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23/06/2003


Estudo da Unicamp antevê impactos do efeito estufa


Caso sejam confirmados os progn¾sticos sobre as alteraþ§es climßticas decorrentes do progressivo aquecimento global, a produtividade e a qualidade das culturas agrÝcolas perenes brasileiras sofrerÒo um grave impacto. O cafÚ, responsßvel por 5% do PIB da agricultura nacional (R$ 15 bilh§es), deverß ser eliminado dos estados de Minas Gerais, Goißs e SÒo Paulo assim que a temperatura mÚdia da Terra estiver entre 3C e 5,8C acima da atual, situaþÒo prevista para ocorrer num prazo de 50 a 100 anos. O cenßrio, altamente preocupante, foi traþado por uma pesquisa pioneira que acaba de ser concluÝda pela Embrapa Informßtica Agropecußria e o Centro de Pesquisas Meteorol¾gicas e Climßticas Aplicadas Ó Agricultura (Cepagri) da Unicamp. O objetivo do trabalho Ú alertar as autoridades p·blicas e a comunidade cientÝfica para a necessidade da adoþÒo de medidas que evitem o que pode vir a ser uma tragÚdia para agricultura e a economia do PaÝs.

O estudo foi dividido em duas partes. A primeira, recÚm-encerrada, cuidou apenas do cafÚ. De acordo com Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa, coordenadora do trabalho, a cultura foi escolhida por causa da sua tradiþÒo e importÔncia econ¶mica. "AlÚm disso, o cafÚ faz uma espÚcie de representaþÒo de outras culturas perenes. O que acontece com ele pode ser comparado ao que ocorre com a citricultura, por exemplo". A segunda etapa, que terß inÝcio nos pr¾ximos dias e se estenderß por um ano, envolverß o milho, a soja e o trigo. O diretor-associado do Cepagri, professor Hilton Silveira Pinto, explica que as projeþ§es em torno da cafeicultura foram feitas com base numa significativa massa de dados, muitos deles gerados pelos pr¾prios centros condutores da pesquisa. Foram consideradas informaþ§es como produtividade, ßrea plantada, tipo de solo, entre outras.

TambÚm foram utilizados os progn¾sticos feitos pelo IPCC, sigla em inglÛs para Painel Intergovernamental sobre Mudanþa do Clima. De acordo com o organismo, se nada for mudado em relaþÒo Ó progressÒo do efeito estufa, a temperatura mÚdia do planeta estarß 5,8C mais alta atÚ 2100. Ao cruzarem todas essas varißveis, os pesquisadores tiveram como projetar, de forma gradual e por meio de mapas e grßficos, como serß o impacto do aquecimento sobre a cultura do cafÚ. Assim, eles estabeleceram trÛs cenßrios diferentes, ou seja, o que deve ocorrer quando estiver 1C, 3C e 5,8C mais quente do que agora.

A tendÛncia Ú que as plantaþ§es de cafÚ sejam transferidas cada vez mais para o sul. "No futuro, vamos tomar cafÚ produzido na Argentina", diz Silveira Pinto. Essa migraþÒo deverß ocorrer, conforme o docente da Unicamp, porque as plantas vÒo procurar regi§es que sÒo mais frias atualmente, em busca de um equilÝbrio climßtico. Como exemplo desse fen¶meno, tome-se SÒo Paulo, o segundo maior produtor brasileiro. Com 1C a mais, a mancha no mapa jß indica uma leve reduþÒo da ßrea plantada, mas um forte deslocamento da cafeicultura do norte para o centro do Estado. "AlÚm disso, num cenßrio desses, o plantio passa a ocorrer em regi§es mais altas, o que dificulta o manejo, reduz a produtividade e eleva o preþo do produto", esclarece Assad.

SituaþÒo crÝtica - Com a temperatura 3C mais alta, a situaþÒo torna-se ainda mais crÝtica. A ßrea cultivada cai para menos de um terþo da original e torna-se mais espaþada. Jß com 5,8C, o cafÚ desaparece do solo paulista. De acordo com o professor Silveira Pinto, o ·nico que obteria ganhos iniciais com o aquecimento Ú o Paranß, que tem clima mais frio. No cenßrio intermedißrio, com a temperatura 3C mais elevada, o Estado, que hoje produz cafÚ numa estreita faixa situada ao norte, passaria a ter as regi§es central e sul ocupadas pela cultura. "Mas isso nÒo representaria uma compensaþÒo para a produþÒo nacional, uma vez que chove muito no Paranß. Isso significa que o cafÚ gerado lß teria uma qualidade muito inferior do que a atual", afirma o pesquisador Assad. Nos outros estados considerados no estudo, de acordo com ele, a cafeicultura tambÚm se tornaria invißvel assim que a temperatura subisse entre 3C e 5,8C. "S¾ para se ter uma idÚia, no cenßrio mais desfavorßvel, a produþÒo de cafÚ no Brasil cairia das atuais 30 milh§es de sacas ao ano para algo em torno de 3 milh§es. Para resumir, seria uma tragÚdia nacional", define.

Mas existe uma saÝda para essa grave ameaþa provocada pelo contÝnuo aquecimento global? Segundo os pesquisadores, sim. O estudo conduzido pela Embrapa e o Cepagri, de acordo com eles, constitui uma ferramenta para auxiliar no planejamento de medidas preventivas. A mais ¾bvia, mas tambÚm a mais complexa delas, Ú a adoþÒo de programas de reduþÒo de emissÒo de gases que contribuem para a aceleraþÒo do efeito estufa. O desafio Ú complicado, dado que os Estados Unidos, paÝs que responde sozinho por 25% do volume mundial, nÒo Ú signatßrio do Protocolo de Kyoto. Por meio do documento, uma sÚrie de naþ§es industrializadas se comprometeram em reduzir suas emiss§es em 5,2%, em comparaþÒo com os nÝveis de 1990. A meta Ú alcanþar o resultado no perÝodo de 2008-2012.

Outra iniciativa, apontam os autores do estudo, Ú o desenvolvimento de novas variedades de cafÚ que sejam resistentes ao calor. "Nesse caso, nÒo podemos descartar nem mesmo a possibilidade da utilizaþÒo de transgÛnicos, caso isso seja necessßrio", adverte Assad. Embora ainda nÒo tenham idÚia do que vÒo descobrir em relaþÒo ao trigo, milho e soja, os pesquisadores nÒo demonstram muito otimismo. "A perspectiva Ú que tenhamos pelo menos limitaþÒo de plantio", prevÛ Assad. A pesquisa conjunta da Embrapa e do Cepagri terß consumido, atÚ o final dos trabalhos, R$ 250 mil. Os recursos vieram do fundo setorial CT-Hidro/CNPq, do MinistÚrio da CiÛncia e Tecnologia (MCT), e da FINEP, tambÚm vinculada ao MCT.

Fonte: Unicamp



 
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