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A internet modificou os métodos da pesquisa acadêmica, tanto por ser um meio facilitador da comunicação entre os pesquisadores, quanto pelo fato de disponibilizar o acesso gratuito a diversas fontes, que antes só poderiam ser acessadas em bibliotecas ou revistas científicas. Hoje, a rede virtual é acreditada como um meio de adquirir informação de base para a realização de trabalhos científicos. Apesar disso, alguns pesquisadores ainda se queixam da falta de infra-estrutura que permita um acesso mais fácil e dinâmico às bases de dados online, e também da demanda por treinamentos que os dirijam para um uso mais consciente das possibilidades - e também dos perigos - que a pesquisa com base na internet pode oferecer.
Segundo uma pesquisa realizada pela professora e pesquisadora do IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia) Lena Vânia Ribeiro Pinheiro, que considerou os questionários respondidos por 1.307 pesquisadores no ano de 2003, o uso diário da Internet era então uma prática disseminada por 87,2% dos profissionais de diversas áreas acadêmicas. Somando-se a esse número os pesquisadores que disseram fazer uso freqüente da rede, com no mínimo dois acessos à internet por semana, a porcentagem chegava a mais de 90% dos entrevistados - sendo que 61,5% dos pesquisadores da amostra afirmavam utilizar a internet como recurso inicial de busca pela informação. Pinheiro, que é doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e orientadora de pesquisas relacionadas ao uso dos portais especializados, como o da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), ressalta a necessidade de se conhecer a procedência dos sites da internet na hora de utilizá-los como fontes: "Se quem produz o portal é uma entidade que realiza trabalho em ensino e pesquisa, e que é reconhecida pela sua reputação acadêmica, a fonte tem legitimidade". Ela afirma que, sendo considerada a importância dessa base institucional, o uso de referências da internet como parte formal da bibliografia de um trabalho científico é válido e cada vez mais propagado no meio acadêmico.
Um exemplo de uso disseminado da internet como fonte de informação acadêmica é o acesso a periódicos científicos digitais. As bases referenciais disponibilizadas pelo portal da Capes tiveram 4,6 milhões de acessos entre janeiro e maio de 2006. "O periódico é o canal de comunicação científico mais importante desde o seu surgimento, em 1665, até hoje. A versão digital não difere em nada da versão impressa. A legitimidade do periódico é indiscutível, mesmo que tenha sido criado no formato eletrônico. Se a entidade que o publica tem boa reputação no meio acadêmico, e se tem um comitê científico, ele pode ser utilizado como fonte na pesquisa", afirma Pinheiro. A pesquisadora do IBICT lembra que o rigor com a procedência das informações vale tanto para o uso de fontes primárias de informação científica - aquelas em que o pesquisador produz e comunica o resultado dos seus trabalhos - como também para as fontes secundárias, que agregam a produção acadêmica, como as bibliotecas digitais e os catálogos públicos e profissionais de informação.
O foco na comunicação
"Tenho sido, durante muitos anos, um aderente à teoria de Copérnico. Há muito tempo estou convencido de que a Lua é um corpo como a Terra. Descobri também uma multidão de estrelas fixas, a princípio invisíveis, ultrapassando mais de dez vezes as que se podem ver a olho nu, formando a Via Láctea." Esse trecho retirado da famosa carta de Galileu a Kepler, de 1597, mostra que nem mesmo a censura religiosa impediu os cientistas de conversarem sobre a discordância da idéia de geocentrismo e outras descobertas polêmicas da época. O que antes era feito por meio do correio, protegido por códigos e anagramas, hoje é feito pelo e-mail e pelos grupos de discussão."A prática da comunicação entre os pesquisadores sempre existiu, só que agora ela se faz pela internet", afirma Pinheiro."Na rede, o que é comunicação também passa informação. O que se trabalha em comunicação científica por meio da comunicação informal é a busca de contato com outros pesquisadores da sua área".
Um projeto do PPGCOM (Programa de Pós Graduação em Comunicação e Informação) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) se propõe a oferecer duas novas forma de comunicação entre pesquisadores acadêmicos por meio da colaboração e da escrita coletiva de artigos: o Co-Link e o Dicionário Social.
A tecnologia do Co-link permite aos usuários da internet uma novidade - a possibilidade de "editar" os links e transformá-los em caminhos multidirecionais. Ou seja, ao invés de clicar em um link e ser automaticamente direcionado a um único site, o usuário pode abrir uma lista de links para sites ou artigos relacionados àquele assunto e, além disso, pode editar essa lista de acordo com os seus interesses. "A importância dessa ferramenta para o pesquisador é foco na construção social do conhecimento. Não queremos apenas pensar no produto final da pesquisa, mas queremos valorizar o processo", afirma Alex Primo, idealizador do projeto e professor do PPGCOM. O Dicionário Social é um protótipo de comunidade de pesquisa que utiliza a tecnologia Co-link e agrega dois modelos conhecidos da internet em prol do conhecimento científico - já que é baseado em uma mistura da Wikipedia com o Orkut. O Dicionário Social funciona da seguinte maneira: os cadastrados podem escrever verbetes, dotados de links multidirecionais. Além disso, cada cadastrado deles tem um perfil, onde pode divulgar os verbetes do seu interesse. "Nosso foco é facilitar a formação de novos grupos de pesquisa e permitir o registro da memória coletiva", explica Primo.
O Dicionário Social está em fase de experimentação, e por isso ainda conta com poucos verbetes - a maioria deles produzidos por alunos da graduação em comunicação da UFRGS. Mas segundo Primo, o PPGCOM pretende dinamizar a construção do conhecimento acadêmico por meio da colaboração entre os pesquisadores a partir do ano que vem, quando a nova versão do projeto será lançada. "Quando leio um livro, tomo nota das coisas que me interessam nas margens. Mas a web não tem margens. Esse ambiente pode permitir as 'anotações' nas margens da web com base na escrita coletiva".
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