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Por Lilian Burgardt
- Essa noite tive um sonho estranho...
- Sonhou com o quê, meu filho?
- Sonhei que estava em um navio negreiro que viajava sob espumas flutuantes
e, no convés, Bentinho e Capitu discutiam por conta do filho que ele
alegava ser de Peri e ela jurava ser dele próprio. Pode?
Pode... se você está às vésperas do vestibular e terá que enfrentar questões referentes às famosas listas de livros, é perfeitamente possível que ande sonhando com clássicos da literatura brasileira e até incorporando a personalidade de alguns personagens. É verdade que a leitura obrigatória do vestibular assusta muita gente, mas é fato que elas têm algo a dizer e, cá entre nós, são livros que você deveria ter lido ao longo dos anos, especialmente no Ensino Médio, e não deixar para a última hora do vestibular, não é?
Puxões de orelhas à parte, ainda dá tempo de corrigir esse déficit sem passar às noites sonhando com Machado de Assis. E, para facilitar ainda mais a sua vida, algumas universidades vem dando uma mãozinha para que isso aconteça. Atentos a um movimento recente que vinha fazendo os pré-universitários trocarem os livros pelos resumos, a USP (Universidade de São Paulo) e a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) decidiram unificar sua lista de livros para o vestibular 2007. Ao invés das 17 (!) tradicionais obras (as duas listas somadas), os candidatos terão de ler apenas nove livros, entre clássicos e contemporâneos.
O coordenador executivo da Comvest (Comissão Permanente Para os Vestibulares), Leandro Tessler, explica que, até hoje, a lista obrigatória das duas universidades era bastante distinta. A USP optava por livros clássicos, já a Unicamp por obras mais arrojadas. Com isso, floresceu a indústria de resumos. "Percebemos que não fazia sentido exigir 17 livros ignorando o que acontecia em volta, por isso decidimos unificar a lista, afinal, é preferível que eles leiam nove livros do que 17 resumos", opina.
Não é de hoje que a leitura dos resumos é uma prática rejeitada por especialistas. No entanto, seu uso complementar pode ajudar na compreensão das obras. "O resumo superficial da obra não serve para nada a não ser sanar a curiosidade. Já um resumo crítico, usado após a leitura completa da obra, facilita o entendimento, especialmente para aqueles jovens que não tem o hábito de ler e entram, pela primeira vez, em contato com obras densas", afirma o professor do Cursinho da Poli Roberto Juliano.
Então, o que fazer para reforçar a leitura?
Assim como o resumo crítico, existem outros instrumentos paliativos que podem ajudar o candidato a se preparar para o vestibular. Assistir a filmes baseados ou inspirados na literatura em questão é um deles. E aí vale qualquer filme, desde "O primo Basílio" - que procura retratar mais fielmente aquilo que foi escrito no livro - até filmes contemporâneos como "Dom", inspirado no livro "Dom Casmurro", de Machado de Assis.
Segundo a professora de Literatura da Unicamp, Norma Sandra, em muitos casos, embora os filmes nada tenham a ver com a obra literária, assistí-los faz com que os alunos tenham contato com uma outra interpretação, fazendo com que ele reflita sobre as diferentes visões de uma mesma história, ou até mesmo, despertando o interesse por sua leitura. "O filme é interessante porque mostra ao espectador como as histórias vão se completando ou até se confrontando. É um contato que pode até despertar o interesse do aluno por determinado livro", diz.
O professor Juliano também concorda que os filmes são válidos, ainda que não reproduzam a história das páginas dos livros. "Não é preciso que o filme retrate exatamente o que o livro faz, até porque todos eles são uma tentativa frustrada de reproduzir a obra literária. Mas, ainda assim, é válido porque dá ao jovem outra visão sobre determinada obra", explica. Ele cita como exemplo o filme "Macunaíma". No livro se fala de uma piscina de macarronada. No filme, eles fizeram questão de retratar uma piscina de feijoada com pedaços de corpos humanos. "O cineasta fez uma modificação mas teve o cuidado de mostrar aos espectadores que o filme era baseado no livro e que, portanto, ninguém devia confundí-lo", diz.
Outra opção para compreender melhor os livros é discutí-los incansávelmente, seja com a família, professores ou colegas. "Em sala de aula, os seminários são muito bons para isso. Dão aos jovens a oportunidade de mostrar sua visão sobre o que leram e, ao mesmo tempo, discutir isso com professores e colegas", afirma Juliano. A professora Norma acrescenta que a Internet pode auxiliar os jovens a compreender melhor as obras. "Criar comunidades virtuais para debater os livros e ter novas opiniões enriquece muito o entendimento do aluno sobre o tema", defende.
Há casos em que a leitura da biografia do autor junto a um contexto histórico da época também facilitam a leitura do livro. Isto porque, nenhuma produção humana está desligada do contexto em que seu autor vive. "Se você está lendo uma obra do Realismo, é imprescindível lembrar que a influência de Karl Marx é imensa na segunda metade do século XX", diz Juliano. "Você não pode ler Machado de Assis esquecendo que ele vivia numa sociedade branca sendo negro e que tinha problemas sérios de saúde vistos com preconceito por uma sociedade que se achava no auge de sua integridade física e mental", exemplifica o professor.
Para Norma, embora não exista fórmula que se sobreponha a leitura do livro, há muitos recursos e estratégias mediadoras para promover o encontro do leitor com tal obra. Um deles é conhecer o momento em que ela foi criada tendo um especialista para apresentá-la ao estudante. "O leitor mais experiente pode mostrar ao jovem o porquê de muitas questões abordadas no livro, isso é importante. Sem esse tradutor, o estudante não terá porta de entrada para a obra", explica.
O professor Juliano cita Guimarães Rosa como exemplo. "O estudante tem que saber que ao ler as obras do autor ele não está lendo português, mas 'guimarães rosês'. Então, não é que ele não escreve português, ele tem um idioma próprio", diz. Para ilustrar, o professor aponta o livro "Macunaíma". "Ao abrir este livro, o estudante tem que saber que não dá para esperar de Macunaíma começo, meio e fim, porque, simplesmente, não vai ter isso. Ele tem que iniciar a leitura já sabendo que se trata de uma Antologia do Folclore Brasileiro. E quem vai explicar isso para ele?", indaga. "O aluno tem que ter malícia e contar com auxílio para entender essas questões", encerra.
Download gratuito
Nos links abaixo, o Universia disponibiliza, gratuitamente - em parceria com o site Cultvox -, mais de 20 livros para download. São livros cobrados em alguns dos maiores vestibulares do país. Para conferir a lista completa da instituição em que pretende ingressar, acesse o canal "Pré-universitário" e confira as informações sobre os processos seletivos.
| Livro | Autor |
Link |
| Carta a El Rei D. Manuel | Pero Vaz de Caminha |
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| Conto de Escola | Machado de Assis |
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| A cidade e as serras | Eça de Queirós |
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| A escrava Isaura | Bernardo Guimarães |
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| A farsa ou auto de Inês Pereira | Gil Vicente |
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| Auto da barca do inferno | Gil Vicente |
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| Dom Casmurro | Machado de Assis |
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| Espumas flutuantes | Castro Alves |
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| Iracema | José de Alencar |
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| Marília de Dirceu | Tomás Antonio Gonzaga |
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| Melhores Contos | Lima Barreto |
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| Memorial de Aires | Machado de Assis |
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| Memórias de um sargento de milícias | Manuel Antônio de Almeida |
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| Memórias póstumas de Brás Cubas | Machado de Assis |
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| O Alienista | Machado de Assis |
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| O cortiço | Aluísio Azevedo |
|
| O crime do Padre Amaro | Eça de Queirós |
|
| O guarani | José de Alencar |
|
| Os Lusíadas | Luís de Camões |
|
| Os Sertões | Euclides da Cunha |
|
| Poemas Diversos | Fernando Pessoa |
|
| Poemas Malditos | Álvares de Azevedo |
|
| Quincas Borba | Machado de Assis |
|
| Recordações do escrivão Isaías Caminha | Lima Barreto |
|
| Senhora | José de Alencar |
|
| Triste fim de Policarpo Quaresma | Lima Barreto |
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