual considerado muito baixo pelo superintendente de operações, José Antônio Capito. Ele comenta a gestão do Ibmec, que tem em sua equação mensalidades de R$ 1.520: - Nosso mix de produtos nos permite investir em pesquisa e contratar professores de renome em tempo integral. Nossa graduação se paga, mas não sobreviveria sozinha como empresa rentável. Nosso custo administrativo é de 16,5% do faturamento e queremos baixá-lo para 15%. O que nos equilibra é a combinação de graduação e pós-graduação. Fonte: CartaCapital [CartaCapital ] |
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