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Jovens e cigarro

Jovens entre 14 e 24 anos são o principal público-alvo da indústria do tabaco. Porém, há uma resposta da sociedade contra isso. Saiba o que as instituições de ensino superior e outras entidades têm feito para combater o tabagismo

Publicado em 09/06/2005 - 02:00

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Por Lilian Burgardt

Cada vez mais visados pelas grandes indústrias produtoras de tabaco, os jovens têm sido o principal alvo dos produtores cigarro. No Brasil, estudos mostram que a experimentação dos produtos derivados do tabaco vem aumentando, ao longo dos anos, especialmente entre as faixas etárias mais jovens, entre 14 e 24 anos de idade. A estimativa do Ministério da Saúde é que haja 2,8 milhões de fumantes nessa faixa etária.

Segundo a médica sanitarista da Divisão de Controle do Tabagismo do INCA (Instituto Nacional de Câncer) Luiza Goldfarb, este comportamento é, em parte, resultado da falsa imagem de glamour que a mídia manteve durante muito tempo associada ao consumo do cigarro. "Esta questão foi muito insuflada pela mídia para que o jovem experimentasse os derivados do tabaco como passaporte para a vida adulta", lamenta.

Isto, porque, nesta faixa etária os jovens são facilmente influenciáveis. Utilizando esse conceito, a indústria do tabaco investe pesado para atingí-los. Dados do Ministério da Saúde mostram que 90% dos fumantes ficam dependentes da nicotina entre 5 e 19 anos. "Sem dúvida, para a indústria este é um mercado promissor", revela. (Confira na página do INCA arquivos secretos da indústria do tabaco que confirmam seu interesse por este público alvo)

Um exemplo disso é a estudante do curso de Jornalismo do IMES (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), que não quis ter o seu nome identificado. Ela conta que começou a fumar quando ainda tinha 13 anos, por influência de uma amiga. "Ela era uma menina descolada e eu queria fazer parte da turma", lembra. "Dei o primeiro trago no banheiro da escola e continuei fumando até os 19 anos, quando tentei parar pela primeira vez", conta. Além da influência da amiga, a estudante também tinha o exemplo do consumo de cigarro dentro de casa. "Meu pai fumou durante 40 anos. Embora tenha sido uma decisão minha começar, certamente este motivo foi uma influência", diz.

Aproveitar o estresse e a correira do dia-a-dia para atingir os jovens é também uma estratégia muito utilizada pelas indústrias do tabaco, indica a médica sanitarista. "As campanhas estão fortemente associadas à descontração e à sensação de liberdade, como se o cigarro fosse um estilo de vida que permite ao fumante se desligar do estresse", lamenta Luiza.

Já com 20 anos, após um ano e meio sem fumar, e uma seqüência de fatores estressantes como ganho de peso ocasionado pelo sedentarismo e o estresse resultante do trabalho, ela acendeu o cigarro novamente e não conseguiu largar o vício. "O ex-fumante tem que se policiar sempre, porque, na verdade, ele gosta de fumar. Não basta largar o cigarro, é preciso fazer uma dieta equilibrada para evitar a ansiedade, praticar exercícios físicos, além de ter muita força de vontade para evitar a primeira tragada na hora do chope com os amigos ou em momentos estressantes quando fumar parece a melhor alternativa", declara a aluna de jornalismo, que está sem fumar há dois meses, desde maio de 2005, na segunda tentativa de abandonar definitivamente o vício.

Contra-ataque da sociedade

Mas o que é preciso fazer para conscientizar o jovem de que o cigarro faz mal à saúde? Segundo Luiza, é importante entender que para atingir o jovem é necessário utilizar uma linguagem diferente, mais impactante e em curto prazo. "A juventude é muito imediatista, não se preocupa com os problemas que o cigarro podem trazer daqui a 20 ou 30 anos. Por isso, não adianta falar para uma adolescente de 16 ou um jovem de 18 anos que ela vai ter câncer de pulmão aos 40. Mas, sim, apontar os problemas que podem impactar na sua vida no curto prazo", ressalta.

Segundo ela, campanhas que ressaltam problemas relacionados ao desempenho sexual, infertilidade e problemas estéticos ocasionados pelo consumo de cigarro possuem muito mais impacto entre os jovens. Um exemplo disso é o resultado de uma pesquisa elaborada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, mostrando que jovens entre 11 e 18 anos são mais sensíveis aos danos estéticos que o cigarro causa, como dentes amarelos e mau hálito, do que a incidência de doenças como câncer e problemas cardiovasculares.

Porém a sociedade brasileira tem se mostrado atenta a estes fatores e tomado medidas para combater o consumo de cigarro. Neste processo, as instituições de ensino superior têm desenvolvido importante papel. Além de realizar pesquisas na área com o objetivo de traçar o perfil dos consumidores de tabaco e o impacto que o consumo de cigarro tem na juventudade, muitas universidades têm criado grupos contra o tabagismo para ajudar os fumantes a largar o vício.

Um desses exemplos é a iniciativa do próprio governo federal que por intermédio do Ministério da Saúde determinou no último dia 31 de maio de 2005 (quando foi comemorado o Dia Mundial Sem Tabaco) que as redes de atendimento de saúde vinculadas ao SUS (Sistema Único de Saúde) irão oferecer recursos para o combate ao fumo. Além do atendimento gratuito, estarão disponíveis à população medicamentos como antidepressivos, gomas de mascar com nicotina ou adesivos anti-tabagismo.

No mesmo dia 31 de maio, a UEM (Universidade Estadual de Maringá) lançou seu programa de atendimento contra os dependentes do cigarro. O programa é formado por uma equipe multidisciplinar da qual participam médicos, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, entre outros especialistas capacitados por um programa anti-tabagismo do INCA. (Clique aqui e confira a cartilha do INCA com o passo-a-passo para deixar de fumar).

Segundo a psicóloga Maria Lúcia Dantas, uma das responsáveis pelo projeto, o programa presta atendimento para a população em geral, incluindo os jovens, sejam eles universitários ou não. "O objetivo é atender a todos os dependentes que desejam largar o vício", diz. Para isso, são realizados encontros semanais gratuitos com grupos de 12 a 15 pessoas. Durante as reuniões, eles recebem orientações, apoio e atendimento terapêutico. Além disso, quando necessários, também são ministrados medicamentos que ajudam no controle do vício.

A UnB (Universidade de Brasília) mantém um programa especial dentro da instituição contra o tabagismo que oferece sessões de apoio aos fumantes para largar a dependência do cigarro e também realiza pesquisas sobre o impacto do tabaco na vida dos fumantes e das pessoas que com eles convivem. Além disso, o consumo de cigarro dentro das dependências da universidade é proibido. A medida foi tomada pelo Ministério Público do Distrito Federal, em julho de 2004, na esperança de que os jovens diminuam seu consumo ou parem definitivamente de fumar dentro das instuições de ensino no Distrito Federal.

A USP (Universidade de São Paulo), a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) também mantêm em suas dependências programas de combate ao tabagismo. Todas elas possuem centros especializados para atendimento de dependentes de derivados do tabaco, sejam eles, alunos, servidores ou docentes da instituição.

Na Unicamp, os fumantes são atendidos no CECOM (Centro de Saúde da Comunidade) por equipes multidisciplinares formadas por médicos, enfermeiros e psicólogos que auxiliam os fumantes a largar o vício por meio de reuniões, discussões e sessões de terapia para combater sintomas como estresse, ansiedade que podem levar o fumante a procurar o cigarro. As reuniões semanais são realizadas em grupo e têm um hora e meia de duração.

Educação e conscientização dos jovens

Pensando em conscientizar os pré-adolescentes, o INCA também tem desempenhando importante papel no combate ao tabagismo. Em parceira com as escolas do ensino fundamental e médio, o programa Saber Saúde trabalha informações e uma reflexão consciente juntos ao jovens. "O programa procura conscientizar o jovem de que ele está inserido em um contexto muito mais amplo do que em seu próprio dia-a-dia, mostrando a ele qual o tamanho do impacto do cigarro na sociedade", explica Luiz Goldfarb. O programa Saber Saúde também trabalha a questão da dependência do álcool e outras drogas, do sedentarismo e de que maneira estes comportamentos podem prejudicar o indivíduo e a sociedade. O programa, que é realizado desde 1998, já atingiu 12 mil escolas de todo o Brasil.

Além disso, o INCA tem desenvolvido outras iniciativas pensando em atingir a juventude que fuma. Uma das propostas é o aumento do preço do maço de cigarro para diminuir o consumo entre as pessoas de menor poder aquisitivo. "A idéia é atingir os jovens que estão trabalhando há menos tempo e normalmente possuem menor poder aquisitivo. Com o aumento de preço é possível agir diretamente para a redução do consumo neste público-alvo", diz a médica sanitarista.

No entanto, ela complementa, que embora essa medida possa dar margem a um comportamento perverso, que é justamente colocar estas pessoas para fumarem produtos contrabandeados, a intenção é criar um projeto eficiente que evite esta atitude. "Estamos trabalhando para regulamentar os teores em todos os tipos de cigarro. Claro que esta não é uma medida de solução de curto prazo. Mas desta forma acreditamos que é possível segurar os produtos e controlar a indústria para impedir a venda dos famosos mata-ratos", explica.

Outra iniciativa que pretende atingir os jovens é que, no futuro, o INCA pretende desenvolver em parceria com as universidades um programa específico sobre tabagismo. Segundo Luiza, a intenção é capacitar os professores e conscientizar os alunos sobre o seu papel como cidadãos no combate ao consumo de derivados do tabaco. A intenção é trabalhar em conjunto com o Ensino Superior de duas formas: a primeira conscientizando alunos e professores sobre os benefícios de não fumar; e a segunda é disseminar entre os diferentes cursos um olhar crítico sobre o tema.

"É preciso discutir de que forma o aluno de Jornalismo, por exemplo, tem responsabilidade sobre a maneira que informa a população sobre o tabaco e de que maneira ele se posiciona em prol da saúde pública. Como o estudante de Publicidade deve olhar criticamente este produto antes de divulgá-lo. Alunos de Direito, por exemplo, como podem e devem se informar sobre a legislação internacional e nacional sobre tabagismo e, também, como os alunos de Economia podem avaliar de que maneira a economia nacional que produz muito tabaco pode sofrer uma transição sem impactar em nossa balança comercial. Estas são apenas algumas das discussões que podem ser inseridas dentro do das salas de aula das instituições de ensino superior para trabalhar contra o tabagismo. Assim a universidade está cumprindo seu papel de formar cidadãos conscientes e não apenas bons profissionais", destaca.

 

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