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Feiras de Ciências impulsionam carreira

Por que é bom participar de Feiras de Ciências desde cedo?

Publicado em 16/03/2007 - 00:01

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Por Silvia Angerami

- Lembra de mim, professora? - pergunta o calouro da Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo) à professora Roseli de Deus Lopes, coordenadora geral da FEBRACE (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia)
- Sim, você participou da FEBRACE, não foi?
- Participei. E agora estou aqui!
- Está gostando?
- Estou adorando!
- Mas você só teve uma aula!
- Ah, mas estou adorando.

O diálogo acima costuma se repetir todo início de ano letivo. Alguns dos estudantes que participam da FEBRACE, feira realizada pelo quinto ano consecutivo pelo LSI (Laboratório de Sistemas Integráveis), da Poli-USP, acabam realizando o sonho de entrar na instituição, onde estiveram quando ainda eram alunos do Ensino Médio.

Mas essa é só uma parte da história de sucesso dessa garotada criativa e talentosa, espalhada por todo o Brasil. Participar de feiras de Ciências, algo que nem sempre é valorizado pelos alunos e pelas próprias escolas de Ensino Médio, pode ser muito importante para definir não apenas a carreira, como também o futuro desses jovens.

Talento e criatividade

Uma tenda de 2 mil metros quadrados, instalada ao lado do estacionamento da Poli-USP, na Cidade Universitária, em São Paulo, SP, abrigou 229 projetos de estudantes pré-universitários. Trata-se da com o objetivo de incentivar o interesse pela iniciação científica em alunos do Ensino Médio e de aproximá-los do meio universitário.

"Tudo se trata de aprender a fazer as perguntas certas", afirma a professora Roseli. Ela coleciona histórias curiosas e de sucesso e superação que viu acontecer diante de seus olhos durante esses cinco anos. A crise de choro do aluno de escola pública que foi selecionado para participar da feira nos Estados Unidos e via o seu sonho perto de chegar ao fim. O garoto, preocupado porque poderia ter LER (lesão por esforço repetitivo), já que costumava usar o computador horas a fio, e que criou um software de reconhecimento de voz para evitar o problema. O aluno que criou um manual prático para desalinização da água, com o objetivo de auxiliar sua avó, que mora em um local onde não há água nem energia elétrica. As histórias são inúmeras. Para a professora Roseli, o fundamental é que os alunos estão aprendendo a usar o conhecimento para solucionar questões reais e importantes para eles.

Este ano, a FEBRACE recebeu 948 projetos. Desses, foram selecionados 229, desenvolvidos por alunos da oitava série do Ensino Fundamental e do Ensino Médio e técnico. Os trabalhos foram divididos em sete áreas: Engenharia, Ciências Biológicas, Humanas, Exatas, Sociais, da Saúde e Agrárias. A FEBRACE é realizada desde 2003. Nesses cinco anos, a participação foi crescente.

Números de projetos inscritos:
2003

200

2004
300
2005
550
2006
650
2007
948

Com o aumento do número de projetos, Roseli observa também o aumento da qualidade dos trabalhos. Outro ponto que a professora destaca diz respeito ao reconhecimento e as oportunidades que se abrem, quando o estudante classificado para a FEBRACE retorna ao seu município de origem. Se o jovem souber aproveitar essas oportunidades, ele pode conseguir destaque na carreira. Roseli é a favor que se dê liberdade para o aluno investigar aquilo que interessa a ele. "A Ciência se faz com curiosidade, a questão do processo de criação do conhecimento é muito importante", ressalta. "A criatividade precisa de liberdade. Com o estímulo certo, o jovem ganha motivação e sente que pode ser protagonista da sua história".

Áreas carentes

As áreas técnicas e de tecnologia, segundo Ruy Castro, gerente de Educação da Intel Brasil, são cada vez menos procuradas pelos estudantes. "Essas são áreas carentes, é um problema global, mundial. Os alunos não buscam essas carreiras devido à deficiência do ensino nessa área", afirma. Que mais jovens escolham tecnologia: este é o objetivo da Intel ao apoiar feiras como a Febrace no Brasil e a ISEF (Feira Internacional de Ciência e Engenharia da Intel, na sigla em inglês) nos Estados Unidos, a maior competição científica pré-universitária do mundo. "Ao promover feiras de Ciências para o Ensino Médio, o estudante vê que tem essa capacidade, que pode fazer projetos de pesquisa e chegar a algumas conclusões. Ele aprende a usar metodologia cientifica para fazer pesquisa", diz.

Castro afirma que ao realizar esses projetos multidisciplinares, os estudantes ficam mais seguros ao entrar na universidade. Dessa forma, as próprias empresas esperam suprir essa carência do mercado. "Existem vagas remanescentes nas áreas de Engenharia, Matemática, Física e Química. As feiras de Ciências procuram corrigir essas falhas", acredita.

Do ponto de vista do aluno, a participação em feiras de Ciências pode garantir o seu estudo em Nível Superior. O estudante Denilson Luz de Freitas, de Vitória da Conquista, é um exemplo. Participou da ISEF no ano passado e conseguiu um prêmio de 1.000 dólares para custear suas despesas na Universidade. Este ano, ele é aluno do CEFET, na cidade onde mora (ver história completa em "Eu cheguei lá").

Outro fator importante: segundo Castro, de 10% a 15% dos projetos requerem patentes e têm grande possibilidade de se tornar um produto real de mercado. O projeto dos gaúchos Pedro Castagna e Liliane Almeida "Pesquisa de cor e couro", sobre tingimento de couro, recebeu proposta de uma empresa da região, para industrializar o processo. Eles foram finalistas na Intel ISEF (Feira Internacional de Ciência e Engenharia da Intel) e subiram ao palco principal do Centro de Convenções em Cleveland, Ohio, Estados Unidos, na competição de 2003. A dupla brasileira ficou em 4º lugar na categoria de equipe para projetos de Engenharia, entre os 1.300 finalistas na Intel ISEF 2003. Este ano, nove trabalhos serão escolhidos para representar o Brasil na feira internacional.

Cientista é como jogador de futebol: tem que começar cedo

Por João Steiner*

Começar cedo é muito importante, porque a profissão científica exige uma profunda dedicação, identificação, exige treinamento e direcionamento para o tipo de atividade que a pessoa vai acabar exercendo.

Vamos fazer um paralelo com o jogador de futebol. Você não seleciona um jogador de futebol depois que ele fez 25 anos. Ele começa com seus 8, 9 anos, chutando uma bola, no campinho do bairro. Os "olheiros" já ficam em cima, já começam a dar um treinamento a ele que, com 16, 17 anos, já está jogando nos campeonatos juvenis.

Com o cientista também deve ser assim. A criança mostra seu talento muito cedo e eles precisam ser cultivados. Isso faz uma enorme diferença. Precisa ter o mínimo de ambiente, para que se desenvolva. Se um menino que tem muito talento para se tornar um grande jogador de futebol não consegue acesso à bola e um campinho de várzea, ele não terá a capacidade de exercitar o seu talento. Mas bastam as mínimas condições para que ele revele esse seu talento.

Tive um professor de Ciências que costumava dizer que para ser cientista é preciso aprender a trabalhar com barbante e prego. Dessa forma, você vai se exercitar e se capacitar para entender as coisas simples. As complexas vêm mais tarde, com o acesso a leituras, a conversas. A orientação de um professor de Ciências, como no meu caso, é extremamente importante para que a criança possa se situar no universo. Ele procurava arrumar livros, identificava livros para eu ler, conversava sobre Ciências. Pouca coisa, mas que faz uma grande diferença.

No Brasil, a gente precisa investir nos professores para que eles possam exercer esse papel, para que transmitam algum tipo de enstusiasmo, uma certa chama. Plutarco, um filósofo da Antiguidade, dizia que o aluno não é um balde que se enche, mas uma chama que se acende. É preciso alimentar essa chama, para que ela progrida por si mesma. É importante que haja professores interessados nisso, porque talentos existem muitos.

Na Alemanha, nos Estados Unidos, no Japão, a diferença é o ambiente acadêmico, e a existência de professores melhor treinados. Por isso eles conseguem formar mais cientistas do que nós. É preciso identificar e orientar esse estudante que demonstra ter talento para a Ciência. É preciso que alguém enxergue esse talento e faça com que ele progrida.

*João Steiner é diretor do IEA (Instituto de Estudos Avançados) da USP (Universidade de São Paulo), graduado em Física, com mestrado e doutorado em Astrofísica.

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