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16/08/2005


Unesp/São José do Rio Preto mostra como queimadas oferecem riscos à saúde


A queima da palha da cana-de-aþ·car, largamente realizada na agroind·stria canavieira por facilitar o corte da cana e aumentar a produtividade, lanþa no ar substÔncias t¾xicas, prejudiciais ao meio ambiente e ao homem. Dentre essas substÔncias estÒo os compostos que fazem parte da classe dos Hidrocarbonetos PolicÝclicos Aromßticos (HPAs). Esses compostos quÝmicos liberados durante a combustÒo da cana oferecem riscos Ó sa·de das populaþ§es expostas, pois muitos deles possuem propriedades mutagÛnica e carcinogÛnica comprovadas, ou seja, provocam mutaþ§es genÚticas que podem levar ao aparecimento do cÔncer.

Em estudos realizados para sua tese de doutorado, defendida, em novembro de 2004, no Instituto de BiociÛncias, Letras e CiÛncias Exatas (Ibilce) da Unesp, campus de SÒo JosÚ do Rio Preto, Rosa Maria do Vale Bosso constatou altos nÝveis dessas substÔncias na urina de cortadores de cana no perÝodo de colheita. O trabalho foi elaborado sob a orientaþÒo de Clßudia Mßrcia Carareto e coordenaþÒo de NÝvea Tedeschi Fr¾es junto ao Programa de P¾s-GraduaþÒo em GenÚtica do Ibilce.

Por meio da anßlise da urina de trabalhadores rurais, a pesquisadora procurou medir a quantidade dos HPAs excretada e a sua mutagenicidade, ou seja, a capacidade desses compostos se ligarem ao DNA de bactÚrias provocando alteraþ§es em seu funcionamento. Entre 2002 e 2003, Rosa Maria investigou 41 trabalhadores rurais da regiÒo de Catanduva, e 21 trabalhadores da zona urbana; todos os indivÝduos analisados na pesquisa eram nÒo-fumantes, uma vez que a fumaþa do cigarro tambÚm apresenta HPAs em sua composiþÒo. Os voluntßrios foram amostrados na safra (quando os trabalhadores cortam cana queimada) e na entressafra (Úpoca de plantio), perÝodos de exposiþÒo e nÒo-exposiþÒo aos hidrocarbonetos. Os trabalhadores urbanos foram utilizados como grupo controle.

A pesquisadora verificou que, no perÝodo da safra, o nÝvel de HPAs na urina dos cortadores de cana foi noves vezes maior que na entressafra. Jß o nÝvel mÚdio quantificado no grupo controle foi semelhante ao da entressafra, constata.

Rosa Maria chama atenþÒo para o grau de exposiþÒo dos trabalhadores canavieiros aos Hidrocarbonetos PolicÝclicos Aromßticos: Os nÝveis mÚdios dessas substÔncias na urina dos cortadores de cana amostrados na safra foram bem maiores que os nÝveis verificados na urina de carvoeiros do Estado da Bahia expostos a fumaþa da madeira. Tais nÝveis foram tambÚm maiores que aqueles verificados em indivÝduos expostos a poluiþÒo urbana da cidade de Copenhague (Dinamarca) que trabalhavam como motoristas de ¶nibus e como carteiros, ambos nÒo-fumantes. ConcluÝmos que os cortadores de cana-de-aþ·car estÒo significativamente mais expostos aos HPAs durante o perÝodo da safra que na entressafra.

As amostras de urina tambÚm foram submetidas a teste de mutagenicidade, realizado com bactÚrias do tipo Salmonella typhimurium. Os testes avaliaram as alteraþ§es que os HPAs podem provocar no material genÚtico: Mesmo sendo realizado com bactÚrias, organismos muito simples comparados ao homem, o teste simula bem o que pode ocorrer no organismo humano, explica Rosa Maria. Segundo a pesquisadora, uma vez que os compostos sÒo mutagÛnicos para uma bactÚria especÝfica, isso Ú, podem provocar alteraþ§es no DNA do organismo que estß sendo utilizado no ensaio, esses compostos tambÚm poderÒo modificar o DNA de uma cÚlula humana.

Nesses testes, a urina dos cortadores de cana mostrou-se altamente t¾xica: Vßrias amostras, com doses extremamente baixas, mataram os microorganismos, sendo possÝvel detectar o efeito mutagÛnico das substÔncias em apenas trÛs amostras. A pesquisadora salienta que essa alta toxidade pode sugerir efeitos prejudiciais ao ser humano: Esse dado indica a necessidade de anßlises complementares em cÚlulas dos pr¾prios trabalhadores, ressalta Rosa Maria.

Os nÝveis de HPAs encontrados em cada organismo, assim como as conseq³Ûncias da exposiþÒo a essas substÔncias, dependem da heranþa genÚtica de cada indivÝduo, explica a pesquisadora. Rosa Maria ainda destaca que o desenvolvimento do cÔncer Ú um processo extremamente complexo que depende de vßrios fatores, como a predisposiþÒo genÚtica, suscetibilidade, tipo de alimentaþÒo, estresse, dentre outros. No entanto, teremos que levar em consideraþÒo os nÝveis mais altos de HPAs eliminados pelos cortadores de cana na safra em relaþÒo a entressafra e controles, demonstrados no estudo, pois uma exposiþÒo adicional a esses compostos quÝmicos representa um risco maior para o desenvolvimento de doenþas degenerativas, como enfermidades cardiorespirat¾rias, e o desenvolvimento de cÔncer.

Segundo a pesquisadora, os resultados obtidos poderÒo auxiliar na minimizaþÒo da exposiþÒo ocupacional aos hidrocarbonetos, apontando para a necessidade do uso de equipamentos de proteþÒo individual (roupas que minimizem a absorþÒo dos compostos, mßscaras, luvas), e de acompanhamento mÚdico com a realizaþÒo de todos os exames rotineiros, como Ú direito de toda classe trabalhadora e, nesse caso, monitoramento clÝnico mais intenso.

Rosa Maria defende a extinþÒo da queimada nos canaviais em ßreas onde o acesso de maquinaria Ú possÝvel: Medidas como essas podem significar uma importante reduþÒo nos gastos com sa·de p·blica, uma vez que pesquisas realizadas em hospitais de municÝpios de regi§es canavieiras tÛm mostrado aumento de internaþ§es e queixas de doenþas respirat¾rias no perÝodo das queimas de canaviais, alÚm de um grande percentual de ¾bitos por doenþas dos sistemas circulat¾rio e cardiorespirat¾rio, e por desenvolvimento de tumores, conclui.

Fonte: Unesp




 
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